07 abril 2010

Messi 4; Arsenal 1

Cada vez me convenço mais de que o Messi é o fim da história... e eu que me esforcei tanto e durante tantos anos para o procurar na superestrutura económica e coisas desse género que são uma seca de estudar mas que depois de compreendidas até dão algum jeito para perceber que isto tudo vai, sempre, repetir-se, como diria o Rui Santos, ad nauseam... E mesmo sendo o fim da história, há qualquer coisa no Messi de nebuloso, indefinido, o que não ajuda mesmo nada à pacificação das almas.

28 março 2010

Poema em Linha Recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenha calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenha agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe . todos eles príncipes na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que, contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ò príncipes, meus irmãos,
Arre estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos . mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

21 março 2010

O meu poema em linha recta, com perdão do senhor Álvaro de Campos

com que voz, com que voz humana havemos de gritar, lá em baixo, caindo suspenso dos rochedos da côr da cinza, um rio respira, respira sempre, e eu apenas vejo os salgueiros, dois, três, e muitos outros salgueiros que ali se fixaram, nas noites de verão ouço-os a conversar, e eu desejo a pouco e pouco parecer-me com um rio, mas um que tenha dois braços como margens, e que as margens sejam os teus braços e que nas minhas margens cresçam olhos verdes salgueiros, e com a voz desses olhos verdes salgueiros respirar a doce calma do fundo do mar.

28 fevereiro 2010

Se apenas, repito, se apenas o último combóio da noite pudesse atravessar a neve e o gelo

No ano que vem, em jerusalem, as palavras que disseres repetir-se-ão, entre colinas onde esparsas oliveiras ainda resistem aos ventos quentes do levante, palestina revisitada, La folie, c'est la folie, os olhos amendoados viram um sol doirado a escoar-se nos horizontes mediterrânicos, o fim de um dia tão próximo, e nós que não cabemos na noite que chega, há lugares que não visitamos, a muralha de salomão destruída pelos aríetes, dois corpos quatro mãos e espadas de fogo na ponta dos dedos a rasgar-nos os lábios, e o sangue caído gota a gota na neve, na longínqua neve de um inverno russo do mais russo que pode haver, bem dentro da estepe onde o chão endurece e rejeita qualquer esforço de sedentarização, não queiras, repito para que estas pedras finalmente o ouçam, não queiras atravessar os montes, os rios, os parentes próximos do deserto, não querias cegar-te com o reflexo de um sol que não perdoa, que te queima primeiro os ombros para que fiques ainda mais desejável, apresento-te a língua e os lábios tomados pela sede, o começo e o fim de tudo, a alma sublimada por um retrato a sépia, o começo e o fim de tudo, a morte é o absoluto do opaco, perderás a vida, perderás a vida se quiseres atravessar os montes, os rios e os parentes próximos do deserto, lembra o que aconteceu à muralha de salomão, após o cerco caiu com os embates de um aríete da cor de um sol da judeia, e então terás de seguir-me para onde for, hei-de resgatar-te nas margens do rio, sabes que rio é esse, tu o sabes bem,

se apenas o último expresso do oriente pudesse atravessar as montanhas da anatólia, descer até ao crescente, descer até ao fértil campo onde nasceram as religiões,

quando o general subiu o rio, camelos, mamelucos marchando, cavalos árabes, mulheres, crianças, homens, Olhai, do alto destas varandas quarenta olhos vos contemplam, outros quarenta vos desejam, na cidade todos souberam quando chegaste, as palavras que havias dito repetiram-se nas mesmas colinas onde agora nenhuma oliveira resiste, queimou-as o sol doirado da palestina, tragou-as a língua salgada do horizonte mediterrâneo, agora estão para lá das colunas de hércules, o fim e o começo deste e do novo mundo, La folie, oui c'est la folie.

21 fevereiro 2010

Do not go gentle into that good night

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

Dylan Thomas, poeta galês

18 fevereiro 2010

Starry Night II

A cidade ainda me destrói,
Vincent,
e nenhuma rua que conheça os meus
passos se mantém intacta.

Recomeço
e a cidade ainda me cega
cem noites escuras desceram
as colinas onde a lua não repousa,
apenas os teus olhos
de um belo azul-da-china,
Vincent,
abertos para a noite
suspensa das estrelas que a povoam.

A lucidez ainda me destrói,
Vincent,
que noite foi essa que te pediu
a vida, ninguém soube ouvir-te,
bastava a escuridão no fundo
dos teus olhos.

que noite quis que caminhasses
com ela,
agora percebo quando dizias
a cidade ainda me destrói,
e depois partiste
debaixo dessa noite povoada
por rebentos de prata.

20 dezembro 2009

She's Young

she's young, she said,
but look at me,
I have pretty ankles,
and look at my wrists, I have pretty
wrists
o my god,
I thought it was all working,
and now it's her again,
every time she phones you go crazy,
you told me it was over
you told me it was finished,
listen, I've lived long enough to become a
good woman,
why do you need a bad woman?
you need to be tortured, don't you?
you think life is rotten if somebody treats you
rotten it all fits,
doesn't it?
tell me, is that it? do you want to be treated like a
piece of shit?
and my son, my son was going to meet you.
I told my son
and I dropped all my lovers.
I stood up in a cafe and screamed
I'M IN LOVE,
and now you've made a fool of me. . .
I'm sorry, I said, I'm really sorry.
hold me, she said, will you please hold me?
I've never been in one of these things before, I said,
these triangles. . .
she got up and lit a cigarette, she was trembling all
over.she paced up and down,wild and crazy. she had
a small body.her arms were thin,very thin and when
she screamed and started beating me I held her
wrists and then I got it through the eyes:hatred,
centuries deep and true. I was wrong and graceless and
sick. all the things I had learned had been wasted.
there was no creature living as foul as I
and all my poems were
false.

Charles Bukowski

03 dezembro 2009

Há um país em que existem montanhas, nas montanhas erguem-se cem vezes cem escarpas e nas escarpas mil vezes mil cedros as povoam, desde os planaltos mais remotos até onde as brisas frescas daquele verde mar, em baixo, encontram as colinas e as praias desertas. Quando fores nesse batel, nau, caravela, couraçado, iate, cruzeiro, leva um cedro contigo, leva uma dessas árvores contigo, com ela estarás sempre à porta de casa, encostando um ombro entre a sombra e a claridade, olhando as escadas que te levam onde já sabes que te levam, mas sempre essa subida a guardar mistérios, a reter segredos, Que segredos, perguntas tu, e a resposta não tarda, pelo menos não deve tardar, porque não é segredo, não é segredo absolutamente nenhum que depois daquela porta todo o mundo é silêncio, melhor pensando, silêncio não será propriamente, um dia descias a rua, levando-te os teus passos, pesados porque descias, pesados do peso de existir, Que palavra, existir, Sim, que palavra, descias então a rua e depois aproximaste-te da porta, a mão escorregou pelo bolso, pertíssimo do preciso local por onde até há pouco meus lábios se perderam, os dedos pegaram na chave que é a que te dei para que pudesses abrir a porta, o pé esquerdo pisou finalmente o primeiro degrau, não sei de onde me veio esta crença de que foi o pé esquerdo o primeiro, são coisas que se sabem, depois o direito, decidido, por fim os teus ombros transpuseram a fronteira entre um mundo e o outro, e depois silêncio, afinal a resposta sempre tardou, tardou umas poucas linhas, quem as ler julgará que esqueço a resposta, mas prometo-te, não te faltará uma resposta, Que segredos, creio ter sido a tua pergunta, e onde os teus ombros estão é só segredo, perdão, é só siléncio, mas pensando melhor não é bem silêncio, é outra coisa, sim, outra coisa, com esta ausência de rigor que tão mal fica na pretensão literária, Uma coisa será, mas o quê, Não faças mais perguntas do que as que posso responder, por onde me levam as palavras não sei, neste momento a minha certeza é apenas uma e simples, a de que não é silêncio o que existe depois daquela porta e antes das escadas que tantas vezes subiste, é muito mais do que silêncio, é o outro modo de ser de todas as coisas, Do Universo, Sim, do Universo, se quiseres, a quarta, a quinta, a sexta até à décima primeira dimensão, desde as pedras antiquíssimas que são as ombreiras da porta, as lajes azuis onde ainda se conserva um frio glacial que já não existe, e o silêncio, que assim devemos chamar o outro modo de ser de todas as coisas, a lembrar o fogo primordial, essa combustão criadora acesa pelo lume de dois corpos que se consomem numa explosão de beijos, facas e gumes, a lembrar a fresca brisa pacificadora que nos trás as palavras que dizemos, a lembrar o chão que os passos que damos, sucessivamente, rua acima, rua abaixo para nos cruzarmos com as sombras e vultos de nós próprios escalando as árvores do desejo, e a lembrar, por fim, não te esqueças, a água, o mar para onde todos voltamos, o mar onde o ciclo se esgota e renova pelos milénios que foram e hão-de vir, e o silêncio, ou o outro modo de ser de todas as coisas.

02 dezembro 2009

Discurso Sobre a Reabilitação do Real Quotidiano

no país no país no país onde os homens
são só até ao joelho
e o joelho que bom é só até à ilharga
conto os meus dias tangerinas brancas
e vejo a noite Cadillac obsceno
a rondar os meus dias tangerinas brancas
para um passeio na estrada Cadillac obsceno


e no país no país e no país país
onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço
e o pescoço que bom é só até ao artelho
ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,
chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,
recordo os meus amores liames indestrutíveis
e vejo uma panóplia cidadã do mundo
a dormir nos meus braços liames indestrutíveis
para que eu escreva com ela, só até à ilharga,
a grande história de amor só até ao pescoço


e no pais no pais que engraçado no pais
onde o poeta o poeta é só até à plume
e a plume que bom é só até ao fantasma
ao passo que o fantasma - ora ai está -
não é outro senão a divina criança (prometida)
uso os meus olhos grandes bons e abertos
e vejo a noite (on ne passe pas)


diz que grandeza de alma. Honestos porque
Calafetagem por motivo de obras.
relativamente queda de água
e já agora há muito não é doutra maneira
no pais onde os homens são só até ao joelho
e o joelho que bom está tão barato

Mário Cesariny in Manual de Prestidigitação

27 novembro 2009

Melquíades - José Arcadio Buendía

Fulcanelli (1839 – 1953?) is a pseudonym of a late 19th century French Alchemist and author whose identity is still unknown. Much mystery surroundshis life and works – leading to him being branded a cultural phenomenon. One of the more extravagant tales retells how his devoted pupil (Eugene Canseliet) successfully transformed 100 grams of lead into gold with the use of a small quantity of “Projection Powder” given to him by his teacher.

***

According to Canseliet, his last encounter with Fulcanelli happened in 1953, when he went to Spain and was taken to a castle high in the mountains for a rendezvous with his former master. Canseliet had known Fulcanelli as an old man in his 80s but now the Master had grown younger: he was a man in his 50s. The reunion was brief and Fulcanelli once again disappeared leaving no trace of his whereabouts. At this time, Fulcanelli would have been 114 years old.

***

É ao mesmo tempo uma desilusão e uma surpresa, ter encontrado os putativos Melquíades e José Arcadio Buendia do mundo físico, fora do realismo mágico construído em "Cem Anos de Solidão". O meu fascínio permanece intacto apesar de, ao que parece, existir gente que consegue transformar chumbo em ouro. Com ou sem estojos de alquimía.


"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo."

16 novembro 2009

Pornografia emocional

Alguém, cuja cabeça só tem dentro um monte de lixo, deve achar muito engraçada a pornografia emocional sob a forma de programa de televisão que é o "Uma canção para ti", da TVI... Há uns minutos atrás, criou-se naquele programa, já perto do fim, um cenário (digo isto com muitas reservas) digno de ser visto: perante o júri 7 crianças esperavam a votação - depois dos votos, que, diga-se foram todos para uma rapariga mais crescidinha, um miúdo de 5 ou 6 anos largou a chorar convulsivamente, e continuou, naturalmente por nem um voto ter conseguido, coitadinho dele, e dos papás, e continuou, dizia, enquanto todos os concorrentes cantavam a canção que introduzia o genérico final - na plateia uns batiam palmas, outros choravam, mas todos tinham o olhar muito, muito longe dali... repito, isto é pornografia emocional, e uma sujeição intolerável a níveis de pressão que até um adulto tem dificuldade em gerir, e juro que qualquer dia entro no programa e atiro tomates e ovos a toda a gente - menos às crianças, que não têm culpa nenhuma dos papás que têm...

01 novembro 2009

Splendour in the grass

What though the radiance
which was once so bright
Be now for ever taken from my sight,
Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass,
of glory in the flower,
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind;
In the primal sympathy
Which having been must ever be;
In the soothing thoughts that spring
Out of human suffering;
In the faith that looks through death,
In years that bring the philosophic mind.


William Wordsworth

19 outubro 2009

Sete anos de pastor Jacob servia

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

Luís de Camões

16 outubro 2009

A cidade e as serras

Nada há de novo
debaixo deste Sol,

e a eterna repetição das coisas
é a eterna repetição dos males.

Pelas ruas mais sujas das cidades,
pela sombra dos altos penedos das serras
o Homem caminha, só,
pesando-lhe nos ombros
o morto-peso de si próprio.

20 setembro 2009

Silêncio e tanta gente

Houve palavras que ficaram
por calar
dessas sempre nos arrependemos
por certo houve

por certo houve gestos que ficaram
apenas sombra
luz refractária
ténue movimento irrepetível

por certo houve
o silêncio que ficou nos espaços
onde tu não existes
e onde não podes existir

por ser o meu espaço
por ser o meu silêncio
por certo houve silêncio
e tanta gente,
que no silêncio está
toda a música
dos gestos inúteis.

14 setembro 2009

Ganges

Esquecendo-se que lá fora um rio ardia, um novo dia nascia do calor de dois corpos adormecidos. A outra Índia onde eu queria chegar, a nação hindu que um dia descobri no teu ventre era a península onde moravam dois ombros debruçando-se das colinas sobre o rio. E não sei como escapar a esse naufrágio no antigo rio. E no fim de tudo, com um sol azul que desperta, desaparecer para sempre nessas águas que lembram dois olhos cinzentos.

Kaelstrom


A falésia crescia como um véu negro muito acima do nível do mar. E fazia lembrar, vistas da pequenez de quem as observasse, as antigas catedrais góticas, perfiladas, escurecidas pela imersão nos séculos. A ponto de, em baixo, o rebentar persistente das ondas ser só imagem, sem acústica consequência do perpétuo movimento violentando a rocha.

29 maio 2009

Caminho precário

Do alto das janelas mil parapeitos olhavam, mil ombros se debruçavam à procura do lugar preciso onde tantas e tantas lágrimas haviam de cair e perder a vida, mas esta seria apenas, segundo o que se pôde apurar, a realidade paralela, uma de entre muitas, senão vejamos, dado o mesmo número de parapeitos, o mesmo número de ombros, poderia ser que tais ombros, sobre tais parapeitos se tivessem, de igual jeito, debruçado, mas desta vez simplesmente para ver quem passava por lhe conhecerem os passos que ecoavam pela rua. O que por sua vez, asseguramos, não nos parece ser difícil, as pedras usadas para o pavimento, se é que assim o podemos designar, são as pedras que noutro tempo, um tempo mais longo do que este brevíssimo tempo em que vivemos, foram as da antiga muralha do castelo, e a sua utilização para este efeito não mais teve lugar, e felizmente, pois cedo se atentou no erro, que é crasso, e chegamos à conclusão de que as pedras são únicas e portanto inigualáveis. Também o são os passos que enchem os espaços de silêncio da rua, porque tardia é a hora, irrepetíveis nos rumores que criam ao passarem debaixo dos parapeitos que olham fixamente quem por eles passa.

Portanto, se uma destas realidades, paralelas que são e que por isso de maneira alguma se hão-de encontrar, ou cruzar, em qualquer ângulo que seja, são possíveis de contar e de escrever para que se leiam e se achem absurdas hipóteses, uma terceira é também possível, e com três realidades outros milhares e milhões, não custa imaginar, são do mesmo jeito, corolário daquilo que se não aconteceu, podia ter acontecido.

Que tudo é possível, simultaneamente, no grande caos cosmológico.

24 abril 2009

VILA MORENA

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade.

José Afonso

Portugal e o futuro

Um Professor meu, com quem, em apenas dois meses, já aprendi muito, costuma dizer que "o passado já foi futuro". Claro. O passado, o nosso passado foi, algum dia, um futuro longínquo. Assim também o 25 de Abril, aquele, o primeiro, o decisivo. Esse é que foi um futuro impossível. Até deixar de o ser.

Para nós, hoje, o 25 de Abril de 1974 já é passado. Mas é um passado que não pode deixar de ser sempre futuro, aquele, o primeiro, o decisivo é para mim sempre futuro, sempre possível, sempre repetível, mas que dizer, eu sou um abrilista...

Viva o 25 de Abril!

06 abril 2009

eu procurava,
eu frequentava a mesma luz,
as ruas que desciam
paralelas ao castelo.

e eu encontrava
no fundo de cada uma
a mesma janela de olhos verdes,
um pouco de sangue nos lábios,
a mesma janela
e dois olhos verdes.

e um dia chegava a hora,
o mesmo lugar no tempo,
o tempo em que nenhum espelho
nenhuma luz reflectia.

e apetecia
a claridade intensa
e solitária que procurava
no alto dos penedos
escurecidos.

28 março 2009

Hora do gelo

Não chegues à hora do gelo,
quando os rios interrompem
as mãos que trazem a água,

nenhuma outra luz chega
ao fundo dos rios
ao fundo dos olhos,
nenhuma outra escuridão me cega

as naus oceanos naves
de vencer as ondas
ainda não chegaram,
ainda não se gritou
fin the end fine
a anunciar a vitória
das margens de um rio
que se juntaram
abraçaram-se os salgueiros
juntaram-se as pedras

o leito secou
à hora do gelo
um rio acabou.

11 outubro 2008

Ausência

Indiferentes ao desejo
indiferentes ao frio
os ombros escolhem as mãos
duas mãos apenas
que não escureçam
as ruas onde estás não escurecem
apenas a noite
Os olhos abertos
o rumor
os rumores abertos
entre os passos
cobertos os espaços
de ti
Mas hoje não estás, hoje não és
assim, um corpo
margens brancas
planície sol aluvião
o mar é uma colina verde
o mar é todo o sangue
que não se perde
deixa ao menos um pouco de ti
no fundo dos meus braços
no fundo do mar

Deixa ao menos um pouco de sol
e o inverno que não acabe
nunca
Indiferentes ao desejo
as noites passam debaixo
da minha janela,
essa luz tão fria
a cegar-me os dedos
esses dois braços
que eu queria
e no fim deles duas mãos
que não escureçam
duas mãos e o arco que descrevem
como se a lua tão perto

Que ausência a tua
com quantas letras se escreve
a palavra longe, com quantos dedos
se contam três mil quilómetros,
tu
a meio dia do outro lado da terra
e os meus braços
que não chegam
dois braços
simulando os espaços
a meio caminho do desejo.

11 setembro 2008

Acabo de perder tudo. Os últimos cinco anos desta vida de vinte e dois apagados. Não tenho passado. Sem passado não há presente, e muito menos poderá haver futuro. As primeiras quadras com rima cruzada, os primeiros gritos que julgava serem ouvidos, as odes longuíssimas a percorrer as páginas cheias de exaltações, os sonetos mecânicos com a chave de ouro atirados com o fervor do sangue; os primeiros versos soltos, mais calmos, do fim da adolescência; a prosa pensada e construída convivendo com outra mais frenética, escrita por impulso. Não tenho passado. Não vejo agora como possa ter futuro. As pastas estão intactas, os ficheiros desapareceram - tudo o que escrevi em cinco anos desapareceu. Nem um cd, uma pen para aqui esquecidos guardam aquelas páginas. Um problema técnico que é um problema emocional e que me transcende - uma desilusão, uma tristeza profundas. Até me recompor para decidir o que vou fazer, ou até resolver isto, não volto cá. Não quero voltar a escrever. Até um dia.

Para mim

Celebra ao menos uma vez a tua folia. Porque a loucura é a forma mais alta da inteligência.

10 setembro 2008

Um dia

Um dia destes
um rio onde as margens
sejam as tuas mãos
um dia que seja
dourado de sol
no cume das árvores,
um dia
que nasce nesse lugar
por onde desabam os cabelos
entre os braços do Outono,
seguirá os trilhos do sul-poente
os flancos de um corpo
adormecido
onde não exista outro corpo

procura nessa luz
refractária
a pureza de seres tu.