Havia naquela fotografia um céu azul, um céu que não é de hoje, tão azul como aquele seria impossível agora, apenas se um pintor acordasse com o sol a entrar-lhe pela janela, pegasse no pincel, na paleta e escolhesse aquele azul para pintar aquele céu. Havia naquela fotografia um céu azul, um céu que não é de hoje, tão azul, muito claro, quase te obrigava a usar as tuas pálpebras para que não ficassem feridos os teus olhos, muito escuro, quase te obrigava a recuar para não te assustares, mas foi o que fizeste, com medo, Não, dizes tu, e eu bem sei que não foi com medo daquele azul escuro que recuaste, não, apenas quiseste olhá-lo melhor, porque aquele céu não é de hoje, não importam as pessoas que ali estão a sorrir, um casal em pé no dia em que se uniram para sempre, no dia do seu casamento, ele estava dentro de um fato datado, e sorria, o sol estava de frente, por isso tinha os olhos semi-cerrados, mas o sorriso ali ficou, era preciso mantê-lo a todo o custo, sabe-se lá o esforço que fazia o noivo, a expressão é a de quem necessita urgentemente de correr ao quarto de banho fazer das suas; o fato que trazia era quase tão azul como aquele céu que não é de hoje, e o desenho, o corte não é de hoje, por isso o recuaste, Sim, por isso recuei, Quiseste olhá-lo melhor, perceber que cores tem na verdade aquela grande tela que espera a melhor oportunidade, a melhor ocasião para ser pendurada num minúsculo e raquítico prego ferindo a parede, perceber que tamanha felicidade será a de quem se casa, um glorioso sentimento, um júbilo de nunca mais acabar de tão fugaz ser. Ela, a noiva, imediatamente ao lado esquerdo do marido, perigosamente perto, quase jazendo de cansaço, mas simplesmente muito feliz, era toda ela um vestido muito branco, imaculado como devem ser e como devem ser também as noivas, o vestido sabemos que o era, a noiva nunca o poderemos saber, seria indelicado perguntar-lhe, e no mínimo indecoroso. O braço direito tinha-o tomado o noivo, apaixonadamente, e o braço e a mão direitos traziam um bouquet vulgar, este casamento é um do seu tempo, feito de flores de laranjeira. Sabemos, e é o que nos basta, que aquele céu não é de hoje, quem quer que tome o esforço de virar a testa para cima facilmente o constata, o céu que nos serve de tecto não é hoje tão azul, pelo menos em proporção ao dos tempos de nossos pais. E na verdade alguns anos passaram, ninguém poderá dizer quantos, mas tu e eu sabemos, vinte e cinco anos passaram, um quarto de século passou, nove mil cento e vinte cinco dias, e na verdade eu e tu sabemos que aquele céu não é de hoje, tão azul, muito claro e muito escuro que se tinha estendido em cima das cabeças daquele casal que sorria no dia do seu casamento, ele de fato azul de época, curto nas mangas e nas calças, as meias brancas, a gravata muito estreita, simplista, oh moda, oh tendência, oh estilo, por que provações terá o homem de passar. E ela de vestido de noiva, claro está, que as noivas querem-se de branco, ou não o são, noivas obviamente, e o branco será eterno, imaculado, as luvas de renda e o véu a rematar, que linda renda também, e era um dia de sol e claridade e sorriam para a fotografia à frente de uma casa nova, a estrear pelos noivos, o seu ninho de casados, que felizes estão, naquele dia de claridade e de céu azul, tão azul que dizemos que não é de hoje.
Havia naquele dia uma brisa intemporal, alguns dias de sol trazem uma brisa leve, e um segredo invade o ar, um mistério que nem sequer se sabe que é mistério, trata-te portanto de um segredo bem guardado, uma voz que não se ouve, uma brisa que não transparece mas que se sente, quase se pode partir e repartir, porque quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, é tolo ou não tem arte, mas ninguém ali pretende partir e repartir o ar, que tolice, imaginar que se pode repartir a atmosfera, os noivos certamente estarão longe de o pensar sequer, estão à frente de sua casa à espera que o fotógrafo decide que bastam as fotografias, que os convidados decidam que bastam as conversas, que entreguem os seus cumprimentos e que se vão embora, que os pais do noivo e os pais da noiva entreguem as suas últimas recomendações, Filha querida que deixas de ser minha, sê boa mulher para o teu marido, Filho querido que deixas de ser meu, governa tua casa como eu governei a minha, mão firme, e respeita tua mulher, que é tua de direito e de imaculado matrimónio, que se vão embora por fim para que os noivos dêem início às suas vidas de marido e mulher, que a vida verdadeiramente começa agora, naquele dia de sol e claridade e de brisa secreta quase palpável, divisível, ao contrário daquela santificada pessoa divina, que é indivisível e, o que é mais, una.
Unos estão agora os noivos, ele dentro dela e ela fora dele, para ele é um regozijo, para ela uma quase-dor que não se suporta, o suor frio do pecado inicial e capital, morde-se o fruto, cai um pomar, rasga-se a dor, sofre-se por amor, e o acto fica consumado, para ele é um regozijo, o prazer de sucumbir ao desejo, para ela é uma desilusão, uma quase-dor, uma frustração, ainda tão frescas as palavras de sua mãe, virão outras, o sexo é ocasional, homem e mulher deitam-se juntos todas as noites, basta o toque de uma perna na outra perna para acontecer, para se revelar o sexo escancarado, perdoe-se o empréstimo da expressão, a camisa de dormir sobe até à cintura, a calça desce até ao joelho, passa um minuto e começa o prazer de um, a quase-dor de outro, passa outro minuto e o prazer desce até à espinha, o prazer de um é finalmente o prazer de outro, passa outro minuto sem que esta música se acabe, as bocas juntam-se para respirar, o ar de um é o ar do outro, pedra ofegante, os olhos obrigam-se a fechar, as pálpebras querem-se bem cerradas quando tudo acabar, passa outro minuto, o derradeiro, o prazer de um é o prazer do outro, os corpos ardem, as pernas cingem-se à cintura, não há hipótese de fugir, não agora, os braços constroem um abraço sufocante, as unhas apertam, a pele agoniza, nada mais importa, o prazer de um é o prazer de outro, o prazer, o prazer é agora, solta-se o fruto, a terra é fértil, será plantado, assim será, pode-se respirar, abrir os olhos, é o momento, o grito sai da boca, o prazer de um, o gemido pára à porta dos lábios, é o prazer do outro.
Este céu não é de hoje...