"Tudo era claro, jovem, alado. O mar estava perto. Puríssimo. Doirado." - Eugénio de Andrade
25 fevereiro 2007
Os limites do mar
é que as ondas voltam de novo
e desaparecem nas falésias.
Entre os teus olhos
é que descubro os meus.
E vê se tens neles um espelho
onde te vejas, onde te encontres
de onde nunca saíste, nó cego de marinheiro,
amurada segura onde te apoiasses.
Os limites do mar foram teus.
20 fevereiro 2007
18 fevereiro 2007
08 janeiro 2007
Um silêncio...
Um silêncio onde a palavra nasce,
um vento que chega da sílaba marcada
nos teus lábios, percorre as tuas frases,
atinge o fogo e a água lá fora, vai aos
tímpanos que estremecem e vibram,
e a sílaba preenche o ar,
milagre acústico de eu te ouvir
falar.
05 janeiro 2007
O século do mar
Era o século do mar já posto,
o décimo quinto da era em que nascemos,
por terras de portugal caravelas desciam
até ao tejo,
e choravam-nas as mães e as mulheres
e os amores, juntavam suas lágrimas
às do rio que as levava,
e as engolia o mar oceano.
Era o século do mar já posto,
quinze naus quinze mares percorridos
em distância, quinze sonhos tombavam
das ondas nas praias de portugal
à beira de uma geração.
E o poema nasceu de olhar perdido
naquele fim de mar,
que é princípio de terra
princípio de sonho e sonho antigo.
E era o século do mar acabado,
vera cruz o tomou nos braços irmãos,
terra de verde e de lama
e todas as cores. E dos rios
que são mar, e do mar que foi a nossa
gente e as lágrimas que nele vão.
Foi o século do mar a sepultar,
segredo de sal e maresia que acabou.
E vão as caravelas esquecer-se
das lágrimas que não tiveram lugar
portugal cumpriu-se com o
século do mar.
26 dezembro 2006
Golden Brown
e nem o vento querias nessas horas
em que o sol te queimava a pele, e te deitavas
nua na areia com uma onda de calor sobre o teu corpo,
vibrante, que dormia sobre ti num longo
meio-dia solar.
Tu eras o fogo.
Olhar-te seria engolir o fogo de vinte fogueiras,
e vinte vezes eu desesperei e olhei o teu corpo,
vinte vezes vinte quatrocentas fogueiras
eu pisei para chegar até à pele das tuas coxas,
até chegar ao teu cabelo, rio de lava, até
ser um corpo
que se evapora,
que se extingue por
se extinguir, sublimado, junto a ti,
nua sobre a areia num longo
meio-dia solar.
21 dezembro 2006
05 dezembro 2006
Pequena elegia de quase nada
e os lábios, tu vieste com a neve, um outro vento te trouxe
chegaste com um beijo ao de leve e pintaste um quadro
com as cores dos teus olhos, de repente foste
de repente partiste,
os teus olhos ficaram comigo, os teus quadros
aí os deixaste, os teus livros e os discos
Era uma noite tão fria, tínhamos as estepes aqui tão perto,
o som dos cavalos selvagens, os guerreiros que
fizeram a mongólia, era um manto de frio sobre a terra
o chão tão parado sem pés que o pisassem,
tu vieste, nua e branca, só os teus pés agora eu ouvia,
e a tua respiração, de repente a minha se juntava,
as nossas depressa se uniram,
um mumúrio na noite gelada, nas estepes dos fantasmas
dos guerreiros de há séculos, na terra que não adormece,
nos cobertores que não nos cobrem,
no vento no frio no gelo na neve
tu foste
eu fui
fomos o fogo, a tempestade, o gemido, a sede,
a tempestade o fogo o tremor, o grito abafado de duas bocas
o calor de cinco sóis fomos
somos
27 novembro 2006
Hoje
Sabes, eu não pensei
que o frio te invadisse os
ossos, te deixasse assim gelada,
os lábios roxos, as mãos
tremendo, eu não sabia
que as lágrimas não
parariam de correr,
e que ao fim de um dia
formassem um rio tão cheio.
em que não fomos nós,
não estivemos sós,
e sorri, porque hoje somos
dois.
Para sempre.
16 novembro 2006
Dizem que o mundo só anda tendo à frente um capataz
Aldeia da Meia Praia
Ali mesmo ao pé de Lagos
Vou fazer-te uma cantiga
Da melhor que sei e faco
De Montegordo vieram
Alguns por seu próprio pé
Um chegou de bicicleta
Outro foi de marcha à ré
Quando os teus olhos tropecam
No voo de uma gaivota
Em vez de peixe ve pecas de oiro
Caindo na lota
Quem aqui vier morar
Nao traga mesa nem cama
Com sete palmos de terra
Se constrói uma cabana
Tu trabalhas todo o ano
Na lota deixam-te nudo
Chupam-te até ao tutano
Levam-te o couro cabeludo
Quem dera que a gente tenha
De Agostinho a valentia
Para alimentar a sanha
De esganar a burguesia
Adeus disse a Montegordo
Nada o prende ao mal passado
Mas nada o prende ao presente
Se só ele é o enganado
Oito mil horas contadas
Laboraram a preceito
Até que veio o primeiro
Documento autenticado
Eram mulheres e criancas
Cada um com o seu tijolo
Isto aqui era uma orquestra
quem diz o contrario é tolo
E se a ma lingua nao cessa
Eu daqui vivo nao saia
Pois nada apaga a nobreza
Dos indios da Meia-Praia
Foi sempre tua figura
Tubarao de mil aparas
Deixas tudo à dependura
Quando na presa reparas
Das eleicões acabadas
Do resultado previsto
Saiu o que tendes visto
Muitas obras embargadas
Mas nao por vontade própria
Porque a luta continua
Pois é dele a sua história
E o povo saiu à rua
Mandadores de alta financa
Fazem tudo andar para tras
Dizem que o mundo só anda
Tendo à frente um capataz
Eram mulheres e criancas
Cada um com o seu tijolo
Isto aqui era uma orquestra
Que diz o contrario é tolo
E toca de papelada
No vaivém dos ministérios
Mas hao-de fugir aos berros
Inda a banda vai na estrada
Letra e Música: Zeca Afonso
14 novembro 2006
Mar II
Olha o mar;
entra nele,
como se fundo entrasses
no meu pescoço.
por um segundo, abre
a tua pele à pele do sol.
diz branco, atira o sorriso
à noite, como se o mundo fosse de mar.
10 novembro 2006
É no Outono. E se dizemos que estamos no Outono é porque chegámos enfim a outros dias, Aqueles feitos de ar quente e cheios de sol já os deixámos, já nos esqueceram, quer dizer, voltarão apenas quando quiserem, talvez para o ano que virá a seguir a este. O tempo, esse que não sabemos quem seja mas que deixamos que nos leve onde quer, encarregou-se de tal façanha. É no Outono. A luz é outra, o sol não nos queima já a vista, e menos nos queima a pele. O cheiro que traz o Outono é outro, constatamos, é assim quando saímos à rua a primeira vez depois do Verão. É esse cheiro que trazes, e é com esta luz que te espero, Chegarás com ela, é o que te digo em tons de Outono, Espero por ti quando forem as primeiras chuvas, é o que te conto em tons de segredo, não te vás assustar, ou com a chuva ou com esta quebra de silêncio, mas ao dizermos a palavra silêncio estamos a mentir, não somos verdadeiros, se chove por aqui não pode fazer-se silêncio. E com isto mentimos outra vez, não conseguimos ser verdadeiros nesta história que contamos, pois se chove o silêncio cresce, faz-se mais alto, preenche todo o espaço que há entre os meus lábios e o teus, e quanto mais forte cai a chuva mais forte é o silêncio que fazemos, entre nós não há palavras onde não são precisas, porque agora é preciso ouvirmos a chuva. No silêncio não há perguntas absurdas que resistam, ficamos calados e ponto, final ou de admiração não importa, já o dissemos, calemo-nos os dois. É no Outono. E se aqui nos repetimos, e não vamos conseguir deixar de o fazer, é porque gostamos de aqui estar, eu e tu, esperando que a chuva torne a molhar-nos, e deixe vir o silêncio, já nada importa, falar, escrever, eu fui, eu parti e encontrei-te, o silêncio que regresse de vez e acabe com esses últimos dias que queimam a pele e os olhos, uma vez que eles nos deixaram já há semanas atrás. Dormimos, não dormimos, não queremos sair daqui, aqui ficamos, deixar este lugar de Outono não nos passa pela cabeça, que é o mesmo que dizer, não pensamos nisso, agora que te tenho de novo não quero sair, quero ficar, tu e eu.
Estes dias de que falamos tão demoradamente, estes a que chegámos, são em tudo diferentes dos outros que partiram, esses amanheciam, estes entardecem à beira de uma folha caída, entardecem a uma luz morena, de cabelos escuros e lábios finos, e não sabemos já se falamos de ti, aqui ao lado, de ombros nus, queimados ainda, ou desta luz de Outono, ou se de uma e a mesma coisa. Era aqui que eu gostava de adormecer, nestes dias de menos sol, Lembras-te, durante quatrocentos anos sonhei com manhãs no mar, com o vento salgado nos olhos. Tu sorris, tão bom ver-te sorrir de novo, tantas saudades, meu amor, tantas saudades, mas agora estás aqui, e eu vou ouvindo o trabalho do Outono, quase que consigo ouvir as folhas lá fora, o vento e a chuva, que este mês não acabe nunca para nós.
Esta luz, contamos, extingue-se num fogo lento de lenha, por isso dizemos que no Outono chega outro cheiro, e chegam outros dias, vindos de qualquer parte que não conhecemos mas que fica muito longe, e assim fica explicado o que queria e tu querias dizer mas não pudemos ou não quisemos porque fazíamos silêncio com os nossos lábios, porque ouvíamos a chuva, porque era Outono, porque tu voltaste depois de partires quando o Verão terminou… E porque outras areias chegam com as marés vivas de Outubro, com estas novas ondas de um mar puríssimo, dourado, que é o mesmo que dizer, Com este mar de Outubro.
19 setembro 2006
Dormimos
Sabes o que te quero dizer.
Talvez ontem não soubesse, nem o soubesses tu, mas subia no ar um murmúrio, o ar estava quente, ainda não cansado, mas já pesado, entrava pelos nossos cabelos, entrava sem pedir na nossa pele, saía sem dizer Água vai, quando estava longe apenas dizia Água vem, e ficávamos parados sem nada dizer, que é como quem diz, ficávamos calados, convem esclarecer, muitas vezes estamos calados mas dizemos muito, mas nesta situação calados estávamos e mudos ali ficámos. Depois o dia adormeceu, deixou-nos por algumas horas, então adormecemos também, é o que fazem as pessoas quando não suportam a espera de um novo dia, mas que não têm medo dele. O dia começa cedo, não quando já vai a meio, ou quase no fim, nesse caso para quê acordar, para quê sairmos da cama, para quê viver, poderíamos perguntar se nos apetecesse, e é o que perguntamos, Para quê viver, então ficaríamos outra vez mudos, porque a resposta não vem, tarda a vir ou virá entretanto, embora nos pareça pouco provável. Não interessa todavia o que pensamos, se aqui estamos, se aqui podemos estar foi porque nos deixaram, não vamos então perder o tempo com histórias que nem mesmo para nós são importantes, seria pouco inteligente.
Dormimos, ou pareceu-me que dormimos, como podemos ter a certeza que dormimos se não nos lembramos o que fizemos, se nos virámos para o lado direito quinze minutos depois de adormecermos, se mexemos aquele pé, e não o outro, se abraçámos quem quer que estivesse ao nosso lado, se nos beijámos.
Apesar de tudo isto que fica dito, dormimos.
11 agosto 2006
02 agosto 2006
Sobe, não ligues à luz
Sobe, não ligues à luz, que está desligada para que não se vejam os traços das caras das pessoas nem a luz que trazem acima do pescoço, sobe, outra vez te digo, vem por essas escadas, não ligues à luz que está desligada, não te esqueças, os degraus não são muitos, nunca os contei, sempre me doeu subi-los, sempre chorei, nunca me ocorreu levantar os olhos dos meus pés e destes degraus, sei-os de cor, tu não, é a primeira vez que os sobes, nada sabes sobre eles, quem os subiu, quem os sabe de cor para além de mim, quem os desceu aos tombos, quantos caíram do décimo quinto degrau, quantos se encostaram no terceiro patamar... Sobe, sobe sempre, sobe no escuro, cá dentro não precisas de luz, não precisas de me ver, à meia-luz chega, à meia sombra está muito bem, só precisas de me ouvir, de esperar um pouco, primeiro tens de subir estes degraus, tens de encontrar um corredor que começa ao cimo das escadas, no quinto andar, um daqueles alcatifado, daqueles cheios de silêncio e passos, silêncio e passos, só silêncio e passos... repara, estás quase a chegar, já falta pouco, de certeza menos do que quando começaste a subir, menos ainda quando mal conseguias passar da porta de entrada, agora estás perto, muito perto, no corredor tens de encontrar um porta, uma pequena, uma que deves abrir, uma que deves abrir, digo-to outra vez porque não basta abrir uma porta para que tudo fique feito, tudo fique pronto, acabado, não sei de onde veio essa ideia, abrir uma porta é suficiente, não, mil vezes não, abrir uma porta não é nada! ninguém percebe, ninguém sabe, todos acham demais abrir uma porta, mas tu deves abrir essa porta, não tenhas medo, passa por baixo dela, só assim acabas o que começaste, por isso te dizia que abrir uma porta não chega, agora percebes, percebo. Fecha os olhos, os teus, só os teus, repara bem nas palavras que uso, não queiras fechar os olhos de mais ninguém, não tens o direito, fecha os teus olhos, não precisas de ver, não ligues à luz que está desligada, se não te lembrasse já não o sabias, entra, não ligues à luz que não existe, outra forma de dizer o mesmo, tu percebes, tu sabes o que quero dizer, mandei-te subir e subiste, mandei-te passar pelo corredor, abrir e passar por baixo da porta, tens feito tudo como te peço, desde o princípio, não sei muito bem que princípio é este, se é o das palavras, provavelmente não, porque não te tenho falado dessa maneira afinal, esta é apenas a história do que fizemos hoje, de como o fizemos, do que dissemos sem palavra escrita, sem palavra dita, este silêncio também se ouve, este silêncio não o vês porque tens os olhos fechados, os teus, repara outra vez como tenho sempre cuidado com o que te digo, ou o que te disse. Agora pára, não te vejo, não me vês mas sei que estás aqui, tu sabes que estou aqui, não vou sair, tu também não. Sobe, sobe sempre, dizias tu. Ou pensavas que dizias. Ou pensava que dizias.
Sobe, não ligues à luz, que está ligada. Agora estamos nós. Estamos sós.

