17 julho 2007

Post Scriptum quase fugaz


(a curva de luz que hoje vi
nascer foi um sopro de sol,
um último fechar de olhos,
uma lágrima que desce sozinha
até à minha boca).

Quase que te senti abrir os
olhos esta manhã.

12 julho 2007

Cala-te, a luz arde entre os lábios
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
esta perna é tua?, é teu este braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.

Eugénio de Andrade

25 junho 2007

É uma espécie de corrente

Em estado de graça e no começo das férias depois de um ano em que meses como Janeiro, metade de Fevereiro e Maio parece que não existiram, a minha estante quase não se mexe - os livros lá estão alinhados, muito quietos, pacíficos. A minha relação com eles é, provisoriamente, ideal, platónica.

Há uns meses descobri o Miguel Torga. Li a "Criação do Mundo", que no fundo é a vida do autor contada em cinco dias: a criação é a criação do seu mundo, do ser que o habita, e em cinco dias vão-se contando histórias de S. Martinho de Anta, do Brasil, de Coimbra... Não fosse o meu périplo pelo Saramago ainda a meio, tinha já satisfeito a curiosidade que ficou depois de ler a "Criação do Mundo".

Recentemente, li "Levantado do Chão", de José Saramago. É Saramago avançado, como eu costumo dizer, mas não é difícil de ler sobretudo depois de se passar pelo "Ensaio Sobre a Cegueira" e o "Evangelho Segundo Jesus Cristo". "Levantado do Chão" é um livro sobre o Alentejo, sobre as gentes do Alentejo, sobre o latifúndio, o trabalho na terra, o sofrimento do povo trabalhador, mas gira sobretudo à volta de uma família e de tudo o que lhe acontece. É por vezes muito forte nas imagens e relatos.

Na minha estante está também "O Arco do Triunfo", de Erich Maria Remarque. Em Paris, vésperas da Segunda Guerra, Ravic (nome falso) é checo, trabalha como médico numa clínica, é clandestino e vive durante a noite, mas sempre com medo de ser apanhado e repatriado. São sobretudo comoventes as imagens dos quartos por onde Ravic vai passando, os monólogos que tem consigo mesmo, a vida desolada e quase sem sentido, e a paixão por Joan Madou...

Na minha mesinha de cabeceira está sempre o Eugénio de Andrade, ou o Eça, e o Calvin...
Obrigado ao CBS pelo desafio, e desculpas pela distracção.

24 junho 2007

A saudade está nos teus olhos,
candeias abertas à luz escura
de uma noite fria, o vento não pára,
o não estares aqui custa-me a cor
da minha pele, mostram-se os ossos
aos ossos do sol.

A saudade vê-se nos olhos,
no respirar pesado e grave,
o desânimo absoluto escurece
as paredes como a humidade,
o sorriso desaparece
do domínio dos lábios.

O desenho da saudade
está nos teus braços, quando
abraças o ar, o vazio,
a ausência de um corpo,
a saudade é uma luz
esquelética, sem cor,
perene. Saudade
é saudade.

10 junho 2007

Despidos, o meu corpo e o teu
encontram-se como aves
de primavera na primeira
luz fria da manhã.
Braço, língua, lábios, o teu ventre
é um pomar, as abelhas chegam
com o sol, vão beber o pólen
às flores, e eu vou com elas,
beber-te nas horas de sombra
e de escuridão.

As manhãs nascem tão breves,
polidas, eu não as vejo,
só tu observas aquela luz
fria que indistintamente
começa com o dia,
o frio lentamente cede lugar
ao calor de um primeiro dia
de Verão.
A música é quase sempre azul,
os teus olhos sempre castanhos.

Era uma noite fresca, orvalhada
num desses teus jardins,
uma vela morria queimando o ar,
o mesmo que tu respiravas,
nos lençóis azuis tu adormecias
num abandono presente,
vincando a tua pele na pele
dos lençóis,,
a noite era tua,
tu eras a noite, apetecia
adormecer na palidez
metálica do teu pescoço,
nas breves areias
do teu peito, apetecia
ficar neste silêncio
de morte,

e esquecer.

Liberdade

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...


Fernando Pessoa

09 junho 2007

Peço desculpa.
Vou abrir uma excepção. A começar agora.
Estou de férias. Acabou tudo. Ontem.
Obrigado a mim e a quem quer que tudo corra bem,
obrigado ao Beethoven e aos Smiths pela companhia
que me fizeram nas viagens pelo Código Civil, obrigado
ao Marx, que torna a economia política tão assustadora
e por isso tão interessante, obrigado ao prof. Vital Moreira
por ser tão engraçado na TV e nas aulas, obrigado
ao prof. Sousa Ribeiro por aquele recorte de jornal com
uma super-modelo semi-nua do outro lado, virado para
o auditório sorridente, obrigado à cafeína tomada várias
vezes ao dia. Obrigado ao Horatio Caine, ao Gil Grissom,
ao Conan O´Brien e ao Family Guy, à família Simpson.
Obrigado aos blocos de papel pautado, às canetas, que
escrevem, e por fim ao tempo, porque existe e nunca está
parado.
Peço desculpa, mas agora quero Verão. E livros,
e música sem ter numa sebenta o princípio e o fim,
o Direito como pretexto e como espectro cinzento vindo
da Twilight Zone, agora quero o não-fazer, o cheiro a Verão
num dia de calor ao abrir a janela, o mar como horizonte,
os dias intermináveis entre a praia e os amigos.
O trabalho compensa.
Peço desculpa, mas estou de férias.

29 maio 2007

V

Adormeço e volto a acordar. Talvez uma travagem, um movimento brusco na direcção, uma conversa, uma gargalhada me tivessem despertado, não interessa. Porque afinal era verdade, eu sonhei e esperava que fosse mentira, mas a verdade e a mentira são duas formas de contar as histórias, e andam muitas vezes de mãos dadas, entrelaçadas. Eu viajava, dizia, viajava à tua procura, tu partiste, tinha o Verão acabado e tu partiste, de manhã, de tarde, quem sabe já de noite, ninguém o poderia dizer, ninguém te viu, nem eu percebi que quando amanheceu não tinhas o teu cabelo na almofada, nem tu estavas ali. Abro os olhos porque a luz me obriga, por minha vontade tinha-os fechados, de pálpebras descansadas, se pudesse dormia dias inteiros até te descobrir à porta do quarto. Repara, estamos a meio caminho, à frente temos uma serra alta, aquela a que chamamos de candeeiros, porquê não sabemos, um dia haveremos de descobrir. É uma serra já muito velha, já muito gasta, algumas cadeiras à frente ouço dizer com um suspiro, É o tempo… O tempo, dizem-nos, Esse que destrói mais do que tudo o mais e não deixa nunca que o vejamos. Depois da serra estamos noutro mundo, a terra é outra, parece-nos, o país e outro, temos a impressão, mas apenas estamos do outro lado de uma serra que não é, de longe, das maiores deste planeta que é tão pequeno mas se julga tão grande, não, essas estão longe, muito longe, para as ver, é curioso, é preciso ir ao outro lado do mundo, mas depois da nossa serra, tratemo-la assim pois já a conhecemos há muitos, muitos anos, depois da nossa serra muda tudo, e no alto dela vivem ali umas nuvens que, quando alguém se lembra de lhes perguntar, respondem, Desde que sabemos, desde que nos lembramos, por isso choram, por isso chove sempre ali, do outro lado não, Não temos vizinhos, dizem, olhando o outro lado, uma planície que ali começa e quase nunca acaba e onde vivem, também desde sempre, alguns cedros, Alguns não, corrigem-nos, Muitos. Vivem ali, dizemos nós, muitos cedros naquela planície, Sempre as vimos ali, nunca nos falámos, dizem eles das nuvens suas vizinhas, estranha relação, estranha vizinhança. Mas não queremos saber mais, o que sabemos basta-nos, controlemos a nossa curiosidade, não podemos relatar tudo, tudo escrever, tudo contar. A meio da serra vimos, isolado, um grupo de pinheiros que ali tinha lançado ao chão as suas raízes, ali conversavam, ali se tinham deixado ficar distraidamente, ou não, ali discutiam assuntos de seu interesse, e que por isso não são da nossa conta, são assuntos de pinheiros, não dos bravos mas dos mansos, aqueles vivem noutros lugares, desde o tempo do rei poeta e lavrador, o sexto da tabela, preferem ajudar o homem a controlar as areias e a construir naus que os levassem pelos mares oceanos, bem diferentes em personalidade e sabedoria, estes, estes mansos de que estamos falando preferem as serras. Eram cinco os pinheiros, explicava-te eu, mas havia um, desde logo, e à vista desarmada, que era bem diferente dos outros, alto, muito alto, e magro, muito magro, de copa pequena e bem redonda lá no alto, os outros tinham alturas e copas semelhantes, para não dizer idênticas, para não dizer iguais, eram baixos, muito baixos, e gordos, muito gordos, mas aquele lá no alto, por ser único naquelas paragens, parecia dizer aos restantes, Descansai, não tenhais medo de ser diferentes, curioso ensinamento este, vindo de um pinheiro alto, muito alto, e magro, muito magro que ali procurava, afinal, justificar a sua diferença apaziguando os outros pinheiros, seus vizinhos e amigos, e assim eu e tu percebemos, nos poucos segundos em que observávamos aqueles pinheiros mansos, onde está e o que é a amizade, palavra que gastámos já tanto que não sabemos o que quer que significa, todos nós, não apenas tu e eu.

25 maio 2007

Lacrimae Mundi

A norte dos teus ombros
o sol desmaia sem a glória
ardente de um pôr-do-sol.
As paredes brancas bebem
toda a luz de um astro
que não quer ser rei
e as nuvens desabam cinzentas,
são pedras que caem
como gotas de chuva,
a norte dos teus ombros.

17 maio 2007

IV

É preciso acreditar. Eu preciso. Já to tinha dito, mas digo outra vez. É por isso que te procuro. Saí da cidade há uns minutos, talvez menos de uma hora, e não me esqueci do que tenho visto, não me esqueci do que te quero dizer quando te encontrar, não é difícil lembrar-me, estou sozinho, vou do lado da janela e o expresso não pode andar mais depressa. Encosto a cabeça à janela, não a sinto, sinto os ossos do teu ombro e o teu cabelo por perto, o teu cheiro, o teu cheiro, e outra vez o teu cheiro… Agora vai chovendo na minha janela e nos teus ombros que estão despidos, e eu lembro-me de quando eras um sorriso aberto, uma tarde de azinheiras e de sol. Há uns segundos vi um pombo, um que abriu e bateu as asas primeiro que todos os outros, esses outros não tiveram tempo para o seguir, não se puderam prevenir para apanhar aquele primeiro, que julgava ser um carapau de corrida, interessante pensar como saberia este pombo da existência do peixe carapau, e mais interessante por que terá querido imitá-lo em rapidez e profissão, a de corrida. Tu sorris e deixas cair a cabeça e o cabelo para trás como se entregasses o teu pescoço à minha sede, em movimentos de chicote e espada. E eu quase me esqueço do que te dizia, do que te queria contar. Ah, sim, o pombo, dizia eu, fugindo de considerações sobre este ou aquele indivíduos de sua espécie, é um animal disfarçadamente virulento e sanguinário. Ou o bode expiatório das frustrações do homem, dizem uns. Talvez, dirão outros. Não, exclamam outros ainda, e mesmo eu, que não gosto deles, sejamos sinceros pelo menos desta vez, mas sem dúvida um bicho que se alimenta do chão, que imundície, que voa por todo o lado e por todo o lado se descuida para cima das pessoas, Oh gravidade, oh newton, oh física. Esse bicho que passa o dia nas praças ao sol, a ver passar as pessoas e no entanto estupidamente tem medo delas, e que quando se junta em grupo se lembra de levantar voo repentinamente e dar uma volta voando pela praça, duas voltas voando pela praça, três voltas voando pela praça, quatro voltas voando pela praça e depois regressa ao mesmo posto, ou ponto de partida, não sabendo o que tais palavras significam, fingindo que nada aconteceu por ali. Fingindo que não é nada com ele, e depois volta a depenicar o chão maquinalmente. E também esse mesmo que desfigura a pedra, a parede, a estátua ou o canto de sombra onde se lembra de pousar. Esse bicho não muito desejado por alguns, conheci aliás poucos que o afirmassem alto e bom som, além de eu próprio, sejamos sinceros, ao menos duas vezes, porque já o fomos há pouco, eu e tu, dez linhas acima, e voltas a rir-te de mim porque me estou a repetir e a contradizer, que tonto, não tenho vergonha. Mas é ao mesmo tempo apreciado por outros, mesmo muitos, Sabias, há quem os admire, há quem os coleccione, Imagina tu, meu anjo, esses outros que acham muita gracinha em largá-los, não raras vezes a centenas de quilómetros de distância, achando depois muita gracinha ao outro animal que vem voando, voando, voando incansavelmente e vem ter precisamente à gaiola que o bicho dono reservou para ele e mais vinte ou trinta da mesma espécie, confundindo-se aqui dois reinos, o animal e o vegetal, pois a postura destes pombos é em tudo semelhante à postura de uma couve, de uma alface, de uma orquídea ou de uma rosa, isto é, vegetam. Não respondes, Vou talvez agora descansar um pouco, já me vai faltando o ânimo, vou adormecer, vou adormecer, a cabeça no teu ombro, na janela do expresso, que importa, Abraça-me…

11 maio 2007

allegro ma non troppo II

Beethoven, 6ª Sinfonia, 1º movimento (allegro ma non troppo)

allegro ma non troppo

É um silêncio apátrida,
o poeta sofre sem chão,
as paredes ruiram, o tecto desabou,
o silêncio permanece
tão escuro, massa de ar frio,
e as lágrimas caem no papel
que só fala quando lhe escrevem
em cima, o ofício do poeta
é o desencontro, o vazio,
a palavra trabalhada, as mãos
que interminavelmente vão beber
um choro angustiado,
o orvalho e as giestas,
o mar teus olhos tão verdes,
e de novo o silêncio, ou
este ar tão pesado, ofegante,
pedra cintilante, ou o teu sorriso,
allegro ma non troppo.

08 maio 2007

III

Por isso eu sigo para os lugares onde gostas de adormecer, é essa a minha história, é essa que te conto, e a que queres ouvir todas as noites. As palavras que te vou dizer ainda não as sei, ainda não as conheço, vou descobri-as enquanto não te encontrar, enquanto te procurar. Talvez te escondas nas margens de um Inverno que deve estar para chegar, ou nas malhas de um cachecol que espera dias mais frios para aquecer o teu pescoço, não sei.
Durante quatrocentos anos sonhei com manhãs no mar, o vento salgado nos olhos. Como tudo era simples! Ouves a chuva a pingar através das folhas? Quantas semanas já passaram? Sinto que o Verão está a ir-se embora… Tu não respondias, e era esse o tempo de falarmos, de olharmos nos nossos olhos. Um dia, não há muito tempo, talvez te lembres dessa manhã, acordámos em Setembro. Gastáramos o Verão nos nossos lençóis, e de repente ele terminava, e no fim de um beijo disseste, As velas também se apagam, e então eu percebi, O céu está negro, e nós baloiçamo-nos com o amor no corpo, e o céu este negro. Foi no fim do Verão, foi no fim de um beijo. Setembro fez-se outra luz, uma quase-luz que se vai perdendo no ponto de fuga de um sorriso outonal. Ou da primeira folha seca que acaba de se soltar e que vai caíndo no chão. Setembro fez-se de outra luz, a última dos dias claros, esses que te vão fugindo por entre os dedos. Setembro fez-se de uma praia sem sombras e de marés-vivas. É uma aguarela para se pintar do som do mar. Por isso deixaste as pedras do castelo, que àquela hora parecia maior, por isso fugiste. Foi em Setembro. Setembro… que lugar para dormir. O amor não contempla, sempre o amor procura. Setembro – que lugar para partires. Por isso eu procuro-te, por isso é preciso encontrar-te.

Desço as escadas, como são pesadas, ou serão os meus passos, lá fora paira um dia nublado, pombos nos beirais, e tu que não voltas, e eu que ainda não te encontrei. É preciso ir buscar-te, é preciso falar-te, ter a certeza que respiras antes de falar e de me dizer, Olá, e de eu te pedir, Volta. É nesta rua que estás, é o que te pergunto, não te esqueças que estarás sempre comigo, sempre a tua pele ou o teu cabelo, não, aqui não te encontro… Nesta outra rua também não, talvez do outro lado da cidade, quem sabe, ou no fundo de uma rua aberta para as margens de um rio, e mesmo aí continuo sem saber o que fazer, confesso que tenho medo. E foi ontem o dia em que chegaste, trazias um vento quente, que já não é destes dias, e quando nos deitámos chegou o Outono. Estou a pé, não sei já quanto andei, e passa sempre uma eternidade quando nos sentimos infelizes. Parece-me que já passei por aqui, nos cafés ninguém se incomoda, ninguém liga, as pessoas vão dormir calmamente e eu procuro-te, quase te vejo do outro lado de uma esquina, mas aquele cabelo não é o teu, aquele andar e a aqueles dois ombros não são os teus. E agora sim, pela primeira e última vez até te encontrar, quem sabe, são lágrimas, muitas, como um fio, que deixo cair até à boca. Eu sei, nesta cidade não estás, e não me apetece procurar-te debaixo de cada pedra, nas caves dos prédios que são tantos, e tu não irias para qualquer um desses lugares. Foste para outro lugar, ao Sul, é para aí que vou, tenho a certeza, foste ver o mar, foste ver passar o verde do céu, depois o azul, depois o cinzento, eu sei, não repitas, um dia acordaste e viste-o branco. Chove tanto, e eu saio para te ver, vou viajar, vou para Sul, far-me-á bem sair um pouco das muralhas do castelo.

02 maio 2007

||

Ontem foi o dia em que chegaste. Ontem foi o dia em que chegaste, disseste tu, com os olhos bem abertos, cheios de lágrimas de luz, como se o sol e a lua tos pintassem ao mesmo tempo, como se não houvesse noite nem dia para distinguir as cores do teu cabelo, e das ondas desse mar, já não sei hoje o que é onda de mar e cabelo teu. Gritaste do fundo dessa nuvem, falavas e não ouvia, às tantas nem ouvias tu já o que dizias, mas hoje sei o que disseste, Espero-te na volta de um beijo, foi o que disseste, e disse-mo a primeira luz do dia, a primeira luz fria da manhã. Não o ouvi de ti, mas antes queria, preferia ver-te abrir e fechar os lábios, ouvir-te prolongar essa última sílaba sempre eterna, como se construísses um suspiro feito de fins de palavras. Espero-te na volta de um beijo, suspiraste, mas eu não ouvi.
E agora que não sei onde estás de que me valerá sabê-lo, é o que pergunto, talvez valha, talvez siga para os lugares onde exista esse vermelho de que te pintaram os lábios, esse vermelho-tu, que vai sendo um vermelho-eu também. Talvez procure quando uma nuvem para onde estiver a olhar se pinte de vermelho-tu, e a siga até que essa nuvem chova em mim e te possa colher como um fruto na minha mão, depois na minha boca, depois no meu corpo, até não sabermos mais com certeza onde acaba esse vermelho-tu e onde começa esse vermelho-eu. E na verdade foi apenas há umas horas que estivemos juntos debaixo das pedras do castelo, era ali que gostávamos de ficar sem saber para onde ir, sem precisar sequer de ir a lugar algum.
Eu sei, eu soube sempre que gostavas de ficar alguns minutos a olhar o verde do céu, depois o azul e o cinzento, ver passar aquele vento quente de Setembro, depois esse que vem frio, gostavas de ver cair a chuva, depois olhar para uma gota que fazias parar no ar, suspensa, e dizias, Aqui estás tu, lá em baixo estou eu, e depois fazê-la cair no chão seco, como alguém que espera um beijo. E era nesses dias que gostavas de te sentar, ver passar o fio do tempo recortado por essas palavras que dizias, soltas ou entrelaçadas, húmidas se tocavam os teus lábios, secas se vinham como um grito, mas sempre querendo ir buscar-te ao fundo desses dias onde gostavas de te sentar, sem nada que ouvisses, sem nada que visses ou quisesses ver, e levava-te por um abraço, mais ou menos apertado, mas sempre esses braços cingindo-te, resgatando-te.
Gostavas de ficar alguns minutos a olhar o verde do céu, depois o azul, o cinzento, um dia destes acordaste e viste-o branco, no outro dia anoiteceu pintado de laranja claro, e foi um sonho que tiveste, não sei e não sabes se por causa da cor do céu, se por causa dessa lua que te chamava. Sonhaste que ela vinha também, não a lua, mas uma voz que tinha uma boca, uma boca que tinha um rosto, rosto esse que tinha um cabelo e pescoço, um cabelo e pescoço que tinham ombros, esses ombros e cabelo de que falo e que eu tanto quero tinham um peito onde cair, esse peito que falo e que também quero tinha uma cintura, essa cintura, acaso os teus olhos desviam para lá o olhar (secretamente), não termina nunca, mas logo logo começam as pernas, sem que disso te apercebas, brancas de marfim, e essa voz que tinha um corpo era ela, era um corpo que tinha uma voz, uma música, um embalo onde te pudesses sentar e ver as cores do céu passar, não sozinho nem adormecido já, mas junto a esse corpo que tem uma voz, a essa voz que tem um corpo. O teu.

26 abril 2007

I

A luz das pedras do castelo caía sobre a cidade. E àquela hora do dia o castelo parecia maior, não sei porquê, talvez fosse uma ilusão dada por certa inclinação do sol e do jogo de sombras que ali se jogava ou pela exactidão da hora e do calor, e houve então uma espécie de véu, uma espécie de miragem que nos fazia olhar para aquelas pedras de outra maneira, para aquele rochedo secular, aquele colosso quase maior que o próprio monte onde alguém teve a ideia de o construir há oito séculos atrás. A luz que caía das pedras do castelo era bem conhecida por quem vivia na sombra daquelas muralhas, voltamos a falar delas porque elas são a vida de muita gente, ali morreram muitas lágrimas, sozinhas ou junto a outras do seu género, ou mesmo, não se sabe, junto a outras de outro género, essas a que chamamos de crocodilo, pois essas não são verdadeiras, todos sabemos que o animal crocodilo se deixa chorar não por desgosto, mas porque é esse o resultado de uma refeição conseguida e apreciada. A luz, dizíamos, caía das pedras do castelo, era uma luz branca de dia, mas uma luz de vela assim que anoitecia, empurrada contra as muralhas, como se ali sempre tivesse existido um ponto de luz, como se ali sempre tivessem estado as pedras, umas sobre as outras, formando ameias, torreões, muralhas, chão e tecto de divisões interiores, aposentos ou quartos, ou como lhes quisermos chamar. E a cidade lá estava, desde sempre dizemos nós, um manto de retalhos de luz, Tantas ruas, disseste a meia-voz, Parecem dormir, respondi eu. Das muralhas do castelo é a impressão que temos. Aqui estamos nós. Debaixo da luz das pedras do castelo. Dormimos, não dormimos, não sabemos já, estamos exaustos, entregámo-nos um ao outro, foi há poucos segundos, Ainda trago os teus olhos nos meus, o teu cabelo acabou de sossegar. Dorme.

Sabes o que te quero dizer. Talvez ontem não soubesse, nem o soubesses tu, mas subia no ar um murmúrio, o ar estava quente, ainda não cansado mas já pesado, o vento entrava pelos nossos cabelos, entrava na nossa pele sem pedir, saía sem dizer, Água vai, quando estava longe apenas dizia, Água vem, e ficávamos parados sem nada dizer, que é como quem diz, ficávamos calados, convém esclarecer, muitas vezes estamos calados e dizemos muito, mas nesta situação calados estávamos e mudos ali ficámos. Depois o dia adormeceu com as muralhas do castelo, deixou-nos por algumas horas, então adormecemos também por fim, é o que fazem as pessoas quando não suportam a espera de um novo dia, mas que não têm medo dele. O dia começa cedo, não quando já vai a meio, ou quase no fim, nesse caso para quê acordar, para quê sairmos da cama, para quê respirar, poderíamos perguntar se nos apetecesse, e é o que perguntamos, Para quê este céu, que já não é tal azul como no tempo de nosso pais, e então ficaríamos outra vez mudos, porque a resposta não vem, tarda a vir ou virá entretanto, embora nos pareça pouco provável. Não interessa todavia o que pensamos, se aqui estamos, se aqui podemos estar foi porque nos deixaram, não vamos então perder o tempo com histórias que nem mesmo para nós são importantes. Dormimos, ou pareceu-me que dormimos, como podemos ter a certeza que dormimos se não nos lembramos o que fizemos, se nos virámos para o lado direito quinze minutos depois de adormecermos, se mexemos aquele pé, e não o outro, se abraçámos quem quer que estivesse ao nosso lado, se nos beijámos. Apesar de tudo isto que fica dito, dormimos.

25 abril 2007

Para um primeiro e novo Abril

Mais Abril

Abril de Sim, Abril de Não

Eu vi Abril por fora e Abril por dentro
vi o Abril que foi e Abril de agora
eu vi Abril em festa e Abril lamento
Abril como quem ri como quem chora.

Eu vi chorar Abril e Abril partir
vi o Abril de sim e Abril de não
Abril que já não é Abril por vir
e como tudo o mais contradição.

Vi o Abril que ganha e Abril que perde
Abril que foi Abril e o que não foi
eu vi Abril de ser e de não ser.
Abril de Abril vestido (Abril tão verde)
Abril de Abril despido (Abril que dói)
Abril já feito. E ainda por fazer.

Manuel Alegre

Para que nunca mais...

25 de Abril sempre


fascismo nunca mais.

12 abril 2007

Para onde vão os teus cravos
se Abril tarda em chegar?
Que guitarras acolhem
o teu dedilhar secreto,
maduro,
se te magoam os
dedos ao tocar?

O teu ritmo chegou
Nas curvas de uma guitarra,
As cordas bem afinadas,
Percorreu a madeira,
preencheu as paredes das salas
vazias, e os corações sentiram
a tua dor tão pesada,
como cravos orvalhados
ao sol.

Lírio de Israel, para onde vão
Os teus cravos se Abril tarda
Em chegar?


A Carlos Paredes

A dor
que verdadeiramente dói,
ampla, lume de planície,
é a de encontrar de novo
o teu sorriso depois
do sol,
os teus lábios
misteriosamente cerrados,
um ou outro cabelo ali descansando,
e o mar no sabor dos teus beijos.

04 abril 2007

"Creio que foi o sorriso,
sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso."

Eugénio de Andrade

02 abril 2007

Encontro-te

Encontro-te de noite quando a lua vem,
branca e pálida,
encontro-te no ritmo dos barcos,
no ritmo das palavras contra as rochas.

Encontro-te num grão de areia,
na raiz mais funda de uma árvore, escondida
no escuro da terra,
encontro-te no céu tão alta
como uma estrela,
encontro-te a meio caminho de uma nebulosa,
em concreto, em vão, eu te encontro.

E tu permaneces, definitiva,
perene, tão perto de mim - única saída é
estremecer, fechar os olhos, entregar-me
aos teus lábios, juntar-me a ti e deixar-me
dormir, cansado e feliz.


25 março 2007


Quando eras azul, e te pintavas de verde,
eu ia descobrir-te entre as marés,
onda, pedra solta do fundo do mar,
búzio onde toca um disco sem parar.

Eu ia descobrir-te sem sono, acordada,
à espera do sol que viesse, do dia
que nascesse, que acordasse este
chão, e teus lençóis tão brancos.

E tu nunca vias o dia a chegar, nunca,
e eu chegava sempre antes do sol,
encostava a minha pele à tua pele,
e adormecíamos, cansados e nus.

25 fevereiro 2007

Os limites do mar

Entre o teu peito
é que as ondas voltam de novo
e desaparecem nas falésias.

Entre os teus olhos
é que descubro os meus.
E vê se tens neles um espelho
onde te vejas, onde te encontres
de onde nunca saíste, nó cego de marinheiro,
amurada segura onde te apoiasses.

Os limites do mar foram teus.

20 fevereiro 2007


Passou pelas águas,
ali, entre dois salgueiros,
onde a água cai sobre as pedras.

Primeira luz fria da manhã.

18 fevereiro 2007

Gostavas de ficar alguns minutos a olhar o verde do céu, depois o azul, o cinzento, um dia destes acordaste e viste-o branco, no outro dia anoiteceu pintado de laranja claro, e foi um sonho que tiveste, não sei e não sabes se por causa da cor do céu, se por causa dessa lua que te chamava. Sonhaste que ela vinha também, não a lua, mas uma voz que tinha uma boca, uma boca que tinha um rosto, rosto esse que tinha um cabelo e pescoço, um cabelo e pescoço que tinham ombros, esses ombros e cabelo de que falo e que eu tanto quero tinham um peito onde cair, esse peito que falo e que também quero tinha uma cintura, essa cintura, acaso os teus olhos desviam para lá o olhar (secretamente), não termina nunca, mas logo logo começam as pernas, sem que disso te apercebas, brancas de marfim, e essa voz que tinha um corpo era ela, era um corpo que tinha uma voz, uma música, um embalo onde te pudesses sentar e ver as cores do céu passar, não sozinho nem adormecido já, mas junto a esse corpo que tem uma voz, a essa voz que tem um corpo. O teu.

08 janeiro 2007

Um silêncio...

Um silêncio onde a palavra nasce,

um vento que chega da sílaba marcada

nos teus lábios, percorre as tuas frases,

atinge o fogo e a água lá fora, vai aos

tímpanos que estremecem e vibram,

e a sílaba preenche o ar,

milagre acústico de eu te ouvir

falar.

05 janeiro 2007

O século do mar


Era o século do mar já posto,
o décimo quinto da era em que nascemos,
por terras de portugal caravelas desciam
até ao tejo,
e choravam-nas as mães e as mulheres
e os amores, juntavam suas lágrimas
às do rio que as levava,
e as engolia o mar oceano.

Era o século do mar já posto,
quinze naus quinze mares percorridos
em distância, quinze sonhos tombavam
das ondas nas praias de portugal
à beira de uma geração.
E o poema nasceu de olhar perdido
naquele fim de mar,
que é princípio de terra
princípio de sonho e sonho antigo.

E era o século do mar acabado,
vera cruz o tomou nos braços irmãos,
terra de verde e de lama
e todas as cores. E dos rios
que são mar, e do mar que foi a nossa
gente e as lágrimas que nele vão.
Foi o século do mar a sepultar,
segredo de sal e maresia que acabou.

E vão as caravelas esquecer-se
das lágrimas que não tiveram lugar
portugal cumpriu-se com o
século do mar.