25 abril 2008

Porque vale a pena...



José Mário Branco - Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Mas se todo o mundo é composto de mudança
troquemos-lhe as voltas
qu'inda o dia é uma criança.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

Mas se todo o mundo é composto de mudança
troquemos-lhe as voltas
qu'inda o dia é uma criança.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

Mas se todo o mundo é composto de mudança
troquemos-lhe as voltas
qu'inda o dia é uma criança.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Mas se todo o mundo é composto de mudança
troquemos-lhe as voltas
qu'inda o dia é uma criança.

Para que nunca mais...

Para os abrilistas... 25 de abril sempre...


fascismo nunca mais!

17 abril 2008

5-3

Às vezes desejo fortemente, em jeito de penitência, não ligar nada à bola. É um fardo, custa, dói... nem o gosto e a paixão pelo jogo valem hoje... eu queria mesmo era ganhar.

Retomamos a nossa emissão dentro de momentos.

Resíduos do corpo

De ti ficam as aves,
o rumor
de arderem altas;

ficam as águas,
à tona
a clara sombra
onde pousaram lábios;

fica o outono,
desatado beijo a beijo
sobre a palha;

ficam as nuvens,
a sede ainda
de um ramo de coral.

Eugénio de Andrade, em "Obscuro Domínio"

12 abril 2008

Até amanhã

Disse ele, Até amanhã, e tamanhas palavras, assim ditas, tiveram o efeito de um grande terramoto, nos instantes seguintes dir-se-ia que as pedras escuras do castelo desabavam inteiras e todo aquele lugar era arrastado para um outro onde as paredes ruíram e jazem inertes ao nível do chão num monte de cimento picado, mas esta casa não desabou, o telhado continua direito, no mesmo ângulo em que foi construído para escoar as águas e proteger dos raios homicidas do sol forte de Julho, os alicerces não foram perturbados, muito ou pouco fundos lá permanecem, se sequer existem, as raquíticas paredes vagamente brancas, escurecidas pela humidade aí estão para quem as quiser ver, por fora com menos saúde, por dentro melhores, É fazer o favor quem quiser entrar, nós o que fazemos é muito simples, subimos as escadas muito depressa, ele à frente, puxando-me pela mão, eu atrás subindo um pouco a saia, antecipando talvez o que o desejo dificilmente deixa esconder, ou ajudando as pernas a depressa completarem os esforço dos degraus, saltamos o patamar, que todo o tempo é precioso, tropeçamos um no outro, a descoordenação é total, as pernas quase se cruzam, mas no fundo não importa porque mais tarde estaremos tão perto um do outro que a distância mínima que está entre nós agora parecerá um enorme rio que separa duas margens, o patamar ficou para trás, pequeno e sombrio, faltam poucas escadas, a porta já a vemos, as chaves estão nos bolsos, em qualquer deles podem estar, são poucos, são muitos, não sabemos, são agora apenas bolsos que guardam as chaves que são absolutamente necessárias para abrir a porta, não nos passaria pela cabeça, apesar de a respiração ir tomando conta dos pulmões, deitar abaixo a estúpida da porta que nas ombreiras se apoia para não nos deixar passar, e no entanto tudo é possível agora, somos capazes de destruir paredes como se os beijos que entretanto imaginámos fossem marretas e picaretas, felizmente a porta abriu-se facilmente, resta o corredor estreito onde a luz da tarde vem descansar os cabelos, aqui não pode ser, para o que queremos temos o quarto, uma cama com quatro pés e um colchão e lençóis e duas almofadas, será já demasiado para que dois amantes se amem e se destruam com língua e beijos, finalmente chegamos ao quarto, se não nos perdemos pelo caminho, nós e quem nos ouvir contar como fazemos amor, lá está a cama e os lençóis e debaixo deles o colchão, se é confortável não queremos saber, eu estou já despida da cintura para cima, a memória da roupa que trazia não existe, a blusa branca ou azul, uma delas ficou lá atrás. Atiramo-nos para a cama que se queixa da violência do embate, um pouco mais de força e tínhamo-la quebrada em duas metades, Ele despe-se lentamente diante de mim, Ela deita-se na cama, apoiada nos cotovelos, atira a cabeça e o cabelo para trás, a claridade deixa-lhe metade da cara num resto de sombra, está despida da cintura para cima, a blusa branca que trazia com botões forrados a renda rendeu-se nas minhas mãos, mais nada foi preciso pedir que saísse do meu caminho, o peito está nu, a descoberto, consciente da minha sede, Ele agora despe o resto da roupa, está nu à minha frente, avança para a cama, a minha saia castanha faz uma vénia e lentamente deixa adivinhar a pele das coxas, toda a tarde é desejo, frutos e sol, depois os olhos recebem a escuridão, fechados como um túmulo de pedra esculpida, nasce o grito do fundo da boca.

Deixam-se as palavras à porta do desejo, as paredes brancas bebem a luz e as palavras, o sol e o verbo, recuamos pelo mesmo caminho, da porta do quarto pelo corredor até à porta da casa, aquela que nas ombreiras se apoiava para não nos deixar passar, pelas escadas rapidamente até aos últimos degraus para a rua e o ar que de novo se respira, afinal não houve por aqui terramoto algum, apenas a mais pequena brisa sopra no estreito flanco da rua que dorme ao relento sob as luzes amarelas dos candeeiros, dentro de uma janela ouvem-se duas palavras, ou melhor, ouve-se um silêncio insuportável, depois duas palavras, mais um pouco de silêncio e por fim um pranto mudo, pacífico, dormente, daqueles em que as lágrimas correm para dentro em vez de para fora seguindo os trilhos da pele.

Ficaram os passos no frio das pedras quando saiu e deixou a porta bater depois de os ombros passarem debaixo dela, seguiu-lhe as costas o ar que à frente teve de se movimentar para que todo o corpo ocupasse o espaço vazio depois da porta, desceu as escadas como se nunca ali tivesse estado, como se os pés não pisassem todos os vinte e três degraus mais os dois pequenos que davam para as outras pedras, as da rua. Saiu. Os olhos não puderam suportar a luz, a claridade, terá talvez sido um castigo, também as palavras castigam quem as diz, não apenas quem as ouve e em cheio no estômago leva com um soco de uma mão invisível e forte. Olham-no de cima, austeras, as janelas que ao sol pedem um pouco mais de calor e de luz, a tarde afinal sempre tem algumas nuvens, aqui e ali pontuam o céu, do lado escuro da rua toda a parede escurece com o fim da tarde

Às vezes apetece dizer

07 abril 2008

mudar de olhos

Era eu, eu ou uma sombra escura, Que escuro estava, apenas algumas luzes na noite iluminavam o passeio no centro da avenida, era eu debaixo das árvores, dos ramos, das braças das árvores, tu pintada de braços verdes, era eu debaixo dos primeiros ramos a meter medo com o tamanho que tinham, eu caminhava sozinho, é assim que gosto de caminhar, outros passos ao meu lado distraem-me, preciso de me ouvir bem fundo no silêncio, já o disse algures, já o escrevi no passado, o que está escrito, escrito está, daquela vez não menti, em outras alturas terei mentido, sim, é verdade, não, desta vez não minto, preciso de ter apenas os meus passos, um atrás e outra à frente, sucessivamente pela calçada já gasta, já rasgada pelas raízes das árvores, para lhes crescerem os ramos desta maneira têm de se agarrar firmemente ao chão, é preciso buscar fundo na terra água para beber, um dia secámos por não fazermos o mesmo, não tivemos braços e raízes para ir buscar a água ao fundo dos penedos, junto ao rio, na excitação de um beijo, quisemos demasiado e tivemos tão pouco. Doce, calma como o alto escuro de uma serra plantada no céu, a tarde escurece finalmente com a luz clara e metálica que é da primavera,

e eras tu, um corpo de braços abertos, um corpo, dois braços e um mar de cabelo só espuma e ondas, as árvores vão beber o sol à cor escura dos penedos, e eu perco-me no céu que é das andorinhas, outro dia chegaram e eu fui vê-las à janela, estava sentado no chão, descalço e elas chagaram, sabes, foi como se eu tivesse assistido ao último bater de asas no limite da exaustão antes de poisarem no calor dos telhados, foi de repente como uma chuva de verão, num instante curtíssimo começou a primavera e eu de olhos postos em ti, tu um corpo de braços abertos, mais um mar de cabelo que é só espuma e ondas, por vezes quando me decido a mergulhar nele tropeço nalguma pedra esverdeada de algas, tenho de agarrar o pé e enterrá-lo fundo na areia para que a dor se esqueça de mim, não para que eu me esqueça da dor. Outro dia chegaram e eu fui vê-las à primeira janela, aquela que abro sempre, depois abri a janela que está ao lado mas que nunca abro, desta vejo uma metade de céu azul, metade vermelho-telhado envelhecido com um pináculo inútil, tão inútil quanto as pombas que por vezes lá se encostam. Saí de casa encostado à primeira luz do dia, a primeira luz que indistintamente abre o céu para a manhã que começa, o calor descia já por uma brisa contínua mas suave, sabes, mal sabia eu que ias existir, quinta feira oito da manhã e eu sem suspeitar, sem me preocupar com a tua respiração, sabes,

também eu quero dar outra inclinação a esta rua, se for preciso fazê-la descer até ao Mondego, ir com as aves em direcção aos arrozais, a esta altura devem ter a força do verde cristalino das águas a lembrar dois olhos, dois olhos apenas são precisos para levar-me onde quer que seja, também eu quero ter um braço que te possa ir buscar ao verde dos teus olhos e poisar exausto em ti, um corpo de braços abertos, poisar feliz no teu ombro, no verde cristalino da água nos arrozais.

17 março 2008

Nau sem rumo

Raramente passo pela tua rua,
essa em que das janelas tombam
os vultos escuros e esguios
dos teus ombros, tremendo
de ansiedade
na antecipação dos meus passos.
Eu raramente deito o meu corpo
junto ao teu,
quem te guia a cintura
pela brancura das mãos pesadas,
quem nau sem rumo te guia
a pele dos flancos em escarpas,
pela brancura das mãos pesadas?

Tu sempre quiseste a palavra,
a casa branca e um chão de mar
onde pudesses ver fundo
o lugar das rochas.

Pela noite

Pela noite eu um farrapo de óculos molhados e embaciados, a água da chuva a correr-me implacável pelo cabelo que já não é muito mas ainda é possível alinhá-lo de modo a que as mulheres não percebam, a água a correr-me pela testa, e já não sei se é a água se és tu, tornou-se praticamente impossível abrir os olhos tu noite branca e pálida adivinhada em meias escuras e saia curtíssima subindo pelo joelho, se eu te dissesse que no final da noite toda a roupa estará rasgada tu depressa fugirias de mim enojada e chorando afinal sempre eras tu que me chovias pela cara, reconhecia o sal das tuas lágrimas mesmo se estivesse náufrago-mar de uma caravela sem mastro e sem vela e demasiado pesada para aguentar a tormenta de uma noite sem princípio nem fim por estar o céu coberto de negro, não escuro, negro, a cor verdadeira da morte, a morte certa que veio respirar ao meu pescoço uma destas tardes, a mesma que veio passar a mesma língua rosada pelo pescoço e depois pelo ouvido e é assim que tu fazes também, tu noite, tu mulher, se me queres levar para o lugar de onde vens e de onde vem o teu perfume, e onde te vestes e te despes sem qualquer espécie de pudor, para o lugar onde gostas de caminhar nua pela casa e eu doido atrás de ti, leva,

se ao menos pudesse acalmar esta chuva lançando os olhos para o céu, ou as mãos, gritando que parasse de chover e viesse a geada ou uma grande lua de noite fria, ao fundo milhares de janelas de olhos virados para a praça, do alto das pedras do castelo cai uma luz amarela, as ruas são também preenchidas por essa luz que vem dos candeeiros antigos, ao menos esses deitam do ventre uma luz certa, cujas sombras vacilam mas não tremem como as sombras daquelas luzes esbranquiçadas e ténues das cozinhas,

e eu beijos e pedras, mais pedras do que beijos, e eu deitado no mármore tricolor do claustro geral apenas aberto para o céu e para a cabra que domina os telhados também eles tricolores, e eu deitado, dizia, no mármore do claustro apenas aberto para o céu com excepção de três entradas, ou saídas, conforme se queira, é necessário ser justo tanto para quem entra como para quem sai, duas delas dão para umas escadas, a outra também ainda que indirectamente…

15 março 2008



Bloc Party - Blue Light

You'll find it hiding in shadows
You'll find it hiding in cupboards
It will walk you home safe every night
It will help you remember

If that's way it is
Then that's the way it is

I still feel you and the taste of cigarettes
What could I ever run to
Just tell me it's tearing you apart
Just tell me you cannot sleep

If that's way it is
Then that's the way it is

And you didn't even notice
When the sky turned blue
And you couldn't tell the difference
Between me and you
And I nearly didn't notice
The gentlest feeling

You are the bluest light
You are the bluest light
You are the bluest light...


Para ti, Laura. Não desaparecerei enquanto não voltares.

14 março 2008

São dois lábios, os teus,

as aves mais breves,

silêncio puro da manhã.

Regresso

Eu regresso a pouco e pouco
a um sol triste de verão
(um sol que não se pôs),
ao teu vestido de algodão

branco vestido de verão.

12 março 2008

Durante semanas não pude achar uma palavra, não pude construir com gosto e ideia os meus pensamentos, não pude articular um desejo, uma inspiração que fosse, uma ténue memória existia já sobre o que quer que tenha escrito ou dito nos últimos meses. Durante semanas não pude achar uma palavra, simplesmente não pude, qualquer tentativa saía amplamente inacabada, supérfula, esgotada às primeiras linhas. Mas hoje sei, isto é, descobri há uns dias aquilo que realmente sempre desejei. Eu sempre desejei uma plateia. Eu preciso de uma plateia. Pessoas que se sentem diante de mim e me vejam. E me aplaudam. É apenas o que preciso. Anda toda a gente a encher a barriga das frases e dichotes dos outros quando deviam estar a olhar para mim, a admirar-me, as mulheres a venerar-me. Seria de toda a justiça: eu sou maior do que eu próprio. Há muito que me ultrapassei. Há muito que deixei de ser eu para ser um eu distinto e completo. Não sei nem percebo o que terá provocado isto, reconheço porém que dias não faltam que concorram para que hoje eu não me sinta perto de mim, próximo o bastante para poder dizer que eu sou eu. Não. Eu sinto que cada vez mais há alguém que me habita para além de mim. Eu preciso apenas que me admirem. Preciso de uma plateia, preciso de palmas e de sorrisos; eu quero que todos oiçam a minha voz, ouvir-me do lado de dentro não tem piada nenhuma, é uma maçada ser-se eu sem que os outros me vejam; rapidamente me canso de estar só comigo. Comigo. Esse outro que para ali está e que não raras vezes chega aos berros: a perfeita síntese de um arrivista, suponho: um homem que estoira de soberba e de exageros: grita, esbraceja e graceja, todos o ouvem, todos o lêem, rebentam de rir assim que diz uma palavra, enfim, ele é a parte de mim que eu sempre desejei ser completamente, sem naturezas refractárias ou intermitentes; Eu quero ser inteiramente génio, inteiramente louco e exagerado, ateu, sanguinário, asqueroso, chocante; pois eu preciso apenas que todos reconheçam que sou inteiramente génio, louco e exagerado, ateu. Mas tudo está tão longe, é tudo tão difícil, pelo meio estão os dias, estão as noites que por serem tão escuras me custam tanto a passar: dói tanto, se soubesses, dói tanto estares em mim e sermos dois a habitar este corpo. Partilhar a minha voz contigo, tu, esse outro inteiramente génio, eu te invejo por seres quem és, por seres tudo o que eu não sou e talvez nunca serei. Eu preciso urgentemente de palmas, de uma plateia que seja como eu e que todos sejam como eu e me admirem, não tu, não ninguém, apenas eu mereço ser visto, ah se soubesses o que é ser eu e não tu, enfim sermos dois quando podíamos ser um. Deixa-me ser tu de uma vez por todas. Dá-me ao menos esse prazer de ser tudo num só corpo, de ter em mim sublimado um ser genial, todo em sarcasmos. Que sou eu. Que és tu. Eu to peço. Eu to exijo.

10 março 2008



Também já tenho; "The complete illustrated works of Edgar Allen Poe"; e o entusiasmo é tão grande que não posso deixar de agradecer ao Bruno
pela dica. Já tenho companhia para as tardes de chuva.

07 março 2008

Eu tenho

Eu tenho toda a fome
e tenho toda a sede,
que o calor não cabe neste corpo,
a luz passa por mim ténue e vaga
como a poesia,
os versos não me habitam,
as musas não me visitam.

Eu tenho toda a solidão (desilusão)
e tenho todo o fracasso,
eu queria que tu aparecesses
na crina de um cavalo
com um vestido de verão

o vento demora-se pelos penedos
e pelas giestas,
indistinto marulhar,
murmúrio de dor,
é tempo de o sol chegar
ao silêncio negro
dos penedos e das serras
(sem passos que as pisem)
dourar de verde as terras
e as águas frescas do paiva,
mas ele (tu) tarda (tardas),
tu que me olhas
-que eu sei que sim -
defronte da minha janela,

tu,

dois olhos cruzados de uma luz azul,
deixa que fique em ti
como a multidão de aves em baixo,
namorando o Mondego.

17 fevereiro 2008

Do amor (um assunto escabroso)

"- Vossa Excelência decerto, sr. Sousa Neto, sabe o que diz Proudhon?
- Não me recordo textualmente, mas...
- Em todo o caso Vossa Excelência conhece perfeitamente o seu Proudhon?
O outro, muito secamente, não gostando decerto daquele interrogatório, murmurou que Proudhon era um autor de muita nomeada.
Mas o Ega insistia, com uma impertinência pérfida:
-Vossa Excelência leu evidentemente, como nós todos, as grandes páginas de Proudhon sobre o amor?
O sr Neto, já vermelho, pousou a chávena sobre a mesa. E quis ser sarcástico, esmagar aquele moço tão literário, tão audaz.
- Não sabia - disse ele com um sorriso infinitamente superior - que esse filósofo tivesse escrito sobre assuntos escabrosos!
Ega atirou os braços ao ar, consternado:
- Oh! sr Sousa Neto! Então Vossa Excelência, um chefe de família, acha o amor um assunto escabroso?!
O sr. Neto encordoou. E muito direito, muito digno, falando do alto da sua considerável posição burocrática:
- É meu costume, sr Ega, não entrar nunca em discussões, e acatar todas as opiniões alheias, mesmo quando elas sejam absurdas..."

31 dezembro 2007

I've lost eu perdi j'ai perdu

I´ve lost eu perdi j'ai perdu
le froid o frio the cold
de duas mãos of two hands de deux mains
a exactidão dos teus joelhos
your arms tes bras os teus braços
enlaçando-me o pescoço
e a tua boca os teus lábios
tão perto so close tellement proches.

I've lost eu perdi j'ai perdu
todas as letras do teu nome
your name ton nombre, Diana,
eu sei que as devo ter guardado num bolso
ou dentro das palavras the words les mots
que tu nunca never jamais me disseste,
Diana, Diana, Diana.

I've lost eu perdi j'ai perdu
um rio a river un rivière
uma margem esquerda povoada
de salgueiros des saules of willows
toda a tarde eu esperei que a tarde viesse
e afinal ela veio elle a venu she came
sem que eu soubesse que a cor
dos seus olhos ses yeux her eyes era verde.

A Mário Cesariny

28 dezembro 2007

a pillow of winds

Hora morta, hora de Sol,
hora fugidia, as tuas horas
crepitam na multidão de fogo de uma lareira.
É pelo fogo que ardes,
é pelo fogo que a tua beleza
impura
sublima
acima de um mar sem horizonte,
ou um horizonte verde.
Numa hora cabe o teu corpo,
numa hora cabe o meu,
e cabe um girassol,

a pillow of winds -
sleepy time when I lie
with my love by my side
and she's breathing low
and the candle dies

numa hora cabe o brilho líquido
dos teus olhos febris,
numa hora longa de insónia escura
acontecem
estrelas
nebulosas
super-novas no meu tecto,
disse já que na escuridão tudo se completa,
tudo se ausenta
e tudo se concentra
numa hora breve de prazer, de prazer tectónico,
acontecem
águas fundas
atlânticas
corrente do Golfo nas palavras
(disse palavras?)
nas palmas das minhas mãos.
Eu me penitencio,
meu lago rosado, minha oculta maré,
minha árvore dormente dominando a colina,
neve caída manchada de lama,
eu dei-te a vida num beijo,
eu tirei-te a vida num beijo,
mas eu não desejo, eu não desejei nunca
o poder absoluto, esse,
o de ter nos lábios a tua própria existência,
meu cravo de fogo-fátuo,
leão de prata de Versalhes com a juba dourada,
minha febre-diamante,
corpo de mármore perpétuo osculado de mim,
eu me penitencio.
Eu não queria matar,
queria apenas viver...

24 dezembro 2007

24/25


Feliz Natal. A todos os que passam por cá.

segredo

Eu não queria dizer-te,
Os corpos juntam-se no ar frio da noite,
Mas o meu corpo não é só teu
Debaixo da frescura dos lençóis.

O poema que eu nunca fui,
que eu nunca tive aberto em mim
como um livro, uma flor
de madrugada, um cravo que
tingisse de vermelho o céu,
foste tu,
és a outra cor do escuro,
estes ombros são teus,
a respiração é nossa,
só nossa, de noite,
pela noite, com a noite.

Peço-te, fica mais um pouco, não me deixes,
demora-te, deixa ao menos um cabelo
no meu peito, é uma pena teres de partir,
o frio não espera, tens nas mãos as armas
do desejo, o teu corpo nu, o cabelo pelas costas
sacode chicote o ar à tua volta
preso o fogo o grito saudade
tu não me ouves, o meu cachecol comprido
as minhas luvas
o meu sémen dentro de ti,
peço-te, fica mais um pouco, não me deixes,
deixa cair o meu cachecol, deixa-o deslizar
pelo teu pescoço, sinuoso perfil
cinzel mármore escultor,
eu quero beber essa água beijos saliva perfume
pelo cálice do teu sexo aveludado,
não há estepe azul ou dourada
não há claridade do vento do deserto
toda a serenidade está no teu colo,
na altitude de duas suaves colinas,
peço-te, leva-me contigo
a ver o teu corpo nu deitado
nos meus lençóis, a cama está fria,
leva-me a ver o teu corpo de guitarra, peço-te,
deixa que o destrua e queime
apenas uma vez
dormirei depois coberto pelas tuas cinzas,
deixa ao menos um cabelo no meu peito.
Peço-te.

22 dezembro 2007

please, please, please


The Smiths - Please, please, please, let me get what I want


Good times for a change
See, the luck I've had
Can make a good man
Turn bad

So please please please
Let me, let me, let me
Let me get what I want
This time

Haven't had a dream in a long time
See, the life I've had
Can make a good man bad

So for once in my life
Let me get what I want
Lord knows, it would be the first time
Lord knows, it would be the first time

19 dezembro 2007

You dress to kill - guess who´s dying

Roxy Music - Dance Away



Há poucas bandas com um vocalista que é simultaneamente um verdadeiro hino à classe e ao estilo... É caso para dizer "quando eu for grande quero ser Brian Ferry".




(parêntesis)

Salazarento/a

Obrigado Rui Zink pela melhor expressão que já ouvi, arrisco dizer, em toda a minha equívoca vida.

da insónia

se o corpo permanecesse intacto
se a noite viesse completa, apenas
nua e branca como
água que nascesse luar
das estrelas
eu dormiria.

dormiria se o corpo
pedisse um pouco mais de cansaço,
a luz não esmorece
as ondas quebram ao longe
na escuridão profunda
de um quarto frio
a insónia queima os olhos,
eu dormiria se viesses
na aspereza das crinas
douradas de areia
eu espero
pela contemplação da glória ardente
de um pôr do sol,
se nos campos
outonais chovessem gritos
de planície dormente
eu dormiria.
dormiria se viesses