"Tudo era claro, jovem, alado. O mar estava perto. Puríssimo. Doirado." - Eugénio de Andrade
20 dezembro 2009
She's Young
but look at me,
I have pretty ankles,
and look at my wrists, I have pretty
wrists
o my god,
I thought it was all working,
and now it's her again,
every time she phones you go crazy,
you told me it was over
you told me it was finished,
listen, I've lived long enough to become a
good woman,
why do you need a bad woman?
you need to be tortured, don't you?
you think life is rotten if somebody treats you
rotten it all fits,
doesn't it?
tell me, is that it? do you want to be treated like a
piece of shit?
and my son, my son was going to meet you.
I told my son
and I dropped all my lovers.
I stood up in a cafe and screamed
I'M IN LOVE,
and now you've made a fool of me. . .
I'm sorry, I said, I'm really sorry.
hold me, she said, will you please hold me?
I've never been in one of these things before, I said,
these triangles. . .
she got up and lit a cigarette, she was trembling all
over.she paced up and down,wild and crazy. she had
a small body.her arms were thin,very thin and when
she screamed and started beating me I held her
wrists and then I got it through the eyes:hatred,
centuries deep and true. I was wrong and graceless and
sick. all the things I had learned had been wasted.
there was no creature living as foul as I
and all my poems were
false.
Charles Bukowski
03 dezembro 2009
02 dezembro 2009
Discurso Sobre a Reabilitação do Real Quotidiano
são só até ao joelho
e o joelho que bom é só até à ilharga
conto os meus dias tangerinas brancas
e vejo a noite Cadillac obsceno
a rondar os meus dias tangerinas brancas
para um passeio na estrada Cadillac obsceno
e no país no país e no país país
onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço
e o pescoço que bom é só até ao artelho
ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,
chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,
recordo os meus amores liames indestrutíveis
e vejo uma panóplia cidadã do mundo
a dormir nos meus braços liames indestrutíveis
para que eu escreva com ela, só até à ilharga,
a grande história de amor só até ao pescoço
e no pais no pais que engraçado no pais
onde o poeta o poeta é só até à plume
e a plume que bom é só até ao fantasma
ao passo que o fantasma - ora ai está -
não é outro senão a divina criança (prometida)
uso os meus olhos grandes bons e abertos
e vejo a noite (on ne passe pas)
diz que grandeza de alma. Honestos porque
Calafetagem por motivo de obras.
relativamente queda de água
e já agora há muito não é doutra maneira
no pais onde os homens são só até ao joelho
e o joelho que bom está tão barato
Mário Cesariny in Manual de Prestidigitação
27 novembro 2009
Melquíades - José Arcadio Buendía
***
According to Canseliet, his last encounter with Fulcanelli happened in 1953, when he went to Spain and was taken to a castle high in the mountains for a rendezvous with his former master. Canseliet had known Fulcanelli as an old man in his 80s but now the Master had grown younger: he was a man in his 50s. The reunion was brief and Fulcanelli once again disappeared leaving no trace of his whereabouts. At this time, Fulcanelli would have been 114 years old.
***
É ao mesmo tempo uma desilusão e uma surpresa, ter encontrado os putativos Melquíades e José Arcadio Buendia do mundo físico, fora do realismo mágico construído em "Cem Anos de Solidão". O meu fascínio permanece intacto apesar de, ao que parece, existir gente que consegue transformar chumbo em ouro. Com ou sem estojos de alquimía.
"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo."
16 novembro 2009
Pornografia emocional
01 novembro 2009
Splendour in the grass
which was once so bright
Be now for ever taken from my sight,
Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass,
of glory in the flower,
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind;
In the primal sympathy
Which having been must ever be;
In the soothing thoughts that spring
Out of human suffering;
In the faith that looks through death,
In years that bring the philosophic mind.
William Wordsworth
19 outubro 2009
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!
Luís de Camões
16 outubro 2009
A cidade e as serras
debaixo deste Sol,
e a eterna repetição das coisas
é a eterna repetição dos males.
Pelas ruas mais sujas das cidades,
pela sombra dos altos penedos das serras
o Homem caminha, só,
pesando-lhe nos ombros
o morto-peso de si próprio.
27 setembro 2009
20 setembro 2009
Silêncio e tanta gente
por calar
dessas sempre nos arrependemos
por certo houve
por certo houve gestos que ficaram
apenas sombra
luz refractária
ténue movimento irrepetível
por certo houve
o silêncio que ficou nos espaços
onde tu não existes
e onde não podes existir
por ser o meu espaço
por ser o meu silêncio
por certo houve silêncio
e tanta gente,
que no silêncio está
toda a música
dos gestos inúteis.
14 setembro 2009
Ganges
Kaelstrom

A falésia crescia como um véu negro muito acima do nível do mar. E fazia lembrar, vistas da pequenez de quem as observasse, as antigas catedrais góticas, perfiladas, escurecidas pela imersão nos séculos. A ponto de, em baixo, o rebentar persistente das ondas ser só imagem, sem acústica consequência do perpétuo movimento violentando a rocha.
30 maio 2009
29 maio 2009
Caminho precário
Portanto, se uma destas realidades, paralelas que são e que por isso de maneira alguma se hão-de encontrar, ou cruzar, em qualquer ângulo que seja, são possíveis de contar e de escrever para que se leiam e se achem absurdas hipóteses, uma terceira é também possível, e com três realidades outros milhares e milhões, não custa imaginar, são do mesmo jeito, corolário daquilo que se não aconteceu, podia ter acontecido.
Que tudo é possível, simultaneamente, no grande caos cosmológico.
24 abril 2009
VILA MORENA
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade
Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade.
José Afonso
Portugal e o futuro
Para nós, hoje, o 25 de Abril de 1974 já é passado. Mas é um passado que não pode deixar de ser sempre futuro, aquele, o primeiro, o decisivo é para mim sempre futuro, sempre possível, sempre repetível, mas que dizer, eu sou um abrilista...
Viva o 25 de Abril!
06 abril 2009
eu frequentava a mesma luz,
as ruas que desciam
paralelas ao castelo.
e eu encontrava
no fundo de cada uma
a mesma janela de olhos verdes,
um pouco de sangue nos lábios,
a mesma janela
e dois olhos verdes.
e um dia chegava a hora,
o mesmo lugar no tempo,
o tempo em que nenhum espelho
nenhuma luz reflectia.
e apetecia
a claridade intensa
e solitária que procurava
no alto dos penedos
escurecidos.
28 março 2009
Hora do gelo
quando os rios interrompem
as mãos que trazem a água,
nenhuma outra luz chega
ao fundo dos rios
ao fundo dos olhos,
nenhuma outra escuridão me cega
as naus oceanos naves
de vencer as ondas
ainda não chegaram,
ainda não se gritou
fin the end fine
a anunciar a vitória
das margens de um rio
que se juntaram
abraçaram-se os salgueiros
juntaram-se as pedras
o leito secou
à hora do gelo
um rio acabou.
11 outubro 2008
Ausência
indiferentes ao frio
os ombros escolhem as mãos
duas mãos apenas
que não escureçam
as ruas onde estás não escurecem
apenas a noite
Os olhos abertos
o rumor
os rumores abertos
entre os passos
cobertos os espaços
de ti
Mas hoje não estás, hoje não és
assim, um corpo
margens brancas
planície sol aluvião
o mar é uma colina verde
o mar é todo o sangue
que não se perde
deixa ao menos um pouco de ti
no fundo dos meus braços
no fundo do mar
Deixa ao menos um pouco de sol
e o inverno que não acabe
nunca
Indiferentes ao desejo
as noites passam debaixo
da minha janela,
essa luz tão fria
a cegar-me os dedos
esses dois braços
que eu queria
e no fim deles duas mãos
que não escureçam
duas mãos e o arco que descrevem
como se a lua tão perto
Que ausência a tua
com quantas letras se escreve
a palavra longe, com quantos dedos
se contam três mil quilómetros,
tu
a meio dia do outro lado da terra
e os meus braços
que não chegam
dois braços
simulando os espaços
a meio caminho do desejo.
11 setembro 2008
Para mim
10 setembro 2008
Um dia
um rio onde as margens
sejam as tuas mãos
um dia que seja
dourado de sol
no cume das árvores,
um dia
que nasce nesse lugar
por onde desabam os cabelos
entre os braços do Outono,
seguirá os trilhos do sul-poente
os flancos de um corpo
adormecido
onde não exista outro corpo
procura nessa luz
refractária
a pureza de seres tu.
Normandia Azul
e o teu cabelo
passa debaixo dessa porta
um vento frio
o mar do norte
desfazendo-se
em tempestade
o frio inteiro
nos teus ombros
doem-me as mãos
de te escalar,
normandia azul,
atira-me uma onda
a derradeira
vaga de arrastar
navios.
03 setembro 2008
Rua
Não posso falar, não posso dizer,
Estarem dois lábios adiados sem aparente razão, ficar um corpo a arder sem que se saiba porquê, e tu dirias, Esta a razão de as minhas mãos tão pequenas nas tuas tão grandes,
Desaparecerem, queres tu dizer
E a resposta também adiada, sem timbre nem côr, um silêncio de pasmar e de se ouvir a madeira a existir, uma secretária pesada de pau preto toda em gavetas, a porta diante dela sempre fechada, os tapetes no chão onde ficam os passos, destruíndo os passos que se dão, um à frente e atrás do outro sucessivamente, no fim de tudo o corredor debaixo dos pés com uma luz fria de inverno a entrar pelas janelas
Os passos - de quem eram?
A pergunta foi atirada para o ar no tremor da língua - entre os lábios adiados e vermelhos de neles o sangue, um peso no peito, o da respiração,
dois braços, eram dois braços de pau preto
Um vestido de cetim a um canto do mar diante da porta ou ainda debaixo dela, passando, e eras tu, uma onda de tecido a acabar com o silêncio
apenas o cetim
Os passos ficaram na luz fria do corredor com lajes de mármore pedra gelada para se morrer, à esquerda era a cozinha, toda forrada a livros e arquivos antigos, à direita, e antes dela, uma janela jorrava luz de dentro do prédio, caía num largo parapeito onde tantas vezes me sentava, longe do chão, a imaginar tudo
a Vara de Moisés a pesar no braço
Dois braços de pau preto diante da mesa metida a um canto diante da porta, esta metida a outro canto, e uma respiração à espera, adiada, a perguntar
Os passos - de quem eram?
O perfume escondido no marfim do pescoço onde uma vez beijos e a mesma respiração, agora só leveza e frescura, e eu a colher árvores e jardins inteiros para plantar à tua porta, uma rua inteira à espera que amanheças, nove e meia da manhã e eu sem dormir, um fantasma com as pálpebras mortas pela calçada sem rasto de sangue que as siga, Diana, adia-me esta rua para um dia de inverno, um dia em que eu possa entrar pela tua janela e tu estejas a verter o mar inteiro
(os olhos verdes como a erva mais alta de Maio)
pelos teus olhos.
26 julho 2008
Europa
mulher,
e os teus cabelos longos
se doirarem,
dois líquidos olhos gregos,
lembrando,
e fores o vento nas costas
de um toiro,
e fores as montanhas azuis nas costas
de um toiro,
a tua bandeira uma
túnica branca
apenas.
O branco da luz apenas.
14 julho 2008
Beatles - And Your Bird Can Sing
You tell me that you've got everything you want
And your bird can sing
But you don't get me, you don't get me
You say you've seen seven wonders and your bird is green
But you can't see me, you can't see me
When your prized possessions start to wear you down
Look in my direction, I'll be round, I'll be round
When your bird is broken will it bring you down
You may be awoken, I'll be round, I'll be round
You tell me that you've heard every sound there is
And your bird can swim
But you can't hear me, you can't hear me
03 julho 2008
Planta
Era um corredor de uma luz clara mas baça, indirecta, dessas em que as sombras permanecem indistintas e vacilantes, mal desenhadas nas cores com que se pintam as paredes. Do lado direito, duas janelas recebiam o sol - que àquela hora ainda insistia em atingir todos os segundos andares e últimos pisos dos prédios de uma rua que apenas no alto Verão podia conservar algum calor entre as habitações.
O corredor era estreito, um pouco esconço, cumpria todavia bem a sua função, que era a de dar comunicação, acesso ou serventia, isto é, estabelecer ligação entre as divisões mais esquecidas da casa, bem escondidas, embora acidentalmente, e um pequeno átrio onde ficavam - talvez sempre tenham ali existido - umas escadas de madeira já muito velhas, já muito gastas por quem quer que as tenha subido, talvez nem mesmo aqueles degraus saibam quem neles pôs os pés, talvez sempre tenham ali existido, pois definitivamente nos parecem ser anteriores à construção daquele edifício.
Na verdade, sempre tinha sido pouco difícil a quantos ali viveram ao longo dos anos, e não foram poucas as famílias, reparar que na sucessiva construção se tinham aproveitado as paredes graníticas e antigas, velha forma de erguer paredes onde instalar uma esteira e uma pia, depois uma cama e uma mesa de cabeceira, depois ainda talvez uma cómoda, e se tiver sido caso disso, quando a economia assim o permitia, um tapete que escuse um ou dois pares de pés do choque térmico do chão, que de noite, no inverno, bem custa tirá-los da cama se o aperto da bexiga obriga a uma ida nocturna ao quarto de banho e uma volta para o aconchego dos lençóis, e dizíamos, sempre se tinham aproveitado as austeras pedras já sobrepostas há pelo menos seis gerações, e portanto naquela luz fria, indirecta e baça onde principiava o átrio no qual tinham sido postas as escadas, em degraus, como sempre são postas, distinguia-se o negro do granito do branco com que sempre se pintam, modernamente, as paredes das casas. E não havendo outro, este concretamente seria um sinal de que no lugar destas se erguiam velhas paredes escuras de pedra escurecida, em concordância com aquelas que ao fundo do corredor dão para umas escadas de madeira, umas escadas já muito velhas, já muito gastas, um ou outro degrau mal calculado, que para o efeito servem muito bem, e já o sabemos, que é o de suportar o peso dos pés daqueles que escolhem subi-los e entrar num sótão quente, escuro, como o são todos, húmido e muito esconço, mais ainda, muito mais do que o corredor que a ele dá acesso, comunicação ou serventia.
