A cidade ainda me destrói,
Vincent,
e nenhuma rua que conheça os meus
passos se mantém intacta.
Recomeço
e a cidade ainda me cega
cem noites escuras desceram
as colinas onde a lua não repousa,
apenas os teus olhos
de um belo azul-da-china,
Vincent,
abertos para a noite
suspensa das estrelas que a povoam.
A lucidez ainda me destrói,
Vincent,
que noite foi essa que te pediu
a vida, ninguém soube ouvir-te,
bastava a escuridão no fundo
dos teus olhos.
que noite quis que caminhasses
com ela,
agora percebo quando dizias
a cidade ainda me destrói,
e depois partiste
debaixo dessa noite povoada
por rebentos de prata.
"Tudo era claro, jovem, alado. O mar estava perto. Puríssimo. Doirado." - Eugénio de Andrade
18 fevereiro 2010
18 janeiro 2010
20 dezembro 2009
She's Young
she's young, she said,
but look at me,
I have pretty ankles,
and look at my wrists, I have pretty
wrists
o my god,
I thought it was all working,
and now it's her again,
every time she phones you go crazy,
you told me it was over
you told me it was finished,
listen, I've lived long enough to become a
good woman,
why do you need a bad woman?
you need to be tortured, don't you?
you think life is rotten if somebody treats you
rotten it all fits,
doesn't it?
tell me, is that it? do you want to be treated like a
piece of shit?
and my son, my son was going to meet you.
I told my son
and I dropped all my lovers.
I stood up in a cafe and screamed
I'M IN LOVE,
and now you've made a fool of me. . .
I'm sorry, I said, I'm really sorry.
hold me, she said, will you please hold me?
I've never been in one of these things before, I said,
these triangles. . .
she got up and lit a cigarette, she was trembling all
over.she paced up and down,wild and crazy. she had
a small body.her arms were thin,very thin and when
she screamed and started beating me I held her
wrists and then I got it through the eyes:hatred,
centuries deep and true. I was wrong and graceless and
sick. all the things I had learned had been wasted.
there was no creature living as foul as I
and all my poems were
false.
Charles Bukowski
but look at me,
I have pretty ankles,
and look at my wrists, I have pretty
wrists
o my god,
I thought it was all working,
and now it's her again,
every time she phones you go crazy,
you told me it was over
you told me it was finished,
listen, I've lived long enough to become a
good woman,
why do you need a bad woman?
you need to be tortured, don't you?
you think life is rotten if somebody treats you
rotten it all fits,
doesn't it?
tell me, is that it? do you want to be treated like a
piece of shit?
and my son, my son was going to meet you.
I told my son
and I dropped all my lovers.
I stood up in a cafe and screamed
I'M IN LOVE,
and now you've made a fool of me. . .
I'm sorry, I said, I'm really sorry.
hold me, she said, will you please hold me?
I've never been in one of these things before, I said,
these triangles. . .
she got up and lit a cigarette, she was trembling all
over.she paced up and down,wild and crazy. she had
a small body.her arms were thin,very thin and when
she screamed and started beating me I held her
wrists and then I got it through the eyes:hatred,
centuries deep and true. I was wrong and graceless and
sick. all the things I had learned had been wasted.
there was no creature living as foul as I
and all my poems were
false.
Charles Bukowski
03 dezembro 2009
Há um país em que existem montanhas, nas montanhas erguem-se cem vezes cem escarpas e nas escarpas mil vezes mil cedros as povoam, desde os planaltos mais remotos até onde as brisas frescas daquele verde mar, em baixo, encontram as colinas e as praias desertas. Quando fores nesse batel, nau, caravela, couraçado, iate, cruzeiro, leva um cedro contigo, leva uma dessas árvores contigo, com ela estarás sempre à porta de casa, encostando um ombro entre a sombra e a claridade, olhando as escadas que te levam onde já sabes que te levam, mas sempre essa subida a guardar mistérios, a reter segredos, Que segredos, perguntas tu, e a resposta não tarda, pelo menos não deve tardar, porque não é segredo, não é segredo absolutamente nenhum que depois daquela porta todo o mundo é silêncio, melhor pensando, silêncio não será propriamente, um dia descias a rua, levando-te os teus passos, pesados porque descias, pesados do peso de existir, Que palavra, existir, Sim, que palavra, descias então a rua e depois aproximaste-te da porta, a mão escorregou pelo bolso, pertíssimo do preciso local por onde até há pouco meus lábios se perderam, os dedos pegaram na chave que é a que te dei para que pudesses abrir a porta, o pé esquerdo pisou finalmente o primeiro degrau, não sei de onde me veio esta crença de que foi o pé esquerdo o primeiro, são coisas que se sabem, depois o direito, decidido, por fim os teus ombros transpuseram a fronteira entre um mundo e o outro, e depois silêncio, afinal a resposta sempre tardou, tardou umas poucas linhas, quem as ler julgará que esqueço a resposta, mas prometo-te, não te faltará uma resposta, Que segredos, creio ter sido a tua pergunta, e onde os teus ombros estão é só segredo, perdão, é só siléncio, mas pensando melhor não é bem silêncio, é outra coisa, sim, outra coisa, com esta ausência de rigor que tão mal fica na pretensão literária, Uma coisa será, mas o quê, Não faças mais perguntas do que as que posso responder, por onde me levam as palavras não sei, neste momento a minha certeza é apenas uma e simples, a de que não é silêncio o que existe depois daquela porta e antes das escadas que tantas vezes subiste, é muito mais do que silêncio, é o outro modo de ser de todas as coisas, Do Universo, Sim, do Universo, se quiseres, a quarta, a quinta, a sexta até à décima primeira dimensão, desde as pedras antiquíssimas que são as ombreiras da porta, as lajes azuis onde ainda se conserva um frio glacial que já não existe, e o silêncio, que assim devemos chamar o outro modo de ser de todas as coisas, a lembrar o fogo primordial, essa combustão criadora acesa pelo lume de dois corpos que se consomem numa explosão de beijos, facas e gumes, a lembrar a fresca brisa pacificadora que nos trás as palavras que dizemos, a lembrar o chão que os passos que damos, sucessivamente, rua acima, rua abaixo para nos cruzarmos com as sombras e vultos de nós próprios escalando as árvores do desejo, e a lembrar, por fim, não te esqueças, a água, o mar para onde todos voltamos, o mar onde o ciclo se esgota e renova pelos milénios que foram e hão-de vir, e o silêncio, ou o outro modo de ser de todas as coisas.
02 dezembro 2009
Discurso Sobre a Reabilitação do Real Quotidiano
no país no país no país onde os homens
são só até ao joelho
e o joelho que bom é só até à ilharga
conto os meus dias tangerinas brancas
e vejo a noite Cadillac obsceno
a rondar os meus dias tangerinas brancas
para um passeio na estrada Cadillac obsceno
e no país no país e no país país
onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço
e o pescoço que bom é só até ao artelho
ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,
chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,
recordo os meus amores liames indestrutíveis
e vejo uma panóplia cidadã do mundo
a dormir nos meus braços liames indestrutíveis
para que eu escreva com ela, só até à ilharga,
a grande história de amor só até ao pescoço
e no pais no pais que engraçado no pais
onde o poeta o poeta é só até à plume
e a plume que bom é só até ao fantasma
ao passo que o fantasma - ora ai está -
não é outro senão a divina criança (prometida)
uso os meus olhos grandes bons e abertos
e vejo a noite (on ne passe pas)
diz que grandeza de alma. Honestos porque
Calafetagem por motivo de obras.
relativamente queda de água
e já agora há muito não é doutra maneira
no pais onde os homens são só até ao joelho
e o joelho que bom está tão barato
Mário Cesariny in Manual de Prestidigitação
são só até ao joelho
e o joelho que bom é só até à ilharga
conto os meus dias tangerinas brancas
e vejo a noite Cadillac obsceno
a rondar os meus dias tangerinas brancas
para um passeio na estrada Cadillac obsceno
e no país no país e no país país
onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço
e o pescoço que bom é só até ao artelho
ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,
chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,
recordo os meus amores liames indestrutíveis
e vejo uma panóplia cidadã do mundo
a dormir nos meus braços liames indestrutíveis
para que eu escreva com ela, só até à ilharga,
a grande história de amor só até ao pescoço
e no pais no pais que engraçado no pais
onde o poeta o poeta é só até à plume
e a plume que bom é só até ao fantasma
ao passo que o fantasma - ora ai está -
não é outro senão a divina criança (prometida)
uso os meus olhos grandes bons e abertos
e vejo a noite (on ne passe pas)
diz que grandeza de alma. Honestos porque
Calafetagem por motivo de obras.
relativamente queda de água
e já agora há muito não é doutra maneira
no pais onde os homens são só até ao joelho
e o joelho que bom está tão barato
Mário Cesariny in Manual de Prestidigitação
27 novembro 2009
Melquíades - José Arcadio Buendía
Fulcanelli (1839 – 1953?) is a pseudonym of a late 19th century French Alchemist and author whose identity is still unknown. Much mystery surroundshis life and works – leading to him being branded a cultural phenomenon. One of the more extravagant tales retells how his devoted pupil (Eugene Canseliet) successfully transformed 100 grams of lead into gold with the use of a small quantity of “Projection Powder” given to him by his teacher.
***
According to Canseliet, his last encounter with Fulcanelli happened in 1953, when he went to Spain and was taken to a castle high in the mountains for a rendezvous with his former master. Canseliet had known Fulcanelli as an old man in his 80s but now the Master had grown younger: he was a man in his 50s. The reunion was brief and Fulcanelli once again disappeared leaving no trace of his whereabouts. At this time, Fulcanelli would have been 114 years old.
***
É ao mesmo tempo uma desilusão e uma surpresa, ter encontrado os putativos Melquíades e José Arcadio Buendia do mundo físico, fora do realismo mágico construído em "Cem Anos de Solidão". O meu fascínio permanece intacto apesar de, ao que parece, existir gente que consegue transformar chumbo em ouro. Com ou sem estojos de alquimía.
"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo."
***
According to Canseliet, his last encounter with Fulcanelli happened in 1953, when he went to Spain and was taken to a castle high in the mountains for a rendezvous with his former master. Canseliet had known Fulcanelli as an old man in his 80s but now the Master had grown younger: he was a man in his 50s. The reunion was brief and Fulcanelli once again disappeared leaving no trace of his whereabouts. At this time, Fulcanelli would have been 114 years old.
***
É ao mesmo tempo uma desilusão e uma surpresa, ter encontrado os putativos Melquíades e José Arcadio Buendia do mundo físico, fora do realismo mágico construído em "Cem Anos de Solidão". O meu fascínio permanece intacto apesar de, ao que parece, existir gente que consegue transformar chumbo em ouro. Com ou sem estojos de alquimía.
"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo."
16 novembro 2009
Pornografia emocional
Alguém, cuja cabeça só tem dentro um monte de lixo, deve achar muito engraçada a pornografia emocional sob a forma de programa de televisão que é o "Uma canção para ti", da TVI... Há uns minutos atrás, criou-se naquele programa, já perto do fim, um cenário (digo isto com muitas reservas) digno de ser visto: perante o júri 7 crianças esperavam a votação - depois dos votos, que, diga-se foram todos para uma rapariga mais crescidinha, um miúdo de 5 ou 6 anos largou a chorar convulsivamente, e continuou, naturalmente por nem um voto ter conseguido, coitadinho dele, e dos papás, e continuou, dizia, enquanto todos os concorrentes cantavam a canção que introduzia o genérico final - na plateia uns batiam palmas, outros choravam, mas todos tinham o olhar muito, muito longe dali... repito, isto é pornografia emocional, e uma sujeição intolerável a níveis de pressão que até um adulto tem dificuldade em gerir, e juro que qualquer dia entro no programa e atiro tomates e ovos a toda a gente - menos às crianças, que não têm culpa nenhuma dos papás que têm...
01 novembro 2009
Splendour in the grass
What though the radiance
which was once so bright
Be now for ever taken from my sight,
Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass,
of glory in the flower,
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind;
In the primal sympathy
Which having been must ever be;
In the soothing thoughts that spring
Out of human suffering;
In the faith that looks through death,
In years that bring the philosophic mind.
William Wordsworth
which was once so bright
Be now for ever taken from my sight,
Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass,
of glory in the flower,
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind;
In the primal sympathy
Which having been must ever be;
In the soothing thoughts that spring
Out of human suffering;
In the faith that looks through death,
In years that bring the philosophic mind.
William Wordsworth
19 outubro 2009
Sete anos de pastor Jacob servia
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!
Luís de Camões
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!
Luís de Camões
16 outubro 2009
A cidade e as serras
Nada há de novo
debaixo deste Sol,
e a eterna repetição das coisas
é a eterna repetição dos males.
Pelas ruas mais sujas das cidades,
pela sombra dos altos penedos das serras
o Homem caminha, só,
pesando-lhe nos ombros
o morto-peso de si próprio.
debaixo deste Sol,
e a eterna repetição das coisas
é a eterna repetição dos males.
Pelas ruas mais sujas das cidades,
pela sombra dos altos penedos das serras
o Homem caminha, só,
pesando-lhe nos ombros
o morto-peso de si próprio.
27 setembro 2009
20 setembro 2009
Silêncio e tanta gente
Houve palavras que ficaram
por calar
dessas sempre nos arrependemos
por certo houve
por certo houve gestos que ficaram
apenas sombra
luz refractária
ténue movimento irrepetível
por certo houve
o silêncio que ficou nos espaços
onde tu não existes
e onde não podes existir
por ser o meu espaço
por ser o meu silêncio
por certo houve silêncio
e tanta gente,
que no silêncio está
toda a música
dos gestos inúteis.
por calar
dessas sempre nos arrependemos
por certo houve
por certo houve gestos que ficaram
apenas sombra
luz refractária
ténue movimento irrepetível
por certo houve
o silêncio que ficou nos espaços
onde tu não existes
e onde não podes existir
por ser o meu espaço
por ser o meu silêncio
por certo houve silêncio
e tanta gente,
que no silêncio está
toda a música
dos gestos inúteis.
14 setembro 2009
Ganges
Esquecendo-se que lá fora um rio ardia, um novo dia nascia do calor de dois corpos adormecidos. A outra Índia onde eu queria chegar, a nação hindu que um dia descobri no teu ventre era a península onde moravam dois ombros debruçando-se das colinas sobre o rio. E não sei como escapar a esse naufrágio no antigo rio. E no fim de tudo, com um sol azul que desperta, desaparecer para sempre nessas águas que lembram dois olhos cinzentos.
Kaelstrom

A falésia crescia como um véu negro muito acima do nível do mar. E fazia lembrar, vistas da pequenez de quem as observasse, as antigas catedrais góticas, perfiladas, escurecidas pela imersão nos séculos. A ponto de, em baixo, o rebentar persistente das ondas ser só imagem, sem acústica consequência do perpétuo movimento violentando a rocha.
30 maio 2009
29 maio 2009
Caminho precário
Do alto das janelas mil parapeitos olhavam, mil ombros se debruçavam à procura do lugar preciso onde tantas e tantas lágrimas haviam de cair e perder a vida, mas esta seria apenas, segundo o que se pôde apurar, a realidade paralela, uma de entre muitas, senão vejamos, dado o mesmo número de parapeitos, o mesmo número de ombros, poderia ser que tais ombros, sobre tais parapeitos se tivessem, de igual jeito, debruçado, mas desta vez simplesmente para ver quem passava por lhe conhecerem os passos que ecoavam pela rua. O que por sua vez, asseguramos, não nos parece ser difícil, as pedras usadas para o pavimento, se é que assim o podemos designar, são as pedras que noutro tempo, um tempo mais longo do que este brevíssimo tempo em que vivemos, foram as da antiga muralha do castelo, e a sua utilização para este efeito não mais teve lugar, e felizmente, pois cedo se atentou no erro, que é crasso, e chegamos à conclusão de que as pedras são únicas e portanto inigualáveis. Também o são os passos que enchem os espaços de silêncio da rua, porque tardia é a hora, irrepetíveis nos rumores que criam ao passarem debaixo dos parapeitos que olham fixamente quem por eles passa.
Portanto, se uma destas realidades, paralelas que são e que por isso de maneira alguma se hão-de encontrar, ou cruzar, em qualquer ângulo que seja, são possíveis de contar e de escrever para que se leiam e se achem absurdas hipóteses, uma terceira é também possível, e com três realidades outros milhares e milhões, não custa imaginar, são do mesmo jeito, corolário daquilo que se não aconteceu, podia ter acontecido.
Que tudo é possível, simultaneamente, no grande caos cosmológico.
Portanto, se uma destas realidades, paralelas que são e que por isso de maneira alguma se hão-de encontrar, ou cruzar, em qualquer ângulo que seja, são possíveis de contar e de escrever para que se leiam e se achem absurdas hipóteses, uma terceira é também possível, e com três realidades outros milhares e milhões, não custa imaginar, são do mesmo jeito, corolário daquilo que se não aconteceu, podia ter acontecido.
Que tudo é possível, simultaneamente, no grande caos cosmológico.
24 abril 2009
VILA MORENA
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade
Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade.
José Afonso
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade
Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade
Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade.
José Afonso
Portugal e o futuro
Um Professor meu, com quem, em apenas dois meses, já aprendi muito, costuma dizer que "o passado já foi futuro". Claro. O passado, o nosso passado foi, algum dia, um futuro longínquo. Assim também o 25 de Abril, aquele, o primeiro, o decisivo. Esse é que foi um futuro impossível. Até deixar de o ser.
Para nós, hoje, o 25 de Abril de 1974 já é passado. Mas é um passado que não pode deixar de ser sempre futuro, aquele, o primeiro, o decisivo é para mim sempre futuro, sempre possível, sempre repetível, mas que dizer, eu sou um abrilista...
Viva o 25 de Abril!
Para nós, hoje, o 25 de Abril de 1974 já é passado. Mas é um passado que não pode deixar de ser sempre futuro, aquele, o primeiro, o decisivo é para mim sempre futuro, sempre possível, sempre repetível, mas que dizer, eu sou um abrilista...
Viva o 25 de Abril!
06 abril 2009
eu procurava,
eu frequentava a mesma luz,
as ruas que desciam
paralelas ao castelo.
e eu encontrava
no fundo de cada uma
a mesma janela de olhos verdes,
um pouco de sangue nos lábios,
a mesma janela
e dois olhos verdes.
e um dia chegava a hora,
o mesmo lugar no tempo,
o tempo em que nenhum espelho
nenhuma luz reflectia.
e apetecia
a claridade intensa
e solitária que procurava
no alto dos penedos
escurecidos.
eu frequentava a mesma luz,
as ruas que desciam
paralelas ao castelo.
e eu encontrava
no fundo de cada uma
a mesma janela de olhos verdes,
um pouco de sangue nos lábios,
a mesma janela
e dois olhos verdes.
e um dia chegava a hora,
o mesmo lugar no tempo,
o tempo em que nenhum espelho
nenhuma luz reflectia.
e apetecia
a claridade intensa
e solitária que procurava
no alto dos penedos
escurecidos.
28 março 2009
Hora do gelo
Não chegues à hora do gelo,
quando os rios interrompem
as mãos que trazem a água,
nenhuma outra luz chega
ao fundo dos rios
ao fundo dos olhos,
nenhuma outra escuridão me cega
as naus oceanos naves
de vencer as ondas
ainda não chegaram,
ainda não se gritou
fin the end fine
a anunciar a vitória
das margens de um rio
que se juntaram
abraçaram-se os salgueiros
juntaram-se as pedras
o leito secou
à hora do gelo
um rio acabou.
quando os rios interrompem
as mãos que trazem a água,
nenhuma outra luz chega
ao fundo dos rios
ao fundo dos olhos,
nenhuma outra escuridão me cega
as naus oceanos naves
de vencer as ondas
ainda não chegaram,
ainda não se gritou
fin the end fine
a anunciar a vitória
das margens de um rio
que se juntaram
abraçaram-se os salgueiros
juntaram-se as pedras
o leito secou
à hora do gelo
um rio acabou.
11 outubro 2008
Ausência
Indiferentes ao desejo
indiferentes ao frio
os ombros escolhem as mãos
duas mãos apenas
que não escureçam
as ruas onde estás não escurecem
apenas a noite
Os olhos abertos
o rumor
os rumores abertos
entre os passos
cobertos os espaços
de ti
Mas hoje não estás, hoje não és
assim, um corpo
margens brancas
planície sol aluvião
o mar é uma colina verde
o mar é todo o sangue
que não se perde
deixa ao menos um pouco de ti
no fundo dos meus braços
no fundo do mar
Deixa ao menos um pouco de sol
e o inverno que não acabe
nunca
Indiferentes ao desejo
as noites passam debaixo
da minha janela,
essa luz tão fria
a cegar-me os dedos
esses dois braços
que eu queria
e no fim deles duas mãos
que não escureçam
duas mãos e o arco que descrevem
como se a lua tão perto
Que ausência a tua
com quantas letras se escreve
a palavra longe, com quantos dedos
se contam três mil quilómetros,
tu
a meio dia do outro lado da terra
e os meus braços
que não chegam
dois braços
simulando os espaços
a meio caminho do desejo.
indiferentes ao frio
os ombros escolhem as mãos
duas mãos apenas
que não escureçam
as ruas onde estás não escurecem
apenas a noite
Os olhos abertos
o rumor
os rumores abertos
entre os passos
cobertos os espaços
de ti
Mas hoje não estás, hoje não és
assim, um corpo
margens brancas
planície sol aluvião
o mar é uma colina verde
o mar é todo o sangue
que não se perde
deixa ao menos um pouco de ti
no fundo dos meus braços
no fundo do mar
Deixa ao menos um pouco de sol
e o inverno que não acabe
nunca
Indiferentes ao desejo
as noites passam debaixo
da minha janela,
essa luz tão fria
a cegar-me os dedos
esses dois braços
que eu queria
e no fim deles duas mãos
que não escureçam
duas mãos e o arco que descrevem
como se a lua tão perto
Que ausência a tua
com quantas letras se escreve
a palavra longe, com quantos dedos
se contam três mil quilómetros,
tu
a meio dia do outro lado da terra
e os meus braços
que não chegam
dois braços
simulando os espaços
a meio caminho do desejo.
11 setembro 2008
Acabo de perder tudo. Os últimos cinco anos desta vida de vinte e dois apagados. Não tenho passado. Sem passado não há presente, e muito menos poderá haver futuro. As primeiras quadras com rima cruzada, os primeiros gritos que julgava serem ouvidos, as odes longuíssimas a percorrer as páginas cheias de exaltações, os sonetos mecânicos com a chave de ouro atirados com o fervor do sangue; os primeiros versos soltos, mais calmos, do fim da adolescência; a prosa pensada e construída convivendo com outra mais frenética, escrita por impulso. Não tenho passado. Não vejo agora como possa ter futuro. As pastas estão intactas, os ficheiros desapareceram - tudo o que escrevi em cinco anos desapareceu. Nem um cd, uma pen para aqui esquecidos guardam aquelas páginas. Um problema técnico que é um problema emocional e que me transcende - uma desilusão, uma tristeza profundas. Até me recompor para decidir o que vou fazer, ou até resolver isto, não volto cá. Não quero voltar a escrever. Até um dia.
Para mim
Celebra ao menos uma vez a tua folia. Porque a loucura é a forma mais alta da inteligência.
10 setembro 2008
Um dia
Um dia destes
um rio onde as margens
sejam as tuas mãos
um dia que seja
dourado de sol
no cume das árvores,
um dia
que nasce nesse lugar
por onde desabam os cabelos
entre os braços do Outono,
seguirá os trilhos do sul-poente
os flancos de um corpo
adormecido
onde não exista outro corpo
procura nessa luz
refractária
a pureza de seres tu.
um rio onde as margens
sejam as tuas mãos
um dia que seja
dourado de sol
no cume das árvores,
um dia
que nasce nesse lugar
por onde desabam os cabelos
entre os braços do Outono,
seguirá os trilhos do sul-poente
os flancos de um corpo
adormecido
onde não exista outro corpo
procura nessa luz
refractária
a pureza de seres tu.
Normandia Azul
Quando entras
e o teu cabelo
passa debaixo dessa porta
um vento frio
o mar do norte
desfazendo-se
em tempestade
o frio inteiro
nos teus ombros
doem-me as mãos
de te escalar,
normandia azul,
atira-me uma onda
a derradeira
vaga de arrastar
navios.
e o teu cabelo
passa debaixo dessa porta
um vento frio
o mar do norte
desfazendo-se
em tempestade
o frio inteiro
nos teus ombros
doem-me as mãos
de te escalar,
normandia azul,
atira-me uma onda
a derradeira
vaga de arrastar
navios.
03 setembro 2008
Rua
A pergunta foi atirada para o ar no meio do tremor da língua e da respiração, enquanto os olhos procuravam o cetim do vestido e um colo onde pousar,
Não posso falar, não posso dizer,
Estarem dois lábios adiados sem aparente razão, ficar um corpo a arder sem que se saiba porquê, e tu dirias, Esta a razão de as minhas mãos tão pequenas nas tuas tão grandes,
Desaparecerem, queres tu dizer
E a resposta também adiada, sem timbre nem côr, um silêncio de pasmar e de se ouvir a madeira a existir, uma secretária pesada de pau preto toda em gavetas, a porta diante dela sempre fechada, os tapetes no chão onde ficam os passos, destruíndo os passos que se dão, um à frente e atrás do outro sucessivamente, no fim de tudo o corredor debaixo dos pés com uma luz fria de inverno a entrar pelas janelas
Os passos - de quem eram?
A pergunta foi atirada para o ar no tremor da língua - entre os lábios adiados e vermelhos de neles o sangue, um peso no peito, o da respiração,
dois braços, eram dois braços de pau preto
Um vestido de cetim a um canto do mar diante da porta ou ainda debaixo dela, passando, e eras tu, uma onda de tecido a acabar com o silêncio
apenas o cetim
Os passos ficaram na luz fria do corredor com lajes de mármore pedra gelada para se morrer, à esquerda era a cozinha, toda forrada a livros e arquivos antigos, à direita, e antes dela, uma janela jorrava luz de dentro do prédio, caía num largo parapeito onde tantas vezes me sentava, longe do chão, a imaginar tudo
a Vara de Moisés a pesar no braço
Dois braços de pau preto diante da mesa metida a um canto diante da porta, esta metida a outro canto, e uma respiração à espera, adiada, a perguntar
Os passos - de quem eram?
O perfume escondido no marfim do pescoço onde uma vez beijos e a mesma respiração, agora só leveza e frescura, e eu a colher árvores e jardins inteiros para plantar à tua porta, uma rua inteira à espera que amanheças, nove e meia da manhã e eu sem dormir, um fantasma com as pálpebras mortas pela calçada sem rasto de sangue que as siga, Diana, adia-me esta rua para um dia de inverno, um dia em que eu possa entrar pela tua janela e tu estejas a verter o mar inteiro
(os olhos verdes como a erva mais alta de Maio)
pelos teus olhos.
Não posso falar, não posso dizer,
Estarem dois lábios adiados sem aparente razão, ficar um corpo a arder sem que se saiba porquê, e tu dirias, Esta a razão de as minhas mãos tão pequenas nas tuas tão grandes,
Desaparecerem, queres tu dizer
E a resposta também adiada, sem timbre nem côr, um silêncio de pasmar e de se ouvir a madeira a existir, uma secretária pesada de pau preto toda em gavetas, a porta diante dela sempre fechada, os tapetes no chão onde ficam os passos, destruíndo os passos que se dão, um à frente e atrás do outro sucessivamente, no fim de tudo o corredor debaixo dos pés com uma luz fria de inverno a entrar pelas janelas
Os passos - de quem eram?
A pergunta foi atirada para o ar no tremor da língua - entre os lábios adiados e vermelhos de neles o sangue, um peso no peito, o da respiração,
dois braços, eram dois braços de pau preto
Um vestido de cetim a um canto do mar diante da porta ou ainda debaixo dela, passando, e eras tu, uma onda de tecido a acabar com o silêncio
apenas o cetim
Os passos ficaram na luz fria do corredor com lajes de mármore pedra gelada para se morrer, à esquerda era a cozinha, toda forrada a livros e arquivos antigos, à direita, e antes dela, uma janela jorrava luz de dentro do prédio, caía num largo parapeito onde tantas vezes me sentava, longe do chão, a imaginar tudo
a Vara de Moisés a pesar no braço
Dois braços de pau preto diante da mesa metida a um canto diante da porta, esta metida a outro canto, e uma respiração à espera, adiada, a perguntar
Os passos - de quem eram?
O perfume escondido no marfim do pescoço onde uma vez beijos e a mesma respiração, agora só leveza e frescura, e eu a colher árvores e jardins inteiros para plantar à tua porta, uma rua inteira à espera que amanheças, nove e meia da manhã e eu sem dormir, um fantasma com as pálpebras mortas pela calçada sem rasto de sangue que as siga, Diana, adia-me esta rua para um dia de inverno, um dia em que eu possa entrar pela tua janela e tu estejas a verter o mar inteiro
(os olhos verdes como a erva mais alta de Maio)
pelos teus olhos.
26 julho 2008
Europa
Quando Europa fores,
mulher,
e os teus cabelos longos
se doirarem,
dois líquidos olhos gregos,
lembrando,
e fores o vento nas costas
de um toiro,
e fores as montanhas azuis nas costas
de um toiro,
a tua bandeira uma
túnica branca
apenas.
O branco da luz apenas.
mulher,
e os teus cabelos longos
se doirarem,
dois líquidos olhos gregos,
lembrando,
e fores o vento nas costas
de um toiro,
e fores as montanhas azuis nas costas
de um toiro,
a tua bandeira uma
túnica branca
apenas.
O branco da luz apenas.
14 julho 2008
Beatles - And Your Bird Can Sing
You tell me that you've got everything you want
And your bird can sing
But you don't get me, you don't get me
You say you've seen seven wonders and your bird is green
But you can't see me, you can't see me
When your prized possessions start to wear you down
Look in my direction, I'll be round, I'll be round
When your bird is broken will it bring you down
You may be awoken, I'll be round, I'll be round
You tell me that you've heard every sound there is
And your bird can swim
But you can't hear me, you can't hear me
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