13 setembro 2007

O que os olhos choram

O que os olhos choram a boca não exprime, os lábios precisam de abrir e fechar, a voz precisa de vibrar, estremecer no peito como um trovão que se ouve bem de perto, sentado no chão, um trovão que vai cair mesmo perto, ao lado, à frente ou atrás, e aí o mundo desaba, a terra abre-se, serena. Intermitentes, as lágrimas caem no vazio, vão caíndo uma a uma, e as primeiras, as primeiras são as que têm para si guardada a tarefa mais difícil, desde a pálpebra de baixo até ao queixo é sempre a cair, o problema está em por onde começar, por onde ir, a pergunta impõe-se, decisiva, às primeiras lágrimas que caem de dois olhos, e o que os olhos choram a boca não exprime, esta secretamente encerra as palavras, e se mais cuidados forem precisos, as palavras aninham-se debaixo da língua, e aí ficam, esquecidas, todavia sempre prontas a colocarem-se no limite dos lábios, no limite do silêncio e enfim pularem para a sílaba, a palavra, a frase, e receberem outras. Algumas vezes, as lágrimas encontram-se com as palavras, mas também o sorriso se confunde com as palavras, e não esqueçamos que, não raras vezes, sem palavras que se consigam dizer quando o ar falta, as lágrimas entram, salgadas, onde os lábios se juntam, e a boca que exprime e diz mas que agora está calada vai beber as lágrimas que de lá de cima se chorou, que de lá de cima se deixaram cair, aflitas de não saberem onde morrer, e afinal encontram um refúgio seguro, uma boca que as beba, tão triste, uma boca que vai beber as lágrimas que os olhos choram é uma boca solitária, e que dizer dos olhos, também o são, é tudo tão triste, não ter outros lábios que nos venham beber as lágrimas, não ter outros olhos que nos olhem fundo na pupila, e ninguém que nos leve os dedos à pele da cara e nos enxugue toda a água salgada que ao fim de um dia fez um rio tão fundo. Mãe, porque é que o mar tem água, pergunta-se por aí, a resposta está no mal que se faz e no mal que depois se chora, o que os olhos choram a boca não exprime, estão ambos separados em tudo o que fazem, excepto quando os lábios sorriem, pois aí os olhos são obrigados a sorrir também para que não se possa mentir, e teremos a expressão de um fim sereno e repousado em que as lágrimas terminam e se pode respirar, limpar o sal dos lábios e recomeçar pois a noite começa hoje.

2 comentários:

Ana disse...

"...limpar o sal dos lábios e recomeçar pois a noite começa hoje."

...é assim :)

Susana A. disse...

a beleza das palavras :)