29 maio 2009

Caminho precário

Do alto das janelas mil parapeitos olhavam, mil ombros se debruçavam à procura do lugar preciso onde tantas e tantas lágrimas haviam de cair e perder a vida, mas esta seria apenas, segundo o que se pôde apurar, a realidade paralela, uma de entre muitas, senão vejamos, dado o mesmo número de parapeitos, o mesmo número de ombros, poderia ser que tais ombros, sobre tais parapeitos se tivessem, de igual jeito, debruçado, mas desta vez simplesmente para ver quem passava por lhe conhecerem os passos que ecoavam pela rua. O que por sua vez, asseguramos, não nos parece ser difícil, as pedras usadas para o pavimento, se é que assim o podemos designar, são as pedras que noutro tempo, um tempo mais longo do que este brevíssimo tempo em que vivemos, foram as da antiga muralha do castelo, e a sua utilização para este efeito não mais teve lugar, e felizmente, pois cedo se atentou no erro, que é crasso, e chegamos à conclusão de que as pedras são únicas e portanto inigualáveis. Também o são os passos que enchem os espaços de silêncio da rua, porque tardia é a hora, irrepetíveis nos rumores que criam ao passarem debaixo dos parapeitos que olham fixamente quem por eles passa.

Portanto, se uma destas realidades, paralelas que são e que por isso de maneira alguma se hão-de encontrar, ou cruzar, em qualquer ângulo que seja, são possíveis de contar e de escrever para que se leiam e se achem absurdas hipóteses, uma terceira é também possível, e com três realidades outros milhares e milhões, não custa imaginar, são do mesmo jeito, corolário daquilo que se não aconteceu, podia ter acontecido.

Que tudo é possível, simultaneamente, no grande caos cosmológico.

24 abril 2009

VILA MORENA

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade

Grândola a tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade.

José Afonso

Portugal e o futuro

Um Professor meu, com quem, em apenas dois meses, já aprendi muito, costuma dizer que "o passado já foi futuro". Claro. O passado, o nosso passado foi, algum dia, um futuro longínquo. Assim também o 25 de Abril, aquele, o primeiro, o decisivo. Esse é que foi um futuro impossível. Até deixar de o ser.

Para nós, hoje, o 25 de Abril de 1974 já é passado. Mas é um passado que não pode deixar de ser sempre futuro, aquele, o primeiro, o decisivo é para mim sempre futuro, sempre possível, sempre repetível, mas que dizer, eu sou um abrilista...

Viva o 25 de Abril!

06 abril 2009

eu procurava,
eu frequentava a mesma luz,
as ruas que desciam
paralelas ao castelo.

e eu encontrava
no fundo de cada uma
a mesma janela de olhos verdes,
um pouco de sangue nos lábios,
a mesma janela
e dois olhos verdes.

e um dia chegava a hora,
o mesmo lugar no tempo,
o tempo em que nenhum espelho
nenhuma luz reflectia.

e apetecia
a claridade intensa
e solitária que procurava
no alto dos penedos
escurecidos.

28 março 2009

Hora do gelo

Não chegues à hora do gelo,
quando os rios interrompem
as mãos que trazem a água,

nenhuma outra luz chega
ao fundo dos rios
ao fundo dos olhos,
nenhuma outra escuridão me cega

as naus oceanos naves
de vencer as ondas
ainda não chegaram,
ainda não se gritou
fin the end fine
a anunciar a vitória
das margens de um rio
que se juntaram
abraçaram-se os salgueiros
juntaram-se as pedras

o leito secou
à hora do gelo
um rio acabou.

11 outubro 2008

Ausência

Indiferentes ao desejo
indiferentes ao frio
os ombros escolhem as mãos
duas mãos apenas
que não escureçam
as ruas onde estás não escurecem
apenas a noite
Os olhos abertos
o rumor
os rumores abertos
entre os passos
cobertos os espaços
de ti
Mas hoje não estás, hoje não és
assim, um corpo
margens brancas
planície sol aluvião
o mar é uma colina verde
o mar é todo o sangue
que não se perde
deixa ao menos um pouco de ti
no fundo dos meus braços
no fundo do mar

Deixa ao menos um pouco de sol
e o inverno que não acabe
nunca
Indiferentes ao desejo
as noites passam debaixo
da minha janela,
essa luz tão fria
a cegar-me os dedos
esses dois braços
que eu queria
e no fim deles duas mãos
que não escureçam
duas mãos e o arco que descrevem
como se a lua tão perto

Que ausência a tua
com quantas letras se escreve
a palavra longe, com quantos dedos
se contam três mil quilómetros,
tu
a meio dia do outro lado da terra
e os meus braços
que não chegam
dois braços
simulando os espaços
a meio caminho do desejo.

11 setembro 2008

Acabo de perder tudo. Os últimos cinco anos desta vida de vinte e dois apagados. Não tenho passado. Sem passado não há presente, e muito menos poderá haver futuro. As primeiras quadras com rima cruzada, os primeiros gritos que julgava serem ouvidos, as odes longuíssimas a percorrer as páginas cheias de exaltações, os sonetos mecânicos com a chave de ouro atirados com o fervor do sangue; os primeiros versos soltos, mais calmos, do fim da adolescência; a prosa pensada e construída convivendo com outra mais frenética, escrita por impulso. Não tenho passado. Não vejo agora como possa ter futuro. As pastas estão intactas, os ficheiros desapareceram - tudo o que escrevi em cinco anos desapareceu. Nem um cd, uma pen para aqui esquecidos guardam aquelas páginas. Um problema técnico que é um problema emocional e que me transcende - uma desilusão, uma tristeza profundas. Até me recompor para decidir o que vou fazer, ou até resolver isto, não volto cá. Não quero voltar a escrever. Até um dia.

Para mim

Celebra ao menos uma vez a tua folia. Porque a loucura é a forma mais alta da inteligência.

10 setembro 2008

Um dia

Um dia destes
um rio onde as margens
sejam as tuas mãos
um dia que seja
dourado de sol
no cume das árvores,
um dia
que nasce nesse lugar
por onde desabam os cabelos
entre os braços do Outono,
seguirá os trilhos do sul-poente
os flancos de um corpo
adormecido
onde não exista outro corpo

procura nessa luz
refractária
a pureza de seres tu.

Normandia Azul

Quando entras
e o teu cabelo
passa debaixo dessa porta
um vento frio
o mar do norte
desfazendo-se
em tempestade
o frio inteiro
nos teus ombros

doem-me as mãos
de te escalar,
normandia azul,

atira-me uma onda
a derradeira
vaga de arrastar
navios.

03 setembro 2008

Rua

A pergunta foi atirada para o ar no meio do tremor da língua e da respiração, enquanto os olhos procuravam o cetim do vestido e um colo onde pousar,

Não posso falar, não posso dizer,

Estarem dois lábios adiados sem aparente razão, ficar um corpo a arder sem que se saiba porquê, e tu dirias, Esta a razão de as minhas mãos tão pequenas nas tuas tão grandes,

Desaparecerem, queres tu dizer

E a resposta também adiada, sem timbre nem côr, um silêncio de pasmar e de se ouvir a madeira a existir, uma secretária pesada de pau preto toda em gavetas, a porta diante dela sempre fechada, os tapetes no chão onde ficam os passos, destruíndo os passos que se dão, um à frente e atrás do outro sucessivamente, no fim de tudo o corredor debaixo dos pés com uma luz fria de inverno a entrar pelas janelas

Os passos - de quem eram?

A pergunta foi atirada para o ar no tremor da língua - entre os lábios adiados e vermelhos de neles o sangue, um peso no peito, o da respiração,

dois braços, eram dois braços de pau preto

Um vestido de cetim a um canto do mar diante da porta ou ainda debaixo dela, passando, e eras tu, uma onda de tecido a acabar com o silêncio

apenas o cetim

Os passos ficaram na luz fria do corredor com lajes de mármore pedra gelada para se morrer, à esquerda era a cozinha, toda forrada a livros e arquivos antigos, à direita, e antes dela, uma janela jorrava luz de dentro do prédio, caía num largo parapeito onde tantas vezes me sentava, longe do chão, a imaginar tudo

a Vara de Moisés a pesar no braço

Dois braços de pau preto diante da mesa metida a um canto diante da porta, esta metida a outro canto, e uma respiração à espera, adiada, a perguntar

Os passos - de quem eram?

O perfume escondido no marfim do pescoço onde uma vez beijos e a mesma respiração, agora só leveza e frescura, e eu a colher árvores e jardins inteiros para plantar à tua porta, uma rua inteira à espera que amanheças, nove e meia da manhã e eu sem dormir, um fantasma com as pálpebras mortas pela calçada sem rasto de sangue que as siga, Diana, adia-me esta rua para um dia de inverno, um dia em que eu possa entrar pela tua janela e tu estejas a verter o mar inteiro

(os olhos verdes como a erva mais alta de Maio)

pelos teus olhos.

26 julho 2008

De Rhode Island
à Nova Escócia;
de Brian Ferry
a David Byrne
os olhos no Pequeno Estado,
um ramo escuro
na copa de uma árvore
outro ramo escuro
e o outono na copa
das árvores.
Um alpendre antigo
e um carvalho
no ponto de fuga.
Os passos esquecidos
no vermelho da folhagem morta,
dois ombros que se não esquecem.

Europa

Quando Europa fores,
mulher,
e os teus cabelos longos
se doirarem,
dois líquidos olhos gregos,
lembrando,
e fores o vento nas costas
de um toiro,
e fores as montanhas azuis nas costas
de um toiro,
a tua bandeira uma
túnica branca
apenas.
O branco da luz apenas.

14 julho 2008

Beatles - And Your Bird Can Sing



You tell me that you've got everything you want
And your bird can sing
But you don't get me, you don't get me

You say you've seen seven wonders and your bird is green
But you can't see me, you can't see me

When your prized possessions start to wear you down
Look in my direction, I'll be round, I'll be round

When your bird is broken will it bring you down
You may be awoken, I'll be round, I'll be round

You tell me that you've heard every sound there is
And your bird can swim
But you can't hear me, you can't hear me

03 julho 2008

Planta

Era um corredor de uma luz clara mas baça, indirecta, dessas em que as sombras permanecem indistintas e vacilantes, mal desenhadas nas cores com que se pintam as paredes. Do lado direito, duas janelas recebiam o sol - que àquela hora ainda insistia em atingir todos os segundos andares e últimos pisos dos prédios de uma rua que apenas no alto Verão podia conservar algum calor entre as habitações.

O corredor era estreito, um pouco esconço, cumpria todavia bem a sua função, que era a de dar comunicação, acesso ou serventia, isto é, estabelecer ligação entre as divisões mais esquecidas da casa, bem escondidas, embora acidentalmente, e um pequeno átrio onde ficavam - talvez sempre tenham ali existido - umas escadas de madeira já muito velhas, já muito gastas por quem quer que as tenha subido, talvez nem mesmo aqueles degraus saibam quem neles pôs os pés, talvez sempre tenham ali existido, pois definitivamente nos parecem ser anteriores à construção daquele edifício.

Na verdade, sempre tinha sido pouco difícil a quantos ali viveram ao longo dos anos, e não foram poucas as famílias, reparar que na sucessiva construção se tinham aproveitado as paredes graníticas e antigas, velha forma de erguer paredes onde instalar uma esteira e uma pia, depois uma cama e uma mesa de cabeceira, depois ainda talvez uma cómoda, e se tiver sido caso disso, quando a economia assim o permitia, um tapete que escuse um ou dois pares de pés do choque térmico do chão, que de noite, no inverno, bem custa tirá-los da cama se o aperto da bexiga obriga a uma ida nocturna ao quarto de banho e uma volta para o aconchego dos lençóis, e dizíamos, sempre se tinham aproveitado as austeras pedras já sobrepostas há pelo menos seis gerações, e portanto naquela luz fria, indirecta e baça onde principiava o átrio no qual tinham sido postas as escadas, em degraus, como sempre são postas, distinguia-se o negro do granito do branco com que sempre se pintam, modernamente, as paredes das casas. E não havendo outro, este concretamente seria um sinal de que no lugar destas se erguiam velhas paredes escuras de pedra escurecida, em concordância com aquelas que ao fundo do corredor dão para umas escadas de madeira, umas escadas já muito velhas, já muito gastas, um ou outro degrau mal calculado, que para o efeito servem muito bem, e já o sabemos, que é o de suportar o peso dos pés daqueles que escolhem subi-los e entrar num sótão quente, escuro, como o são todos, húmido e muito esconço, mais ainda, muito mais do que o corredor que a ele dá acesso, comunicação ou serventia.

19 maio 2008

Chanson triste

Pela terra eu um corpo, tu um corpo,
duas naus se quiseres,
eu chamo-lhes corpos, carne músculo sangue seiva
com pele a cobrir
e entre nós apenas silêncio serras escuras verdes
com giestas e penedos
que mais se pode querer entre dois corpos
duas naus
um novelo de respiração
em que os pulmões e as bocas
próximos próximas tanto quanto
num quarto esteiras lençóis
seja possível acontecer
tanto quanto destruir amando desta maneira
seja possível acontecer
e tu a murmurar-me beijos facas lanças
para ir colher o verde do cimo dos penedos
este silêncio é nosso
este silêncio é uma flor de caule triste.

29 abril 2008

nocturno

Descobre-te, eu não quero ser o fundo dos teus olhos,
destapa-te, tens que chegar-te para onde a frescura
nocturna está deitada nos lençóis,
afasta-te, não de mim, do meu sono,
aperta-me contra o teu peito, acorda-me de noite
com beijos e ternura, foi o que sempre quis,
apenas o carinho que nunca tive, a atenção que realmente
mereço, poderá talvez ser nenhuma, mas será toda
aquela que me puderes dar. Tu chegas sempre primeiro
depois do sol, eu chego sempre tarde às horas de luz,
e nunca nos encontramos pelas seis da tarde num dia
de verão.

26 abril 2008

Não (me) importa(r)

Importa a amizade de quem se lembrou de me deixar uma herança...

1 Eu não me importo de olhar fundo nos olhos de quem gosto.

2 Eu não me importo que me enganem porque não o conseguem.

3 Eu não me importo de não falar, de não dizer, de nos enterrar em silêncio.

4 Eu não me importo de dar sem ter nada em troca - sempre o fiz.

5 Eu não me importo de escrever aqui, porque ninguém me conhece.

6 Eu não me importo de existir, porque isto tem muita piada.

De maneira que tem toda a importância dizer "não me importo". Usa-se a negativa para afirmar a importância do que quer que seja. O mesmo é dizer que o não exercício de um direito é já uma forma de o exercer, pelo que não se extingue. Através do "não me importo" como que perpetuamos as coisas...

Regras
- dizer seis coisas que não se importe de ter ou fazer.
- colocar o link da pessoa que o "mimou".
- colocar as regras no blogue.
- desafiar seis pessoas colocando um comentário nos seus blogues.

Desafio:
Morada Terra

O Melhor Amigo

25 abril 2008

Mar



Pelo Arrastão

Porque vale a pena...



José Mário Branco - Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Mas se todo o mundo é composto de mudança
troquemos-lhe as voltas
qu'inda o dia é uma criança.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

Mas se todo o mundo é composto de mudança
troquemos-lhe as voltas
qu'inda o dia é uma criança.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

Mas se todo o mundo é composto de mudança
troquemos-lhe as voltas
qu'inda o dia é uma criança.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Mas se todo o mundo é composto de mudança
troquemos-lhe as voltas
qu'inda o dia é uma criança.

Para que nunca mais...

Para os abrilistas... 25 de abril sempre...


fascismo nunca mais!

17 abril 2008

5-3

Às vezes desejo fortemente, em jeito de penitência, não ligar nada à bola. É um fardo, custa, dói... nem o gosto e a paixão pelo jogo valem hoje... eu queria mesmo era ganhar.

Retomamos a nossa emissão dentro de momentos.

Resíduos do corpo

De ti ficam as aves,
o rumor
de arderem altas;

ficam as águas,
à tona
a clara sombra
onde pousaram lábios;

fica o outono,
desatado beijo a beijo
sobre a palha;

ficam as nuvens,
a sede ainda
de um ramo de coral.

Eugénio de Andrade, em "Obscuro Domínio"

12 abril 2008

Até amanhã

Disse ele, Até amanhã, e tamanhas palavras, assim ditas, tiveram o efeito de um grande terramoto, nos instantes seguintes dir-se-ia que as pedras escuras do castelo desabavam inteiras e todo aquele lugar era arrastado para um outro onde as paredes ruíram e jazem inertes ao nível do chão num monte de cimento picado, mas esta casa não desabou, o telhado continua direito, no mesmo ângulo em que foi construído para escoar as águas e proteger dos raios homicidas do sol forte de Julho, os alicerces não foram perturbados, muito ou pouco fundos lá permanecem, se sequer existem, as raquíticas paredes vagamente brancas, escurecidas pela humidade aí estão para quem as quiser ver, por fora com menos saúde, por dentro melhores, É fazer o favor quem quiser entrar, nós o que fazemos é muito simples, subimos as escadas muito depressa, ele à frente, puxando-me pela mão, eu atrás subindo um pouco a saia, antecipando talvez o que o desejo dificilmente deixa esconder, ou ajudando as pernas a depressa completarem os esforço dos degraus, saltamos o patamar, que todo o tempo é precioso, tropeçamos um no outro, a descoordenação é total, as pernas quase se cruzam, mas no fundo não importa porque mais tarde estaremos tão perto um do outro que a distância mínima que está entre nós agora parecerá um enorme rio que separa duas margens, o patamar ficou para trás, pequeno e sombrio, faltam poucas escadas, a porta já a vemos, as chaves estão nos bolsos, em qualquer deles podem estar, são poucos, são muitos, não sabemos, são agora apenas bolsos que guardam as chaves que são absolutamente necessárias para abrir a porta, não nos passaria pela cabeça, apesar de a respiração ir tomando conta dos pulmões, deitar abaixo a estúpida da porta que nas ombreiras se apoia para não nos deixar passar, e no entanto tudo é possível agora, somos capazes de destruir paredes como se os beijos que entretanto imaginámos fossem marretas e picaretas, felizmente a porta abriu-se facilmente, resta o corredor estreito onde a luz da tarde vem descansar os cabelos, aqui não pode ser, para o que queremos temos o quarto, uma cama com quatro pés e um colchão e lençóis e duas almofadas, será já demasiado para que dois amantes se amem e se destruam com língua e beijos, finalmente chegamos ao quarto, se não nos perdemos pelo caminho, nós e quem nos ouvir contar como fazemos amor, lá está a cama e os lençóis e debaixo deles o colchão, se é confortável não queremos saber, eu estou já despida da cintura para cima, a memória da roupa que trazia não existe, a blusa branca ou azul, uma delas ficou lá atrás. Atiramo-nos para a cama que se queixa da violência do embate, um pouco mais de força e tínhamo-la quebrada em duas metades, Ele despe-se lentamente diante de mim, Ela deita-se na cama, apoiada nos cotovelos, atira a cabeça e o cabelo para trás, a claridade deixa-lhe metade da cara num resto de sombra, está despida da cintura para cima, a blusa branca que trazia com botões forrados a renda rendeu-se nas minhas mãos, mais nada foi preciso pedir que saísse do meu caminho, o peito está nu, a descoberto, consciente da minha sede, Ele agora despe o resto da roupa, está nu à minha frente, avança para a cama, a minha saia castanha faz uma vénia e lentamente deixa adivinhar a pele das coxas, toda a tarde é desejo, frutos e sol, depois os olhos recebem a escuridão, fechados como um túmulo de pedra esculpida, nasce o grito do fundo da boca.

Deixam-se as palavras à porta do desejo, as paredes brancas bebem a luz e as palavras, o sol e o verbo, recuamos pelo mesmo caminho, da porta do quarto pelo corredor até à porta da casa, aquela que nas ombreiras se apoiava para não nos deixar passar, pelas escadas rapidamente até aos últimos degraus para a rua e o ar que de novo se respira, afinal não houve por aqui terramoto algum, apenas a mais pequena brisa sopra no estreito flanco da rua que dorme ao relento sob as luzes amarelas dos candeeiros, dentro de uma janela ouvem-se duas palavras, ou melhor, ouve-se um silêncio insuportável, depois duas palavras, mais um pouco de silêncio e por fim um pranto mudo, pacífico, dormente, daqueles em que as lágrimas correm para dentro em vez de para fora seguindo os trilhos da pele.

Ficaram os passos no frio das pedras quando saiu e deixou a porta bater depois de os ombros passarem debaixo dela, seguiu-lhe as costas o ar que à frente teve de se movimentar para que todo o corpo ocupasse o espaço vazio depois da porta, desceu as escadas como se nunca ali tivesse estado, como se os pés não pisassem todos os vinte e três degraus mais os dois pequenos que davam para as outras pedras, as da rua. Saiu. Os olhos não puderam suportar a luz, a claridade, terá talvez sido um castigo, também as palavras castigam quem as diz, não apenas quem as ouve e em cheio no estômago leva com um soco de uma mão invisível e forte. Olham-no de cima, austeras, as janelas que ao sol pedem um pouco mais de calor e de luz, a tarde afinal sempre tem algumas nuvens, aqui e ali pontuam o céu, do lado escuro da rua toda a parede escurece com o fim da tarde

Às vezes apetece dizer

07 abril 2008

mudar de olhos

Era eu, eu ou uma sombra escura, Que escuro estava, apenas algumas luzes na noite iluminavam o passeio no centro da avenida, era eu debaixo das árvores, dos ramos, das braças das árvores, tu pintada de braços verdes, era eu debaixo dos primeiros ramos a meter medo com o tamanho que tinham, eu caminhava sozinho, é assim que gosto de caminhar, outros passos ao meu lado distraem-me, preciso de me ouvir bem fundo no silêncio, já o disse algures, já o escrevi no passado, o que está escrito, escrito está, daquela vez não menti, em outras alturas terei mentido, sim, é verdade, não, desta vez não minto, preciso de ter apenas os meus passos, um atrás e outra à frente, sucessivamente pela calçada já gasta, já rasgada pelas raízes das árvores, para lhes crescerem os ramos desta maneira têm de se agarrar firmemente ao chão, é preciso buscar fundo na terra água para beber, um dia secámos por não fazermos o mesmo, não tivemos braços e raízes para ir buscar a água ao fundo dos penedos, junto ao rio, na excitação de um beijo, quisemos demasiado e tivemos tão pouco. Doce, calma como o alto escuro de uma serra plantada no céu, a tarde escurece finalmente com a luz clara e metálica que é da primavera,

e eras tu, um corpo de braços abertos, um corpo, dois braços e um mar de cabelo só espuma e ondas, as árvores vão beber o sol à cor escura dos penedos, e eu perco-me no céu que é das andorinhas, outro dia chegaram e eu fui vê-las à janela, estava sentado no chão, descalço e elas chagaram, sabes, foi como se eu tivesse assistido ao último bater de asas no limite da exaustão antes de poisarem no calor dos telhados, foi de repente como uma chuva de verão, num instante curtíssimo começou a primavera e eu de olhos postos em ti, tu um corpo de braços abertos, mais um mar de cabelo que é só espuma e ondas, por vezes quando me decido a mergulhar nele tropeço nalguma pedra esverdeada de algas, tenho de agarrar o pé e enterrá-lo fundo na areia para que a dor se esqueça de mim, não para que eu me esqueça da dor. Outro dia chegaram e eu fui vê-las à primeira janela, aquela que abro sempre, depois abri a janela que está ao lado mas que nunca abro, desta vejo uma metade de céu azul, metade vermelho-telhado envelhecido com um pináculo inútil, tão inútil quanto as pombas que por vezes lá se encostam. Saí de casa encostado à primeira luz do dia, a primeira luz que indistintamente abre o céu para a manhã que começa, o calor descia já por uma brisa contínua mas suave, sabes, mal sabia eu que ias existir, quinta feira oito da manhã e eu sem suspeitar, sem me preocupar com a tua respiração, sabes,

também eu quero dar outra inclinação a esta rua, se for preciso fazê-la descer até ao Mondego, ir com as aves em direcção aos arrozais, a esta altura devem ter a força do verde cristalino das águas a lembrar dois olhos, dois olhos apenas são precisos para levar-me onde quer que seja, também eu quero ter um braço que te possa ir buscar ao verde dos teus olhos e poisar exausto em ti, um corpo de braços abertos, poisar feliz no teu ombro, no verde cristalino da água nos arrozais.