24 agosto 2007

Mãezinha

A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.


Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai do berço até à puberdade.


28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido

desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos...
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)
Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.


Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.


Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
tranquilamente no maior sossego,
às horas em que entrava e saía do emprego.


Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.


A que sobeja
chama-se Rosinha.
Foi essa que o meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.

Rómulo de Carvalho

3 comentários:

Diogo Vaz Pinto disse...

Nuno... ao menos responde-me


queres vir escrever connosco no melhor amigo??

Nuno disse...

diogo vaz pinto...

eu respondi. eu não seria capaz de ignorar o convite que me fizeste há uns 2 meses atrás (penso eu), e por isso mandei-te um mail (para o que tu tens indicado no teu blogue), mas agora vejo que não consegui fazer com que o recebesses, é pena, porque não queria que ficasses a pensar, como ficaste, que eu te ignorara. peço desculpa.

diogo, eu não acredito que pudesse ser útil ao melhor amigo, sinceramente, já é dificil para mim encontrar-me neste sitio tão pequeno, não é um passo que eu esteja preparado para dar. espero que entendas, e mais uma vez desculpa

um abraço

Diogo Vaz Pinto disse...

ok, nós esperamos pelo momento