"Tudo era claro, jovem, alado. O mar estava perto. Puríssimo. Doirado." - Eugénio de Andrade
26 julho 2011
ceifeira de portugal
em todas elas as ruínas, os despojos
das tuas casas brancas ___ habitam-nas os corvos.
Nas tuas mãos encontrava uma aspereza
de rocha, o deserto todo em sede.
E os teus dedos, caminhos nocturnos
de uma solidão lezíria e triste,
cheios de uma paixão inexorável.
Gumes acesos ainda.
E durante muitos dias - os de vigília aturada -
senti-te subir descalça a minha rua
o rosto escondido numa sombra original
___ nenhuma luz a desenhou.
Mas ouço ainda suspensa nos dias
contraponto e fuga toda música das colinas
e agora pertences à clausura das muralhas,
a uma velha barbacã
agora pertences aos dias exactos
e pendulares do cerco.
Nascem então horas intermináveis e incompreensíveis
depois do fogo: nessa geografia luminosa
onde Roma é eterna
e todas as cidades são Lisboa.
02 julho 2011
A crack on the head
Unruly boys
who will not grow up
must be taken in hand
Unruly girls
who will not settle down
they must be taken in hand
A crack on the head
is what you get for not asking
and a crack on the head
is what you get for asking
01 julho 2011
30 junho 2011
22 junho 2011
The Boss...
I'm on Fire
welcome to elsinore
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte
violar-nos
tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas
portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsinor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Mário Cesariny
21 junho 2011
trova (andante)
falta agora saberes pintar os dedos
com ela pintar com os dedos
os ombros
a tua breve canção.
Que bom aprendeste no piano
a martelar os dias com o ritmo
solar,
a beber dos ombros dourados
a tua breve canção.
Que bom é saberes finalmente
a que dia pertencem as flores
que roubam às palavras
que roubam os dedos
que pintam os ombros ao piano
onde aprendeste a tua
breve canção
20 junho 2011
o corpo que habito, mutilado.
há debaixo daquela ponte um rio inteiro
a correr eu ouço-o e sinto-o cá muito em cima,
somos um,
e eu quero saber se ele existe.
E os gatos,
ainda se deitam nos telhados?
Furiosamente quero arrancar-te
as mãos dos pulsos
para que desçam elas próprias
aos meus bolsos
e vejam, sintam,
elas que levem o último cravo do meu peito.
Quero saber se é real
este falso exílio da dor,
uma dor sem rios, sem a sombra dos penedos.
Nela, só cravos caídos no chão,
esperanças adiadas.
Quero saber se existem.
18 junho 2011
e. e. cummings
of your electric fur, and what-is-it comes
over parting flesh… And eyes big love-crumbs,
of under me you so quite new
05 junho 2011
11 maio 2011
02 maio 2011
Roger Taylor
My new purple shoes
Bin amazin' the people next door
And my rock'n'roll forty fives
Bin enragin' the folks on the lower floor
I got a way with the girls on my block
Try my best to be a real individual
And when we go down to smokies and rock
They line up like it's some kind of ritual
Oh give me a good guitar
And you can say that my hair's a disgrace
Or just find me an open car
I'll make the speed of light outa this place
I like the good things in life
But most of the best things ain't free
It's the same situation just cuts like a knife
When you're young and you're poor and you're crazy
Young and you're crazy...
Oh give me a good guitar
And you can say that my hair's a disgrace
Or just find me an open car
I'll make the speed of light outa this place
01 maio 2011
são nocturnas
todas as esperas
são longas planícies
onde vamos descalços
beber a noite azul
todas as esperas
são circulares
abandonadas
são gestos rápidos
nervosos
um desencontro de mãos
tu sabes o que são as ruas
longos braços que não
se cruzam, apenas tentam,
ensaiam abraços, estreitando-os,
mas tu não podias, tu não cabes
nessa rigidez,
e pedias um terramoto
um deslizamento
que encurtasse o espaço
entre os olhos, o tempo da espera
por essa rua que desce
até ao mar.
30 abril 2011
na rua na noite na rua de todas as esquinas.
há um abraço eu sei mas há também
uma rua que torta se deita pela noite
e nela descansa os seus cansados braços
e em todas as noites há um abraço
esse mesmo, aquele que trazes aos ombros
aquele que eu procurava na noite
de todos os abraços.
21 abril 2011
16 abril 2011
Abril
essa tua sede
de muitos cravos vermelhos
arrancados do chão
eu conheço a tua sede
de ventos levantes
que dominam a tarde
e sobem pelas colinas.
ainda é cedo, descansa,
para matares a tua sede,
há ainda toda a distância
que inventámos,
um país inteiro
com um chão de trigo
pinheiros
planície
aluvião.
ainda é cedo, não bebas já
toda a tua sede,
porque
os cravos serão as tuas
próprias mãos
abertas
vermelhas
livres.
Soljenitsyn
do que podes
transportar contigo;
Conhece línguas, conhece países,
conhece pessoas.
Deixa que a tua memória
seja o teu saco
de viagem.
Alexander Soljenitsyn.
Preserve your memories, they're all that's left you...
13 abril 2011
Ode à noite
a distância
e a dor
que é percorrê-la.
não tem rosto, porque a recebemos
no escuro.
não tem mãos, porque apodera-nos
a solidão.
da insónia conheço também
o desespero, a lívida cor
de estar, simplesmente.
simplesmente
existir e viajar pela noite
por um quarto onde descansar.
barato e junto à estrada.
12 abril 2011
i am not sorry when sun and rain make april
i am a little church(no great cathedral)
far from the splendor and squalor of hurrying cities
-i do not worry if briefer days grow briefest,
i am not sorry when sun and rain make april
my life is the life of the reaper and the sower;
my prayers are prayers of earth's own clumsily striving
(finding and losing and laughing and crying)children
whose any sadness or joy is my grief or my gladness
around me surges a miracle of unceasing
birth and glory and death and resurrection:
over my sleeping self float flaming symbols
of hope,and i wake to a perfect patience of mountains
i am a little church(far from the frantic
world with its rapture and anguish)at peace with nature
-i do not worry if longer nights grow longest;
i am not sorry when silence becomes singing
winter by spring,i lift my diminutive spire to
merciful Him Whose only now is forever:
standing erect in the deathless truth of His presence
(welcoming humbly His light and proudly His darkness)
e. e. cummings
11 abril 2011
um chão que te engula
um telefone que te cante
boas notícias
finalmente.
é urgente que encontres
um novo grito,
um novo espaço, cruel e frio
onde deites as tuas costas
e te sepultes com o teu
silêncio.
Risca depressa uma ave no céu
que te acompanhe,
mil novecentos e oitenta foi apenas
ontem, desenha
muitas estrelas que sorriam
a quem tens ao lado
e trazes sempre pela mão.
Como é impossível
a distância entre
duas margens. Como
é impossível a distância
entre o trigo e os penedos.
É essa a existência provável
dos castelos.
09 abril 2011
Alentejo
a invenção do território
e da distância.
Acalma-se por fim o chão,
deitam-se as serras, chega então a planície
e com ela a invenção da distância.
As colinas contemplam
a hipótese do fogo,
o arado da terra
são as botas dos soldados
e no entanto
está tudo bem,
está tudo bem
Luísa e os outros
Nas tuas mãos, Luísa, eu vejo
os dedos com que devoras a fruta
e as palavras inteiras onde
a verdade e o erro
o tempo e a espada
são filhos de uma primaveril
reabilitação do corpo.
Está tudo bem Luísa
e os outros: com duas mãos
e bom trigo se faz um pão.
Agora senta-te, traz um queijo
e conversa comigo.
16 março 2011
04 fevereiro 2011
O'Neill, Meditação na pastelaria
Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.
Nunca se sabe quando começa a insolência!
Que tempo este, meu Deus, uma senhora
Está sempre em perigo e o perigo
Em cada rua, em cada olhar,
Em cada sorriso ou gesto
De boa-educação!
A inspecção irónica das pernas,
Eis o que os homens sabem oferecer-nos,
Inspecção demorada e ascendente,
Acompanhada de assobios
E de sorrisos que se abrem e se fecham
Procurando uma fresta, uma fraqueza
Qualquer da nossa parte…
*
Mas uma senhora é uma senhora.
Só vê a malícia quem a tem.
Uma senhora passa
E ladrar é o seu dever — se tanto for preciso!
O pó de arroz:
Horrível!
O bâton:
Igual!
O amor de Raul é já uma saudade,
Foi sempre uma saudade…
(O escritório
Toma-lhe todo o tempo?
Desconfio que não…)
Filhos tivemos um:
Desapareceu…
E já nem sei chorar!
*
Chorar...
Como eu queria poder chorar!
Chorar encostada a uma saudade
Bem maior do que eu,
Que não fosse esta tristeza
Absurda de cada dia:
Unha
Quebrada de melancolia...
Perdi tudo, quase tudo...
Hoje,
Resta-me a devoção
E este pequeno inteligente cão.
Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.











