02 maio 2011

Roger Taylor



My new purple shoes
Bin amazin' the people next door
And my rock'n'roll forty fives
Bin enragin' the folks on the lower floor

I got a way with the girls on my block
Try my best to be a real individual
And when we go down to smokies and rock
They line up like it's some kind of ritual
Oh give me a good guitar
And you can say that my hair's a disgrace
Or just find me an open car
I'll make the speed of light outa this place

I like the good things in life
But most of the best things ain't free
It's the same situation just cuts like a knife
When you're young and you're poor and you're crazy
Young and you're crazy...

Oh give me a good guitar
And you can say that my hair's a disgrace
Or just find me an open car
I'll make the speed of light outa this place

01 maio 2011

todas as esperas
são nocturnas

todas as esperas
são longas planícies
onde vamos descalços
beber a noite azul

todas as esperas
são circulares
abandonadas
são gestos rápidos
nervosos
um desencontro de mãos

tu sabes o que são as ruas
longos braços que não
se cruzam, apenas tentam,
ensaiam abraços, estreitando-os,
mas tu não podias, tu não cabes
nessa rigidez,

e pedias um terramoto
um deslizamento
que encurtasse o espaço
entre os olhos, o tempo da espera

por essa rua que desce
até ao mar.

30 abril 2011

Há um abraço na noite muitos abraços.
na rua na noite na rua de todas as esquinas.
há um abraço eu sei mas há também
uma rua que torta se deita pela noite
e nela descansa os seus cansados braços
e em todas as noites há um abraço
esse mesmo, aquele que trazes aos ombros
aquele que eu procurava na noite
de todos os abraços.

16 abril 2011

Abril

eu conheço muito bem
essa tua sede
de muitos cravos vermelhos
arrancados do chão

eu conheço a tua sede
de ventos levantes
que dominam a tarde
e sobem pelas colinas.

ainda é cedo, descansa,
para matares a tua sede,

há ainda toda a distância
que inventámos,
um país inteiro
com um chão de trigo
pinheiros
planície
aluvião.

ainda é cedo, não bebas já
toda a tua sede,
porque
os cravos serão as tuas
próprias mãos

abertas

vermelhas

livres.

Soljenitsyn

Sê dono apenas
do que podes
transportar contigo;
Conhece línguas, conhece países,
conhece pessoas.
Deixa que a tua memória
seja o teu saco
de viagem.

Alexander Soljenitsyn.



Preserve your memories, they're all that's left you...

13 abril 2011

Ode à noite

da insónia conheço apenas
a distância
e a dor

que é percorrê-la.

não tem rosto, porque a recebemos
no escuro.

não tem mãos, porque apodera-nos
a solidão.

da insónia conheço também
o desespero, a lívida cor
de estar, simplesmente.

simplesmente
existir e viajar pela noite
por um quarto onde descansar.
barato e junto à estrada.

12 abril 2011

i am not sorry when sun and rain make april

i am a little church(no great cathedral)
far from the splendor and squalor of hurrying cities
-i do not worry if briefer days grow briefest,
i am not sorry when sun and rain make april

my life is the life of the reaper and the sower;
my prayers are prayers of earth's own clumsily striving
(finding and losing and laughing and crying)children
whose any sadness or joy is my grief or my gladness

around me surges a miracle of unceasing
birth and glory and death and resurrection:
over my sleeping self float flaming symbols
of hope,and i wake to a perfect patience of mountains

i am a little church(far from the frantic
world with its rapture and anguish)at peace with nature
-i do not worry if longer nights grow longest;
i am not sorry when silence becomes singing

winter by spring,i lift my diminutive spire to
merciful Him Whose only now is forever:
standing erect in the deathless truth of His presence
(welcoming humbly His light and proudly His darkness)

e. e. cummings

11 abril 2011

para a glória triste
de um sorriso transfigurado
eu desejo
um verão apenas, casas quietas
que finjam atirar-se ao mar.

ontem existiam vagas linhas
azuis
e verdes,

naus inteiras
finisterras
são vicente
- caminhar não mais.

e a tua mãe,
que seguia um cravo.
é impossivel inventar
um chão que te engula
um telefone que te cante
boas notícias
finalmente.

é urgente que encontres
um novo grito,
um novo espaço, cruel e frio
onde deites as tuas costas
e te sepultes com o teu
silêncio.

Risca depressa uma ave no céu
que te acompanhe,
mil novecentos e oitenta foi apenas
ontem, desenha
muitas estrelas que sorriam
a quem tens ao lado
e trazes sempre pela mão.

Como é impossível
a distância entre
duas margens. Como
é impossível a distância
entre o trigo e os penedos.

É essa a existência provável
dos castelos.

09 abril 2011

Alentejo

Eu aguardo nas colinas
a invenção do território
e da distância.

Acalma-se por fim o chão,
deitam-se as serras, chega então a planície
e com ela a invenção da distância.

As colinas contemplam
a hipótese do fogo,
o arado da terra
são as botas dos soldados

e no entanto

está tudo bem,
está tudo bem
Luísa e os outros
Nas tuas mãos, Luísa, eu vejo
os dedos com que devoras a fruta
e as palavras inteiras onde
a verdade e o erro
o tempo e a espada
são filhos de uma primaveril
reabilitação do corpo.

Está tudo bem Luísa
e os outros: com duas mãos
e bom trigo se faz um pão.
Agora senta-te, traz um queijo
e conversa comigo.

04 fevereiro 2011

O'Neill, Meditação na pastelaria

Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.

Nunca se sabe quando começa a insolência!
Que tempo este, meu Deus, uma senhora
Está sempre em perigo e o perigo
Em cada rua, em cada olhar,
Em cada sorriso ou gesto
De boa-educação!

A inspecção irónica das pernas,
Eis o que os homens sabem oferecer-nos,
Inspecção demorada e ascendente,
Acompanhada de assobios
E de sorrisos que se abrem e se fecham
Procurando uma fresta, uma fraqueza
Qualquer da nossa parte…


*

Mas uma senhora é uma senhora.
Só vê a malícia quem a tem.
Uma senhora passa
E ladrar é o seu dever — se tanto for preciso!

O pó de arroz:
Horrível!
O bâton:
Igual!

O amor de Raul é já uma saudade,
Foi sempre uma saudade…

(O escritório
Toma-lhe todo o tempo?
Desconfio que não…)

Filhos tivemos um:
Desapareceu…
E já nem sei chorar!

*


Chorar...
Como eu queria poder chorar!

Chorar encostada a uma saudade
Bem maior do que eu,
Que não fosse esta tristeza
Absurda de cada dia:
Unha
Quebrada de melancolia...

Perdi tudo, quase tudo...

Hoje,
Resta-me a devoção
E este pequeno inteligente cão.

Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.

27 janeiro 2011




Such a little thing
A fumbling politeness
The difference saved me
Wielding a bicycle chain
Why won't you change ?
"I WILL NOT CHANGE
AND I WILL NOT BE NICE"
Most people keep their brains
Between their legs
(Don't you find ?)

15 outubro 2010

David

Sempre chegamos onde nos esperam, correntes, mas verdadeiras, as palavras, sempre chegamos ao lugar que nos reclama, inteiros, de corpo presente, não importa o caminho, para onde quer que vamos pelas estradas perfilam-se os cedros, que contemplam a respiração, os ombros frios e azuis, um cabelo, as mãos, que é tudo isto senão apenas uma dobra no espaço, um lugar no tempo, o estar aqui, agora, o estar ali, depois, para tudo isto foi preciso dobrar o espaço e o tempo, o nosso, o teu, que importa tudo isso também, esqueçam-se os pronomes da posse que não temos, o tempo pertence ao lugar onde estamos, e porque nele somos inteiros, respiramos o ar que nos oferece, para onde irresistivelmente caminhamos. Sempre chegamos aos lugares que nos esperam, que é outra maneira de dizer, Nunca estamos onde pertencemos, dobra no espaço, curva numa linha, mãos e ombros frios olhando debaixo os pardos cedros que nos contemplam, os que vivem não podem viver de outra forma, é aceitar as regras e jogar o jogo, tamanhas concessões, por mais atrozes que pareçam, são a própria existência, joguemos todos esse jogo, os que vivem assim terão de fazer.

Só David não vive desta maneira, ele que no absoluto silêncio aprendeu a sorrir respeitando o verdadeiro e único seu modo de existir, só David respira, vê, sente invadirem-se os olhos de repente, poderiam ser as cheias do Nilo, as águas do Ganges, o largo mar do Amazonas sem margem que se conheça, mas são apenas olhos inundados de lágrimas, apenas lágrimas que caem aos pés de quem o descobre no fundo da sala, de quem não esperava ter de viver para ver o que em comuns palavras escusa de ser dito, a beleza indeclinável, impossível, as mãos que apaixonadamente o criaram, onde estão, só David não vive como os que demais vivem, mesmo vendo caírem as lágrimas, as suas, no chão, sós, só David vive entre nós a sua existência excepcional de estátua, nunca deixou o lugar onde pertence, onde o esperam, ele não terá de fazer essa viagem que torna todos os homens infelizes, primeiro, e depois desaparecer, dobra no espaço, mãos e ombros frios, azuis, mediterrânicos. David completou a sua existência mesmo antes de ser estátua, antes mesmo de sentir que, afinal, são lágrimas aquilo que chora com quem, descobrindo-o ao fundo da sala, sente fugir-lhe os pés quando vem conhecer o homem mais feliz da terra.

22 setembro 2010

A José Afonso

Traz-me um lago, os teus olhos,
traz-me a pele que tu habitas,
Beatriz.
Os incêndios nocturnos
que iluminam as janelas,
traz-me esses olhos verdes
que tu habitas.

Diz-me a verdade,
Beatriz,
traz-me a verdade com as tuas
mãos de veludo.
Traz-me duas mãos que subam
aos incêndios ---
essa é outra maneira de ser egípcio.

Que fazer com o desgosto
das coisas que têm luz,
Beatriz --- traz-me o inverno
numa fúria clandestina,
a verdade inteira, cristalina,
traz-me um lago, a pele
que tu habitas.

26 julho 2010

Sertã -- Oleiros -- Lagos
Edição revista e aumentada
as estradas de portugal
têm pior o serem de portugal.

Não me admira
que tenham ido para a guerra.
Afinal, as noites brancas
são dos soldados,
e eles têm nas botas
o arado desta terra.

23 julho 2010

Cesariny

a antonin artaud

I
Haverá gente com nomes que lhes caiam bem.
Não assim eu.
De cada vez que alguém me chama Mário
de cada vez que alguém me chama Cesariny
de cada vez que alguém me chama de Vasconcelos
sucede em mim uma contracção com os dentes
há contra mim uma imposição violenta
uma cutilada atroz porque atrozmente desleal.

Como assim Mário como assim Cesariny como assim
ó meu deus de Vasconcelos?
Porque é que querem fazer passar para o meu corpo
uma caricatura a todos os títulos porca?
Que andavam a fazer com a minha altura os pais pelos
baptistérios
para que eu recebesse em plena cara semelhante feixe
de estruturas
tão inqualificáveis quanto inadequadas
ao acto em mim sozinho como a vida puro
eu não sei de vocês eu não tenho nas mãos eu vomito
eu não quero
eu nunca aderi às comunidades práticas de pregar com
pregos
as partes mais vulneráveis da matéria

Eu estou só neste avanço
de corpos
contra corpos
Inexpiáveis

O meu nome se existe deve existir escrito nalgum lugar
«tenebroso e cantante» suficientemente glaciado e
horrível
para que seja impossível encontrá-lo
sem de alguma maneira enveredar pela estrada
Da Coragem
porque a este respeito - e creio que digo bem -
nenhuma garantia de leitura grátis
se oferece ao viandante

Por outro lado, se eu tivesse um nome
um nome que me fosse realmente o meu nome
isso provocaria
calamidades
terríveis
como um tremor de terra
dentro da pele das coisas
dos astros
das coisas
das fezes
das coisas

II
Haverá uma idade para nomes que não estes
haverá uma idade para nomes
puros
nomes que magnetizem
constelações
puras
que façam irromper nos nervos e nos ossos
dos amantes
inexplicáveis construções radiosas
prontas a circular entre a fuligem
de duas bocas
puras

Ah não será o esperma torrencial diuturno
nem a loucura dos sábios
nem a razão de ninguém
Não será mesmo quem sabe
ó único mestre vivo
o fim da pavorosa dança dos corpos
onde pontificaste
de martelo na minha mão

Mas haverá uma idade em que serão esquecidos por
completo
os grandes nomes opacos que hoje damos às coisas

Haverá
um acordar

Mário Cesariny

21 julho 2010

Bukowski

So You Want To Be A Writer

if it doesn't come bursting out of you
in spite of everything,
don't do it.
unless it comes unasked out of your
heart and your mind and your mouth
and your gut,
don't do it.
if you have to sit for hours
staring at your computer screen
or hunched over your
typewriter
searching for words,
don't do it.
if you're doing it for money or
fame,
don't do it.
if you're doing it because you want
women in your bed,
don't do it.
if you have to sit there and
rewrite it again and again,
don't do it.
if it's hard work just thinking about doing it,
don't do it.
if you're trying to write like somebody
else,
forget about it.
if you have to wait for it to roar out of
you,
then wait patiently.
if it never does roar out of you,
do something else.

if you first have to read it to your wife
or your girlfriend or your boyfriend
or your parents or to anybody at all,
you're not ready.

don't be like so many writers,
don't be like so many thousands of
people who call themselves writers,
don't be dull and boring and
pretentious, don't be consumed with self-
love.
the libraries of the world have
yawned themselves to
sleep
over your kind.
don't add to that.
don't do it.
unless it comes out of
your soul like a rocket,
unless being still would
drive you to madness or
suicide or murder,
don't do it.
unless the sun inside you is
burning your gut,
don't do it.

when it is truly time,
and if you have been chosen,
it will do it by
itself and it will keep on doing it
until you die or it dies in you.

there is no other way.

and there never was.

Charles Bukowski

09 julho 2010

E contemplávamos longamente a eternidade com os olhos já feridos da luz que caía das pedras do castelo.
Pelas escadas vagamente inclinadas respiravam ainda, na frescura das pesadas pedras de mármore que um dia receberão os nossos ombros, os passos que déramos, há pouco mais de uma hora, para as subirmos, no cimo dessas escadas surgiu uma porta que tivemos de abrir e no fim de tudo quatro ombros quase simultaneamente transpuseram o obstáculo final, e no fim de tudo a criação do mundo e dos afectos, essa misteriosa natureza seminal e refractária, todo o acto de criação tem na sentença um acto de destruição, final e irredutível, lá fora um dia quente ardia e subia à copa das árvores para contemplar a cidade que, durante a tarde, havia tomado ao fim de semanas de cerco, foi assim que aconteceu quando o general subiu o rio à procura dos Buendia, Macondo não estava no mapa que levava, e foi nessa selva que sepulta, nessa selva onde o sol apenas deita, ao erguer-se, a luz mais baça da manhã, foi nesse longínquo deserto sem olhos que o general se viu na sombra do galeão, faltavam quatro dias para o último dos cem anos.
Eu queria que apenas todos os rios se abrissem para os meus olhos, não é pedir muito, bem sei que rios há muitos, mas estes olhos são apenas dois, chegam para te ver, chegaram para o poeta ver, debaixo de um sol peninsular, a catedral de burgos, dois olhos chegam para lentamente fazer desaparecer um vestido de verão, algodão, algodão, puro vestido de verão com dois joelhos no rés-do-chão.

Ibéria

Nesse dia em que foste da côr
de uma muralha
e debaixo dela, coberta por uma luz medieval
acabaste por dizer,

Ibéria,
Andaluza mãe asturiana,
pelas tuas planícies
ouve-se chorar uma península inteira,
pelos teus olhos choram
as lágrimas impossíveis
de uma batalha banal.

E essa rua,
estreita como dois ombros
o podem ser,
há-de ser a margem de um rio
onde irei, pela tarde,
recomeçar.