"Tudo era claro, jovem, alado. O mar estava perto. Puríssimo. Doirado." - Eugénio de Andrade
30 agosto 2007
Do fundo das pedras
eu esperava sentado pelo Verão que chegasse,
pela lua que olhasse
e te visse beber a água do fundo das pedras,
eu esperava;
nesses dias o céu era tão azul,
e o mar era tão verde, atlântico;
depois tu voltavas de uma árvore, tão fresca,
ao sol, ao sol que resplandecia,
caminhavas e nem os teus passos se ouviam,
da tua boca nada se dizia,
tu voltavas, a tua saia quase tocava o chão
e nascia na cintura, acima do umbigo,
o teu peito adivinhava-se
entre os braços, que trazias cruzados,
e eu esperava, esperava sossegar desse tão
doloroso sorriso que tu fazias,
eu esperava outra vez pelo sol, pela lua que olhasse
e te visse beber a água do fundo das pedras.
24 agosto 2007
Mãezinha
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.
Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai do berço até à puberdade.
28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos...
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)
Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.
Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.
Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
tranquilamente no maior sossego,
às horas em que entrava e saía do emprego.
Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.
A que sobeja
chama-se Rosinha.
Foi essa que o meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.
Rómulo de Carvalho
Fotografia
Havia naquela fotografia um céu azul, um céu que não é de hoje, tão azul como aquele seria impossível agora, apenas se um pintor acordasse com o sol a entrar-lhe pela janela, pegasse no pincel, na paleta e escolhesse aquele azul para pintar aquele céu. Havia naquela fotografia um céu azul, um céu que não é de hoje, tão azul, muito claro, quase te obrigava a usar as tuas pálpebras para que não ficassem feridos os teus olhos, muito escuro, quase te obrigava a recuar para não te assustares, mas foi o que fizeste, com medo, Não, dizes tu, e eu bem sei que não foi com medo daquele azul escuro que recuaste, não, apenas quiseste olhá-lo melhor, porque aquele céu não é de hoje, não importam as pessoas que ali estão a sorrir, um casal em pé no dia em que se uniram para sempre, no dia do seu casamento, ele estava dentro de um fato datado, e sorria, o sol estava de frente, por isso tinha os olhos semi-cerrados, mas o sorriso ali ficou, era preciso mantê-lo a todo o custo, sabe-se lá o esforço que fazia o noivo, a expressão é a de quem necessita urgentemente de correr ao quarto de banho fazer das suas; o fato que trazia era quase tão azul como aquele céu que não é de hoje, e o desenho, o corte não é de hoje, por isso o recuaste, Sim, por isso recuei, Quiseste olhá-lo melhor, perceber que cores tem na verdade aquela grande tela que espera a melhor oportunidade, a melhor ocasião para ser pendurada num minúsculo e raquítico prego ferindo a parede, perceber que tamanha felicidade será a de quem se casa, um glorioso sentimento, um júbilo de nunca mais acabar de tão fugaz ser. Ela, a noiva, imediatamente ao lado esquerdo do marido, perigosamente perto, quase jazendo de cansaço, mas simplesmente muito feliz, era toda ela um vestido muito branco, imaculado como devem ser e como devem ser também as noivas, o vestido sabemos que o era, a noiva nunca o poderemos saber, seria indelicado perguntar-lhe, e no mínimo indecoroso. O braço direito tinha-o tomado o noivo, apaixonadamente, e o braço e a mão direitos traziam um bouquet vulgar, este casamento é um do seu tempo, feito de flores de laranjeira. Sabemos, e é o que nos basta, que aquele céu não é de hoje, quem quer que tome o esforço de virar a testa para cima facilmente o constata, o céu que nos serve de tecto não é hoje tão azul, pelo menos em proporção ao dos tempos de nossos pais. E na verdade alguns anos passaram, ninguém poderá dizer quantos, mas tu e eu sabemos, vinte e cinco anos passaram, um quarto de século passou, nove mil cento e vinte cinco dias, e na verdade eu e tu sabemos que aquele céu não é de hoje, tão azul, muito claro e muito escuro que se tinha estendido em cima das cabeças daquele casal que sorria no dia do seu casamento, ele de fato azul de época, curto nas mangas e nas calças, as meias brancas, a gravata muito estreita, simplista, oh moda, oh tendência, oh estilo, por que provações terá o homem de passar. E ela de vestido de noiva, claro está, que as noivas querem-se de branco, ou não o são, noivas obviamente, e o branco será eterno, imaculado, as luvas de renda e o véu a rematar, que linda renda também, e era um dia de sol e claridade e sorriam para a fotografia à frente de uma casa nova, a estrear pelos noivos, o seu ninho de casados, que felizes estão, naquele dia de claridade e de céu azul, tão azul que dizemos que não é de hoje.
Havia naquele dia uma brisa intemporal, alguns dias de sol trazem uma brisa leve, e um segredo invade o ar, um mistério que nem sequer se sabe que é mistério, trata-te portanto de um segredo bem guardado, uma voz que não se ouve, uma brisa que não transparece mas que se sente, quase se pode partir e repartir, porque quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, é tolo ou não tem arte, mas ninguém ali pretende partir e repartir o ar, que tolice, imaginar que se pode repartir a atmosfera, os noivos certamente estarão longe de o pensar sequer, estão à frente de sua casa à espera que o fotógrafo decide que bastam as fotografias, que os convidados decidam que bastam as conversas, que entreguem os seus cumprimentos e que se vão embora, que os pais do noivo e os pais da noiva entreguem as suas últimas recomendações, Filha querida que deixas de ser minha, sê boa mulher para o teu marido, Filho querido que deixas de ser meu, governa tua casa como eu governei a minha, mão firme, e respeita tua mulher, que é tua de direito e de imaculado matrimónio, que se vão embora por fim para que os noivos dêem início às suas vidas de marido e mulher, que a vida verdadeiramente começa agora, naquele dia de sol e claridade e de brisa secreta quase palpável, divisível, ao contrário daquela santificada pessoa divina, que é indivisível e, o que é mais, una.
Unos estão agora os noivos, ele dentro dela e ela fora dele, para ele é um regozijo, para ela uma quase-dor que não se suporta, o suor frio do pecado inicial e capital, morde-se o fruto, cai um pomar, rasga-se a dor, sofre-se por amor, e o acto fica consumado, para ele é um regozijo, o prazer de sucumbir ao desejo, para ela é uma desilusão, uma quase-dor, uma frustração, ainda tão frescas as palavras de sua mãe, virão outras, o sexo é ocasional, homem e mulher deitam-se juntos todas as noites, basta o toque de uma perna na outra perna para acontecer, para se revelar o sexo escancarado, perdoe-se o empréstimo da expressão, a camisa de dormir sobe até à cintura, a calça desce até ao joelho, passa um minuto e começa o prazer de um, a quase-dor de outro, passa outro minuto e o prazer desce até à espinha, o prazer de um é finalmente o prazer de outro, passa outro minuto sem que esta música se acabe, as bocas juntam-se para respirar, o ar de um é o ar do outro, pedra ofegante, os olhos obrigam-se a fechar, as pálpebras querem-se bem cerradas quando tudo acabar, passa outro minuto, o derradeiro, o prazer de um é o prazer do outro, os corpos ardem, as pernas cingem-se à cintura, não há hipótese de fugir, não agora, os braços constroem um abraço sufocante, as unhas apertam, a pele agoniza, nada mais importa, o prazer de um é o prazer de outro, o prazer, o prazer é agora, solta-se o fruto, a terra é fértil, será plantado, assim será, pode-se respirar, abrir os olhos, é o momento, o grito sai da boca, o prazer de um, o gemido pára à porta dos lábios, é o prazer do outro.
Este céu não é de hoje...
18 agosto 2007
17 julho 2007
submarino.
E de tanto ser rio
o teu cabelo perde-se
no mar aberto, na planície
atlântica que subitamente termina
nas falésias, desfazendo-se em ondas,
ou num areal quente
de tanto esperar pelo sol.
Lisa, recôndita, a tua pele
é um refúgio de aroma breve,
imperfeito,
um espelho de sal que apetece
percorrer com os lábios e a língua,
morder o fruto, saciar
todo o verão no sal da tua pele.
As noites são tantas ainda...
12 julho 2007
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
esta perna é tua?, é teu este braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.
Eugénio de Andrade
25 junho 2007
É uma espécie de corrente
Há uns meses descobri o Miguel Torga. Li a "Criação do Mundo", que no fundo é a vida do autor contada em cinco dias: a criação é a criação do seu mundo, do ser que o habita, e em cinco dias vão-se contando histórias de S. Martinho de Anta, do Brasil, de Coimbra... Não fosse o meu périplo pelo Saramago ainda a meio, tinha já satisfeito a curiosidade que ficou depois de ler a "Criação do Mundo".
Recentemente, li "Levantado do Chão", de José Saramago. É Saramago avançado, como eu costumo dizer, mas não é difícil de ler sobretudo depois de se passar pelo "Ensaio Sobre a Cegueira" e o "Evangelho Segundo Jesus Cristo". "Levantado do Chão" é um livro sobre o Alentejo, sobre as gentes do Alentejo, sobre o latifúndio, o trabalho na terra, o sofrimento do povo trabalhador, mas gira sobretudo à volta de uma família e de tudo o que lhe acontece. É por vezes muito forte nas imagens e relatos.
Na minha estante está também "O Arco do Triunfo", de Erich Maria Remarque. Em Paris, vésperas da Segunda Guerra, Ravic (nome falso) é checo, trabalha como médico numa clínica, é clandestino e vive durante a noite, mas sempre com medo de ser apanhado e repatriado. São sobretudo comoventes as imagens dos quartos por onde Ravic vai passando, os monólogos que tem consigo mesmo, a vida desolada e quase sem sentido, e a paixão por Joan Madou...
Na minha mesinha de cabeceira está sempre o Eugénio de Andrade, ou o Eça, e o Calvin...
Obrigado ao CBS pelo desafio, e desculpas pela distracção.
24 junho 2007
A saudade está nos teus olhos,
candeias abertas à luz escura
de uma noite fria, o vento não pára,
o não estares aqui custa-me a cor
da minha pele, mostram-se os ossos
aos ossos do sol.
no respirar pesado e grave,
o desânimo absoluto escurece
as paredes como a humidade,
o sorriso desaparece
do domínio dos lábios.
está nos teus braços, quando
abraças o ar, o vazio,
a ausência de um corpo,
a saudade é uma luz
esquelética, sem cor,
perene. Saudade
é saudade.
10 junho 2007
Despidos, o meu corpo e o teu
encontram-se como aves
de primavera na primeira
luz fria da manhã.
Braço, língua, lábios, o teu ventre
é um pomar, as abelhas chegam
com o sol, vão beber o pólen
às flores, e eu vou com elas,
beber-te nas horas de sombra
e de escuridão.
polidas, eu não as vejo,
só tu observas aquela luz
fria que indistintamente
começa com o dia,
o frio lentamente cede lugar
ao calor de um primeiro dia
de Verão.
A música é quase sempre azul,
os teus olhos sempre castanhos.
Era uma noite fresca, orvalhada
num desses teus jardins,
uma vela morria queimando o ar,
o mesmo que tu respiravas,
nos lençóis azuis tu adormecias
num abandono presente,
vincando a tua pele na pele
dos lençóis,,
a noite era tua,
tu eras a noite, apetecia
adormecer na palidez
metálica do teu pescoço,
nas breves areias
do teu peito, apetecia
ficar neste silêncio
de morte,
e esquecer.
Liberdade
Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...
Fernando Pessoa
09 junho 2007
Vou abrir uma excepção. A começar agora.
Estou de férias. Acabou tudo. Ontem.
Obrigado a mim e a quem quer que tudo corra bem,
obrigado ao Beethoven e aos Smiths pela companhia
que me fizeram nas viagens pelo Código Civil, obrigado
ao Marx, que torna a economia política tão assustadora
e por isso tão interessante, obrigado ao prof. Vital Moreira
por ser tão engraçado na TV e nas aulas, obrigado
ao prof. Sousa Ribeiro por aquele recorte de jornal com
uma super-modelo semi-nua do outro lado, virado para
o auditório sorridente, obrigado à cafeína tomada várias
vezes ao dia. Obrigado ao Horatio Caine, ao Gil Grissom,
ao Conan O´Brien e ao Family Guy, à família Simpson.
Obrigado aos blocos de papel pautado, às canetas, que
escrevem, e por fim ao tempo, porque existe e nunca está
parado.
Peço desculpa, mas agora quero Verão. E livros,
e música sem ter numa sebenta o princípio e o fim,
o Direito como pretexto e como espectro cinzento vindo
da Twilight Zone, agora quero o não-fazer, o cheiro a Verão
num dia de calor ao abrir a janela, o mar como horizonte,
os dias intermináveis entre a praia e os amigos.
O trabalho compensa.
Peço desculpa, mas estou de férias.
29 maio 2007
V
25 maio 2007
17 maio 2007
IV
11 maio 2007
allegro ma non troppo
o poeta sofre sem chão,
as paredes ruiram, o tecto desabou,
o silêncio permanece
tão escuro, massa de ar frio,
e as lágrimas caem no papel
que só fala quando lhe escrevem
em cima, o ofício do poeta
é o desencontro, o vazio,
a palavra trabalhada, as mãos
que interminavelmente vão beber
um choro angustiado,
o orvalho e as giestas,
o mar teus olhos tão verdes,
e de novo o silêncio, ou
este ar tão pesado, ofegante,
pedra cintilante, ou o teu sorriso,
allegro ma non troppo.
08 maio 2007
III
Por isso eu sigo para os lugares onde gostas de adormecer, é essa a minha história, é essa que te conto, e a que queres ouvir todas as noites. As palavras que te vou dizer ainda não as sei, ainda não as conheço, vou descobri-as enquanto não te encontrar, enquanto te procurar. Talvez te escondas nas margens de um Inverno que deve estar para chegar, ou nas malhas de um cachecol que espera dias mais frios para aquecer o teu pescoço, não sei.
Durante quatrocentos anos sonhei com manhãs no mar, o vento salgado nos olhos. Como tudo era simples! Ouves a chuva a pingar através das folhas? Quantas semanas já passaram? Sinto que o Verão está a ir-se embora… Tu não respondias, e era esse o tempo de falarmos, de olharmos nos nossos olhos. Um dia, não há muito tempo, talvez te lembres dessa manhã, acordámos
Desço as escadas, como são pesadas, ou serão os meus passos, lá fora paira um dia nublado, pombos nos beirais, e tu que não voltas, e eu que ainda não te encontrei. É preciso ir buscar-te, é preciso falar-te, ter a certeza que respiras antes de falar e de me dizer, Olá, e de eu te pedir, Volta. É nesta rua que estás, é o que te pergunto, não te esqueças que estarás sempre comigo, sempre a tua pele ou o teu cabelo, não, aqui não te encontro… Nesta outra rua também não, talvez do outro lado da cidade, quem sabe, ou no fundo de uma rua aberta para as margens de um rio, e mesmo aí continuo sem saber o que fazer, confesso que tenho medo. E foi ontem o dia em que chegaste, trazias um vento quente, que já não é destes dias, e quando nos deitámos chegou o Outono. Estou a pé, não sei já quanto andei, e passa sempre uma eternidade quando nos sentimos infelizes. Parece-me que já passei por aqui, nos cafés ninguém se incomoda, ninguém liga, as pessoas vão dormir calmamente e eu procuro-te, quase te vejo do outro lado de uma esquina, mas aquele cabelo não é o teu, aquele andar e a aqueles dois ombros não são os teus. E agora sim, pela primeira e última vez até te encontrar, quem sabe, são lágrimas, muitas, como um fio, que deixo cair até à boca. Eu sei, nesta cidade não estás, e não me apetece procurar-te debaixo de cada pedra, nas caves dos prédios que são tantos, e tu não irias para qualquer um desses lugares. Foste para outro lugar, ao Sul, é para aí que vou, tenho a certeza, foste ver o mar, foste ver passar o verde do céu, depois o azul, depois o cinzento, eu sei, não repitas, um dia acordaste e viste-o branco. Chove tanto, e eu saio para te ver, vou viajar, vou para Sul, far-me-á bem sair um pouco das muralhas do castelo.
02 maio 2007
||
Ontem foi o dia em que chegaste. Ontem foi o dia em que chegaste, disseste tu, com os olhos bem abertos, cheios de lágrimas de luz, como se o sol e a lua tos pintassem ao mesmo tempo, como se não houvesse noite nem dia para distinguir as cores do teu cabelo, e das ondas desse mar, já não sei hoje o que é onda de mar e cabelo teu. Gritaste do fundo dessa nuvem, falavas e não ouvia, às tantas nem ouvias tu já o que dizias, mas hoje sei o que disseste, Espero-te na volta de um beijo, foi o que disseste, e disse-mo a primeira luz do dia, a primeira luz fria da manhã. Não o ouvi de ti, mas antes queria, preferia ver-te abrir e fechar os lábios, ouvir-te prolongar essa última sílaba sempre eterna, como se construísses um suspiro feito de fins de palavras. Espero-te na volta de um beijo, suspiraste, mas eu não ouvi.
E agora que não sei onde estás de que me valerá sabê-lo, é o que pergunto, talvez valha, talvez siga para os lugares onde exista esse vermelho de que te pintaram os lábios, esse vermelho-tu, que vai sendo um vermelho-eu também. Talvez procure quando uma nuvem para onde estiver a olhar se pinte de vermelho-tu, e a siga até que essa nuvem chova em mim e te possa colher como um fruto na minha mão, depois na minha boca, depois no meu corpo, até não sabermos mais com certeza onde acaba esse vermelho-tu e onde começa esse vermelho-eu. E na verdade foi apenas há umas horas que estivemos juntos debaixo das pedras do castelo, era ali que gostávamos de ficar sem saber para onde ir, sem precisar sequer de ir a lugar algum.
Eu sei, eu soube sempre que gostavas de ficar alguns minutos a olhar o verde do céu, depois o azul e o cinzento, ver passar aquele vento quente de Setembro, depois esse que vem frio, gostavas de ver cair a chuva, depois olhar para uma gota que fazias parar no ar, suspensa, e dizias, Aqui estás tu, lá em baixo estou eu, e depois fazê-la cair no chão seco, como alguém que espera um beijo. E era nesses dias que gostavas de te sentar, ver passar o fio do tempo recortado por essas palavras que dizias, soltas ou entrelaçadas, húmidas se tocavam os teus lábios, secas se vinham como um grito, mas sempre querendo ir buscar-te ao fundo desses dias onde gostavas de te sentar, sem nada que ouvisses, sem nada que visses ou quisesses ver, e levava-te por um abraço, mais ou menos apertado, mas sempre esses braços cingindo-te, resgatando-te.
Gostavas de ficar alguns minutos a olhar o verde do céu, depois o azul, o cinzento, um dia destes acordaste e viste-o branco, no outro dia anoiteceu pintado de laranja claro, e foi um sonho que tiveste, não sei e não sabes se por causa da cor do céu, se por causa dessa lua que te chamava. Sonhaste que ela vinha também, não a lua, mas uma voz que tinha uma boca, uma boca que tinha um rosto, rosto esse que tinha um cabelo e pescoço, um cabelo e pescoço que tinham ombros, esses ombros e cabelo de que falo e que eu tanto quero tinham um peito onde cair, esse peito que falo e que também quero tinha uma cintura, essa cintura, acaso os teus olhos desviam para lá o olhar (secretamente), não termina nunca, mas logo logo começam as pernas, sem que disso te apercebas, brancas de marfim, e essa voz que tinha um corpo era ela, era um corpo que tinha uma voz, uma música, um embalo onde te pudesses sentar e ver as cores do céu passar, não sozinho nem adormecido já, mas junto a esse corpo que tem uma voz, a essa voz que tem um corpo. O teu.
26 abril 2007
I
A luz das pedras do castelo caía sobre a cidade. E àquela hora do dia o castelo parecia maior, não sei porquê, talvez fosse uma ilusão dada por certa inclinação do sol e do jogo de sombras que ali se jogava ou pela exactidão da hora e do calor, e houve então uma espécie de véu, uma espécie de miragem que nos fazia olhar para aquelas pedras de outra maneira, para aquele rochedo secular, aquele colosso quase maior que o próprio monte onde alguém teve a ideia de o construir há oito séculos atrás. A luz que caía das pedras do castelo era bem conhecida por quem vivia na sombra daquelas muralhas, voltamos a falar delas porque elas são a vida de muita gente, ali morreram muitas lágrimas, sozinhas ou junto a outras do seu género, ou mesmo, não se sabe, junto a outras de outro género, essas a que chamamos de crocodilo, pois essas não são verdadeiras, todos sabemos que o animal crocodilo se deixa chorar não por desgosto, mas porque é esse o resultado de uma refeição conseguida e apreciada. A luz, dizíamos, caía das pedras do castelo, era uma luz branca de dia, mas uma luz de vela assim que anoitecia, empurrada contra as muralhas, como se ali sempre tivesse existido um ponto de luz, como se ali sempre tivessem estado as pedras, umas sobre as outras, formando ameias, torreões, muralhas, chão e tecto de divisões interiores, aposentos ou quartos, ou como lhes quisermos chamar. E a cidade lá estava, desde sempre dizemos nós, um manto de retalhos de luz, Tantas ruas, disseste a meia-voz, Parecem dormir, respondi eu. Das muralhas do castelo é a impressão que temos. Aqui estamos nós. Debaixo da luz das pedras do castelo. Dormimos, não dormimos, não sabemos já, estamos exaustos, entregámo-nos um ao outro, foi há poucos segundos, Ainda trago os teus olhos nos meus, o teu cabelo acabou de sossegar. Dorme.
Sabes o que te quero dizer. Talvez ontem não soubesse, nem o soubesses tu, mas subia no ar um murmúrio, o ar estava quente, ainda não cansado mas já pesado, o vento entrava pelos nossos cabelos, entrava na nossa pele sem pedir, saía sem dizer, Água vai, quando estava longe apenas dizia, Água vem, e ficávamos parados sem nada dizer, que é como quem diz, ficávamos calados, convém esclarecer, muitas vezes estamos calados e dizemos muito, mas nesta situação calados estávamos e mudos ali ficámos. Depois o dia adormeceu com as muralhas do castelo, deixou-nos por algumas horas, então adormecemos também por fim, é o que fazem as pessoas quando não suportam a espera de um novo dia, mas que não têm medo dele. O dia começa cedo, não quando já vai a meio, ou quase no fim, nesse caso para quê acordar, para quê sairmos da cama, para quê respirar, poderíamos perguntar se nos apetecesse, e é o que perguntamos, Para quê este céu, que já não é tal azul como no tempo de nosso pais, e então ficaríamos outra vez mudos, porque a resposta não vem, tarda a vir ou virá entretanto, embora nos pareça pouco provável. Não interessa todavia o que pensamos, se aqui estamos, se aqui podemos estar foi porque nos deixaram, não vamos então perder o tempo com histórias que nem mesmo para nós são importantes. Dormimos, ou pareceu-me que dormimos, como podemos ter a certeza que dormimos se não nos lembramos o que fizemos, se nos virámos para o lado direito quinze minutos depois de adormecermos, se mexemos aquele pé, e não o outro, se abraçámos quem quer que estivesse ao nosso lado, se nos beijámos. Apesar de tudo isto que fica dito, dormimos.
25 abril 2007
Mais Abril
Eu vi Abril por fora e Abril por dentro
Eu vi chorar Abril e Abril partir
Vi o Abril que ganha e Abril que perde
Manuel Alegre
12 abril 2007
Para onde vão os teus cravos
se Abril tarda em chegar?
Que guitarras acolhem
o teu dedilhar secreto,
maduro,
se te magoam os
dedos ao tocar?
Nas curvas de uma guitarra,
As cordas bem afinadas,
Percorreu a madeira,
preencheu as paredes das salas
vazias, e os corações sentiram
a tua dor tão pesada,
como cravos orvalhados
ao sol.
Lírio de Israel, para onde vão
Os teus cravos se Abril tarda
Em chegar?
A Carlos Paredes
04 abril 2007
02 abril 2007
Encontro-te
Encontro-te de noite quando a lua vem,
branca e pálida,
encontro-te no ritmo dos barcos,
no ritmo das palavras contra as rochas.
na raiz mais funda de uma árvore, escondida
no escuro da terra,
encontro-te no céu tão alta
como uma estrela,
encontro-te a meio caminho de uma nebulosa,
em concreto, em vão, eu te encontro.
perene, tão perto de mim - única saída é
estremecer, fechar os olhos, entregar-me
aos teus lábios, juntar-me a ti e deixar-me
dormir, cansado e feliz.
25 março 2007

Quando eras azul, e te pintavas de verde,
eu ia descobrir-te entre as marés,
onda, pedra solta do fundo do mar,
búzio onde toca um disco sem parar.
Eu ia descobrir-te sem sono, acordada,
à espera do sol que viesse, do dia
que nascesse, que acordasse este
chão, e teus lençóis tão brancos.
E tu nunca vias o dia a chegar, nunca,
e eu chegava sempre antes do sol,
encostava a minha pele à tua pele,
e adormecíamos, cansados e nus.