22 outubro 2007

Noite

Diz-me o que pensas
De seres tão escura,
Ó Noite,
E de o mar ser tão fundo
Que nenhum som debaixo
Das ondas existe; E de veres
O sol pôr-se do outro lado
Do mundo, depois do mar,
E nunca o veres.

Diz-me, Noite, o porquê
De as palavras me ficarem
Pela metade, pela metade do caminho,
Eu não sei o que mais dizer
E disse tão pouco do que tinha
Para escrever.
Diz-me porque me doem
Nos olhos, na boca, na pele
As aves que sobem
E fogem
Das minhas mãos,.
Noite, eu nunca as fechei
E as janelas,
Essas estão de par em par abertas.
Diz-me, noite, o porquê
De as ruas nunca estarem desertas
Quando ela passa para eu saltar
Da janela
E fundo mergulhar
Nos olhos dela,
Cinzentos
Com um bocadinho de mar.

Essa a razão porque gritei.
Se puder, noite, deito-me
Sozinho em cima das nuvens.
A luz não escolhe
Quem quer resgatar da sombra.

Diz-me o que pensas
E eu dir-te-ei quem és.
Ó Noite tão escura.

Ainda as escadas (perspectiva)

Era a lenta surpresa de um vulto de mulher. Um vulto que parece certo e definitivo na vaga luz de um vão de escadas ou nas ombreiras de uma porta. Esse era o teu vulto, desenhado a carvão; perfumado. Que eu sentia preso quando, debaixo da negrura das sombras, tu oferecias o teu peito e as tuas coxas à força destruidora das minhas mãos. Paixão ardente. Vermelho assim.

0.1

"O quê! Sem saciar a avidez dos meus lábios?!"

Foi assim que me olhaste hoje de manhã.

19 outubro 2007

Até amanhã

Disse ele, Até amanhã, e tamanhas palavras, assim ditas, tiveram o efeito de um grande terramoto, nos instantes seguintes dir-se-ia que as pedras escuras do castelo desabavam inteiras e todo aquele lugar era arrastado para um outro onde as paredes ruíram e jazem inertes ao nível do chão num monte de cimento picado, mas esta casa não desabou, o telhado continua direito, no mesmo ângulo em que foi construído para escoar as águas e proteger dos raios homicidas do sol forte de Julho, os alicerces não foram perturbados, muito ou pouco fundos lá permanecem, se sequer existem, as raquíticas paredes vagamente brancas, escurecidas pela humidade aí estão para quem as quiser ver, por fora com menos saúde, por dentro melhores, É fazer o favor quem quiser entrar, nós o que fazemos é muito simples, subimos as escadas muito depressa, ele à frente, puxando-me pela mão, eu atrás subindo um pouco a saia, antecipando talvez o que o desejo dificilmente deixa esconder, ou ajudando as pernas a depressa completarem os esforço dos degraus, saltamos o patamar, que todo o tempo é precioso, tropeçamos um no outro, a descoordenação é total, as pernas quase se cruzam, mas no fundo não importa porque mais tarde estaremos tão perto um do outro que a distância mínima que está entre nós agora parecerá um enorme rio que separa duas margens, o patamar ficou para trás, pequeno e sombrio, faltam poucas escadas, a porta já a vemos, as chaves estão nos bolsos, em qualquer deles podem estar, são poucos, são muitos, não sabemos, são agora apenas bolsos que guardam as chaves que são absolutamente necessárias para abrir a porta, não nos passaria pela cabeça, apesar de a respiração ir tomando conta dos pulmões, deitar abaixo a estúpida da porta que nas ombreiras se apoia para não nos deixar passar, e no entanto tudo é possível agora, somos capazes de destruir paredes como se os beijos que entretanto imaginámos fossem marretas e picaretas, felizmente a porta abriu-se facilmente, resta o corredor estreito onde a luz da tarde vem descansar os cabelos, aqui não pode ser, para o que queremos temos o quarto, uma cama com quatro pés e um colchão e lençóis e duas almofadas, será já demasiado para que dois amantes se amem e se destruam com língua e beijos, finalmente chegamos ao quarto, se não nos perdemos pelo caminho, nós e quem nos ouvir contar como fazemos amor, lá está a cama e os lençóis e debaixo deles o colchão, se é confortável não queremos saber, eu estou já despida da cintura para cima, a memória da roupa que trazia não existe, a blusa branca ou azul, uma delas ficou lá atrás. Atiramo-nos para a cama que se queixa da violência do embate, um pouco mais de força e tínhamo-la quebrada em duas metades, Ele despe-se lentamente diante de mim, Ela deita-se na cama, apoiada nos cotovelos, atira a cabeça e o cabelo para trás, a claridade deixa-lhe metade da cara num resto de sombra, está despida da cintura para cima, a blusa branca que trazia com botões forrados a renda rendeu-se nas minhas mãos, mais nada foi preciso pedir que saísse do meu caminho, o peito está nu, a descoberto, consciente da minha sede, Ele agora despe o resto da roupa, está nu à minha frente, avança para a cama, a minha saia castanha faz uma vénia e lentamente deixa adivinhar a pele das coxas, toda a tarde é desejo, frutos e sol, depois os olhos recebem a escuridão, fechados como um túmulo de pedra esculpida, nasce o grito do fundo da boca.

Deixam-se as palavras à porta do desejo, as paredes brancas bebem a luz e as palavras, o sol e o verbo, recuamos pelo mesmo caminho, da porta do quarto pelo corredor até à porta da casa, aquela que nas ombreiras se apoiava para não nos deixar passar, pelas escadas rapidamente até aos últimos degraus para a rua e o ar que de novo se respira, afinal não houve por aqui terramoto algum, apenas a mais pequena brisa sopra no estreito flanco da rua que dorme ao relento sob as luzes amarelas dos candeeiros, dentro de uma janela ouvem-se duas palavras, ou melhor, ouve-se um silêncio insuportável, depois duas palavras, mais um pouco de silêncio e por fim um pranto mudo, pacífico, dormente, daqueles em que as lágrimas correm para dentro em vez de para fora seguindo os trilhos da pele.

16 outubro 2007

No princípio é simples:
nada resta depois do sol,
a estepe cedo apaga
a presença dos pés que
nela caminham. Nada resta depois
de um sorriso, a erva gasta,
palha solta e perdida aqui e ali,
marcada com o odor que nela
deixam os que sobre ela
se deitam,
também a chuva morre
nos braços do chão, agonizante.

E depois?

03 outubro 2007

Não conheço uma palavra
do que disse a boca

que de noite falou
e disse, À beira da morte
todos escurecem.

Não conheço, sei que a noite
é tanta que não chega
para na noite, ela própria,
caber, e fazer dormir

os olhos tão claros.
Que neles a luz existe.

Eu não sei
que vem a luz fazer
a este quarto esta cama
entrar por esta janela,

que a noite basta porém
para nela se escrever
o canto e o gelo,
funestíssima dor
de um dia escuro que passou,

a dor de nunca ser,
e não poder saber
o que vem afinal a luz
aqui fazer.

28 setembro 2007

Setembro #2


Setembro fez-se de outra luz, uma luz quase-luz que se vai perdendo no ponto de fuga de um sorriso outonal. Ou da primeira folha seca que acaba de se soltar e vai caíndo no chão. Setembro fez-se de outra luz, a última dos dias claros, esses que te vão fugindo por entre os dedos. Setembro fez-se de uma praia sem sombras, de marés-vivas.

Setembro é uma aguarela para se pintar do som do mar.

22 setembro 2007

Setembro #1

Setembro: que lugar para dormir - ou nessas folhas que ardem pelo chão da tarde.
A sombra desse beijo que trazia abria-lhe nos lábios um corte profundo de cor escura. Era outro rosto, outros desenhos de ti que ele esperava, talvez pintados a lápis de cor e sem sair do limite. Mas esses olhos que usas teimavam em sair da própria luz do dia, exilados de ti numa outra margem ou pedaço de céu. Fugiam sempre, penetrando noutras fendas da minha pele. Era a tua voz que queria, para ir colher a primeira luz fria dasmanhãs, ou essa luz escura que cai depois do Sol.

Hoje tentei deslizar sobre a tua pele, querendo voltar a esse corpo de sal. Partir para não chegar, e sobretudo não voltar. Sair de mim, voltar a ti, ser tudo o que não sou para ser tudo em ti e voltar a mim no mesmo instante, sem pensar se me perdi ou se te encontrei. Gozar de toda a liberdade poética para te ousar, ir buscar-te onde não estás e deixar-te comigo onde não estávamos, estar contigo em lugar nenhum e visitar todo o lugar. Não te rias. Nem sempre o sonho serve para nos rirmos dele.

A sombra desse beijo que trazias abriu-me nos lábios um corte profundo de cor escura, uma fenda para onde te vais esgueirando e espreitando para dentro de mim. Descansa. Setembro: que lugar para dormir. Descansa: "o amor não contempla, sempre o amor procura".

eu não posso

eu não posso querer
as ruas e as esquinas
povoadas de ti,

o chão pisado pelos teus pés
e a poeira que debaixo deles
se levanta nos espaços onde tu não és
um corpo, matéria habitada, um mar
tão calmo de se dormir nele.

no fundo da boca um grito espera,
espera que um lago um rio uma maré
sejam um lago um rio uma maré.
brancos e pálidos na longa noite escura.

eu não posso querer
o céu povoado de aves tão negras,
a claridade tem ali também o seu espaço,
não posso querer o fogo e o gelo,
o canto e o gelo de um de um inverno
azul.

de noite o quarto escurece, apenas eu sei
que cores habitam o espaço da escuridão,
tudo se completa na ausência
de luz.

eu não posso querer a luz neste quarto
que só me conhece a mim. e só eu sei
o escuro que é ser eu.

16 setembro 2007

eu queria ser nada
e ver nada acontecer perto de mim
por estar cansado de ser nada

e tudo o que da noite e das sombras
aparentemente nasce, eu queria apenas

que tudo morresse, que indiscretamente
TUDO deixasse de existir,

e toda música poderia enfim serenamente
voltar de onde jamais partiu, voltar às cordas
de uma guitarra, o vento soprava e eu ouvia,
soprava e eu ouvia, soprava...
e ouvia...


____________________________________


e
talvez o verão esteja tão longe
e os dias de outono junto à pele,
talvez seja apenas já um sopro
disforme, último reduto de uma dor

tão clara.

13 setembro 2007

Luís Goes - É Preciso Acreditar




É preciso acreditar,
É preciso acreditar
que o sorriso de quem passa
é um bem para se guardar
que é luar ou sol de graça
que nos vem alumiar

É preciso acreditar,
É preciso acreditar
que a canção de quem trabalha
é um bem para se guardar
E não há nada que valha
a vontade de cantar
a qualquer hora cantar

É preciso acreditar,
É preciso acreditar
que uma vela ao longe solta
é um bem para se guardar
que se um barco parte ou volta
passará no alto mar
E é livre o alto mar

É preciso acreditar,
É preciso acreditar
Que esta chuva que nos molha
é um bem para se guardar
que há sempre terra que colha
um ribeiro a despertar
para um pão por despertar.


O que os olhos choram

O que os olhos choram a boca não exprime, os lábios precisam de abrir e fechar, a voz precisa de vibrar, estremecer no peito como um trovão que se ouve bem de perto, sentado no chão, um trovão que vai cair mesmo perto, ao lado, à frente ou atrás, e aí o mundo desaba, a terra abre-se, serena. Intermitentes, as lágrimas caem no vazio, vão caíndo uma a uma, e as primeiras, as primeiras são as que têm para si guardada a tarefa mais difícil, desde a pálpebra de baixo até ao queixo é sempre a cair, o problema está em por onde começar, por onde ir, a pergunta impõe-se, decisiva, às primeiras lágrimas que caem de dois olhos, e o que os olhos choram a boca não exprime, esta secretamente encerra as palavras, e se mais cuidados forem precisos, as palavras aninham-se debaixo da língua, e aí ficam, esquecidas, todavia sempre prontas a colocarem-se no limite dos lábios, no limite do silêncio e enfim pularem para a sílaba, a palavra, a frase, e receberem outras. Algumas vezes, as lágrimas encontram-se com as palavras, mas também o sorriso se confunde com as palavras, e não esqueçamos que, não raras vezes, sem palavras que se consigam dizer quando o ar falta, as lágrimas entram, salgadas, onde os lábios se juntam, e a boca que exprime e diz mas que agora está calada vai beber as lágrimas que de lá de cima se chorou, que de lá de cima se deixaram cair, aflitas de não saberem onde morrer, e afinal encontram um refúgio seguro, uma boca que as beba, tão triste, uma boca que vai beber as lágrimas que os olhos choram é uma boca solitária, e que dizer dos olhos, também o são, é tudo tão triste, não ter outros lábios que nos venham beber as lágrimas, não ter outros olhos que nos olhem fundo na pupila, e ninguém que nos leve os dedos à pele da cara e nos enxugue toda a água salgada que ao fim de um dia fez um rio tão fundo. Mãe, porque é que o mar tem água, pergunta-se por aí, a resposta está no mal que se faz e no mal que depois se chora, o que os olhos choram a boca não exprime, estão ambos separados em tudo o que fazem, excepto quando os lábios sorriem, pois aí os olhos são obrigados a sorrir também para que não se possa mentir, e teremos a expressão de um fim sereno e repousado em que as lágrimas terminam e se pode respirar, limpar o sal dos lábios e recomeçar pois a noite começa hoje.

12 setembro 2007

E agora algo completamente diferente

Serge Gainsbourg - Le Poinçonneur des Lilas



A ideia é genial: um pica do metro de Paris que fura liláses...

Jacques Brel - Les Bourgeois






Às vezes na rua sorrio e canto muito baixinho: " Les bourgeois c'est comme les cochons
Plus ça devient vieux plus ça devient bête"

31 agosto 2007

De noite as ruas perdem todo o sangue
de quem por elas durante o dia passa,
e no chão imperfeito acontece a
insónia escura de um longo dia, e

o silêncio

é maior do que o trovão que dele
instantâneamente nasce,
e o ar vibra com as águas de um rio,
o vento na copa das árvores estremece
o fundo das costas, um leão surge rente
ao fundo dos olhos,

e nada acontece, porque

de noite as ruas perdem todo o sangue
de quem por elas durante o dia passa.

30 agosto 2007

Esgotando palavras

Eles existem. Vivem...
e ardem. Vermelhos.
Teus lábios. Escuros,
vermelhos, tingidos de
sangue. Pulsam.
Pedem sempre outros lábios
para dormir. Os meus.

Nos teus lábios existo.
Adormeço.
Eles vivem. E ardem.
Teus lábios. Cruzados, juntos
abertos, mordidos, mudos...
existem. E ardem.


25/2/2005

Do fundo das pedras

Quando tu ias beber a água do fundo das pedras
eu esperava sentado pelo Verão que chegasse,
pela lua que olhasse
e te visse beber a água do fundo das pedras,
eu esperava;
nesses dias o céu era tão azul,
e o mar era tão verde, atlântico;
depois tu voltavas de uma árvore, tão fresca,
ao sol, ao sol que resplandecia,
caminhavas e nem os teus passos se ouviam,
da tua boca nada se dizia,
tu voltavas, a tua saia quase tocava o chão
e nascia na cintura, acima do umbigo,
o teu peito adivinhava-se
entre os braços, que trazias cruzados,
e eu esperava, esperava sossegar desse tão
doloroso sorriso que tu fazias,
eu esperava outra vez pelo sol, pela lua que olhasse
e te visse beber a água do fundo das pedras.

24 agosto 2007

Mãezinha

A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.


Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai do berço até à puberdade.


28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido

desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos...
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)
Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.


Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.


Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
tranquilamente no maior sossego,
às horas em que entrava e saía do emprego.


Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.


A que sobeja
chama-se Rosinha.
Foi essa que o meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.

Rómulo de Carvalho

Fotografia

Havia naquela fotografia um céu azul, um céu que não é de hoje, tão azul como aquele seria impossível agora, apenas se um pintor acordasse com o sol a entrar-lhe pela janela, pegasse no pincel, na paleta e escolhesse aquele azul para pintar aquele céu. Havia naquela fotografia um céu azul, um céu que não é de hoje, tão azul, muito claro, quase te obrigava a usar as tuas pálpebras para que não ficassem feridos os teus olhos, muito escuro, quase te obrigava a recuar para não te assustares, mas foi o que fizeste, com medo, Não, dizes tu, e eu bem sei que não foi com medo daquele azul escuro que recuaste, não, apenas quiseste olhá-lo melhor, porque aquele céu não é de hoje, não importam as pessoas que ali estão a sorrir, um casal em pé no dia em que se uniram para sempre, no dia do seu casamento, ele estava dentro de um fato datado, e sorria, o sol estava de frente, por isso tinha os olhos semi-cerrados, mas o sorriso ali ficou, era preciso mantê-lo a todo o custo, sabe-se lá o esforço que fazia o noivo, a expressão é a de quem necessita urgentemente de correr ao quarto de banho fazer das suas; o fato que trazia era quase tão azul como aquele céu que não é de hoje, e o desenho, o corte não é de hoje, por isso o recuaste, Sim, por isso recuei, Quiseste olhá-lo melhor, perceber que cores tem na verdade aquela grande tela que espera a melhor oportunidade, a melhor ocasião para ser pendurada num minúsculo e raquítico prego ferindo a parede, perceber que tamanha felicidade será a de quem se casa, um glorioso sentimento, um júbilo de nunca mais acabar de tão fugaz ser. Ela, a noiva, imediatamente ao lado esquerdo do marido, perigosamente perto, quase jazendo de cansaço, mas simplesmente muito feliz, era toda ela um vestido muito branco, imaculado como devem ser e como devem ser também as noivas, o vestido sabemos que o era, a noiva nunca o poderemos saber, seria indelicado perguntar-lhe, e no mínimo indecoroso. O braço direito tinha-o tomado o noivo, apaixonadamente, e o braço e a mão direitos traziam um bouquet vulgar, este casamento é um do seu tempo, feito de flores de laranjeira. Sabemos, e é o que nos basta, que aquele céu não é de hoje, quem quer que tome o esforço de virar a testa para cima facilmente o constata, o céu que nos serve de tecto não é hoje tão azul, pelo menos em proporção ao dos tempos de nossos pais. E na verdade alguns anos passaram, ninguém poderá dizer quantos, mas tu e eu sabemos, vinte e cinco anos passaram, um quarto de século passou, nove mil cento e vinte cinco dias, e na verdade eu e tu sabemos que aquele céu não é de hoje, tão azul, muito claro e muito escuro que se tinha estendido em cima das cabeças daquele casal que sorria no dia do seu casamento, ele de fato azul de época, curto nas mangas e nas calças, as meias brancas, a gravata muito estreita, simplista, oh moda, oh tendência, oh estilo, por que provações terá o homem de passar. E ela de vestido de noiva, claro está, que as noivas querem-se de branco, ou não o são, noivas obviamente, e o branco será eterno, imaculado, as luvas de renda e o véu a rematar, que linda renda também, e era um dia de sol e claridade e sorriam para a fotografia à frente de uma casa nova, a estrear pelos noivos, o seu ninho de casados, que felizes estão, naquele dia de claridade e de céu azul, tão azul que dizemos que não é de hoje.

Havia naquele dia uma brisa intemporal, alguns dias de sol trazem uma brisa leve, e um segredo invade o ar, um mistério que nem sequer se sabe que é mistério, trata-te portanto de um segredo bem guardado, uma voz que não se ouve, uma brisa que não transparece mas que se sente, quase se pode partir e repartir, porque quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, é tolo ou não tem arte, mas ninguém ali pretende partir e repartir o ar, que tolice, imaginar que se pode repartir a atmosfera, os noivos certamente estarão longe de o pensar sequer, estão à frente de sua casa à espera que o fotógrafo decide que bastam as fotografias, que os convidados decidam que bastam as conversas, que entreguem os seus cumprimentos e que se vão embora, que os pais do noivo e os pais da noiva entreguem as suas últimas recomendações, Filha querida que deixas de ser minha, sê boa mulher para o teu marido, Filho querido que deixas de ser meu, governa tua casa como eu governei a minha, mão firme, e respeita tua mulher, que é tua de direito e de imaculado matrimónio, que se vão embora por fim para que os noivos dêem início às suas vidas de marido e mulher, que a vida verdadeiramente começa agora, naquele dia de sol e claridade e de brisa secreta quase palpável, divisível, ao contrário daquela santificada pessoa divina, que é indivisível e, o que é mais, una.

Unos estão agora os noivos, ele dentro dela e ela fora dele, para ele é um regozijo, para ela uma quase-dor que não se suporta, o suor frio do pecado inicial e capital, morde-se o fruto, cai um pomar, rasga-se a dor, sofre-se por amor, e o acto fica consumado, para ele é um regozijo, o prazer de sucumbir ao desejo, para ela é uma desilusão, uma quase-dor, uma frustração, ainda tão frescas as palavras de sua mãe, virão outras, o sexo é ocasional, homem e mulher deitam-se juntos todas as noites, basta o toque de uma perna na outra perna para acontecer, para se revelar o sexo escancarado, perdoe-se o empréstimo da expressão, a camisa de dormir sobe até à cintura, a calça desce até ao joelho, passa um minuto e começa o prazer de um, a quase-dor de outro, passa outro minuto e o prazer desce até à espinha, o prazer de um é finalmente o prazer de outro, passa outro minuto sem que esta música se acabe, as bocas juntam-se para respirar, o ar de um é o ar do outro, pedra ofegante, os olhos obrigam-se a fechar, as pálpebras querem-se bem cerradas quando tudo acabar, passa outro minuto, o derradeiro, o prazer de um é o prazer do outro, os corpos ardem, as pernas cingem-se à cintura, não há hipótese de fugir, não agora, os braços constroem um abraço sufocante, as unhas apertam, a pele agoniza, nada mais importa, o prazer de um é o prazer de outro, o prazer, o prazer é agora, solta-se o fruto, a terra é fértil, será plantado, assim será, pode-se respirar, abrir os olhos, é o momento, o grito sai da boca, o prazer de um, o gemido pára à porta dos lábios, é o prazer do outro.

Este céu não é de hoje...

18 agosto 2007

O nariz é romano,
Pendular e obtuso.

Os cabelos são anéis
doirados de um céu grego,

A voz… a voz é calma
E celeste, marinha.

A pele dos ombros
Queimou-a o sol da antiga
Babilónia.

E tu tens uma boca,
Um lírio no lugar dos teus lábios.

17 julho 2007

Fulvo, marinho,
submarino.
E de tanto ser rio
o teu cabelo perde-se
no mar aberto, na planície
atlântica que subitamente termina
nas falésias, desfazendo-se em ondas,
ou num areal quente
de tanto esperar pelo sol.

Lisa, recôndita, a tua pele
é um refúgio de aroma breve,
imperfeito,
um espelho de sal que apetece
percorrer com os lábios e a língua,
morder o fruto, saciar
todo o verão no sal da tua pele.

As noites são tantas ainda...
Post Scriptum quase fugaz


(a curva de luz que hoje vi
nascer foi um sopro de sol,
um último fechar de olhos,
uma lágrima que desce sozinha
até à minha boca).

Quase que te senti abrir os
olhos esta manhã.

12 julho 2007

Cala-te, a luz arde entre os lábios
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
esta perna é tua?, é teu este braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.

Eugénio de Andrade

25 junho 2007

É uma espécie de corrente

Em estado de graça e no começo das férias depois de um ano em que meses como Janeiro, metade de Fevereiro e Maio parece que não existiram, a minha estante quase não se mexe - os livros lá estão alinhados, muito quietos, pacíficos. A minha relação com eles é, provisoriamente, ideal, platónica.

Há uns meses descobri o Miguel Torga. Li a "Criação do Mundo", que no fundo é a vida do autor contada em cinco dias: a criação é a criação do seu mundo, do ser que o habita, e em cinco dias vão-se contando histórias de S. Martinho de Anta, do Brasil, de Coimbra... Não fosse o meu périplo pelo Saramago ainda a meio, tinha já satisfeito a curiosidade que ficou depois de ler a "Criação do Mundo".

Recentemente, li "Levantado do Chão", de José Saramago. É Saramago avançado, como eu costumo dizer, mas não é difícil de ler sobretudo depois de se passar pelo "Ensaio Sobre a Cegueira" e o "Evangelho Segundo Jesus Cristo". "Levantado do Chão" é um livro sobre o Alentejo, sobre as gentes do Alentejo, sobre o latifúndio, o trabalho na terra, o sofrimento do povo trabalhador, mas gira sobretudo à volta de uma família e de tudo o que lhe acontece. É por vezes muito forte nas imagens e relatos.

Na minha estante está também "O Arco do Triunfo", de Erich Maria Remarque. Em Paris, vésperas da Segunda Guerra, Ravic (nome falso) é checo, trabalha como médico numa clínica, é clandestino e vive durante a noite, mas sempre com medo de ser apanhado e repatriado. São sobretudo comoventes as imagens dos quartos por onde Ravic vai passando, os monólogos que tem consigo mesmo, a vida desolada e quase sem sentido, e a paixão por Joan Madou...

Na minha mesinha de cabeceira está sempre o Eugénio de Andrade, ou o Eça, e o Calvin...
Obrigado ao CBS pelo desafio, e desculpas pela distracção.

24 junho 2007

A saudade está nos teus olhos,
candeias abertas à luz escura
de uma noite fria, o vento não pára,
o não estares aqui custa-me a cor
da minha pele, mostram-se os ossos
aos ossos do sol.

A saudade vê-se nos olhos,
no respirar pesado e grave,
o desânimo absoluto escurece
as paredes como a humidade,
o sorriso desaparece
do domínio dos lábios.

O desenho da saudade
está nos teus braços, quando
abraças o ar, o vazio,
a ausência de um corpo,
a saudade é uma luz
esquelética, sem cor,
perene. Saudade
é saudade.

10 junho 2007

Despidos, o meu corpo e o teu
encontram-se como aves
de primavera na primeira
luz fria da manhã.
Braço, língua, lábios, o teu ventre
é um pomar, as abelhas chegam
com o sol, vão beber o pólen
às flores, e eu vou com elas,
beber-te nas horas de sombra
e de escuridão.

As manhãs nascem tão breves,
polidas, eu não as vejo,
só tu observas aquela luz
fria que indistintamente
começa com o dia,
o frio lentamente cede lugar
ao calor de um primeiro dia
de Verão.
A música é quase sempre azul,
os teus olhos sempre castanhos.

Era uma noite fresca, orvalhada
num desses teus jardins,
uma vela morria queimando o ar,
o mesmo que tu respiravas,
nos lençóis azuis tu adormecias
num abandono presente,
vincando a tua pele na pele
dos lençóis,,
a noite era tua,
tu eras a noite, apetecia
adormecer na palidez
metálica do teu pescoço,
nas breves areias
do teu peito, apetecia
ficar neste silêncio
de morte,

e esquecer.

Liberdade

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...


Fernando Pessoa

09 junho 2007

Peço desculpa.
Vou abrir uma excepção. A começar agora.
Estou de férias. Acabou tudo. Ontem.
Obrigado a mim e a quem quer que tudo corra bem,
obrigado ao Beethoven e aos Smiths pela companhia
que me fizeram nas viagens pelo Código Civil, obrigado
ao Marx, que torna a economia política tão assustadora
e por isso tão interessante, obrigado ao prof. Vital Moreira
por ser tão engraçado na TV e nas aulas, obrigado
ao prof. Sousa Ribeiro por aquele recorte de jornal com
uma super-modelo semi-nua do outro lado, virado para
o auditório sorridente, obrigado à cafeína tomada várias
vezes ao dia. Obrigado ao Horatio Caine, ao Gil Grissom,
ao Conan O´Brien e ao Family Guy, à família Simpson.
Obrigado aos blocos de papel pautado, às canetas, que
escrevem, e por fim ao tempo, porque existe e nunca está
parado.
Peço desculpa, mas agora quero Verão. E livros,
e música sem ter numa sebenta o princípio e o fim,
o Direito como pretexto e como espectro cinzento vindo
da Twilight Zone, agora quero o não-fazer, o cheiro a Verão
num dia de calor ao abrir a janela, o mar como horizonte,
os dias intermináveis entre a praia e os amigos.
O trabalho compensa.
Peço desculpa, mas estou de férias.

29 maio 2007

V

Adormeço e volto a acordar. Talvez uma travagem, um movimento brusco na direcção, uma conversa, uma gargalhada me tivessem despertado, não interessa. Porque afinal era verdade, eu sonhei e esperava que fosse mentira, mas a verdade e a mentira são duas formas de contar as histórias, e andam muitas vezes de mãos dadas, entrelaçadas. Eu viajava, dizia, viajava à tua procura, tu partiste, tinha o Verão acabado e tu partiste, de manhã, de tarde, quem sabe já de noite, ninguém o poderia dizer, ninguém te viu, nem eu percebi que quando amanheceu não tinhas o teu cabelo na almofada, nem tu estavas ali. Abro os olhos porque a luz me obriga, por minha vontade tinha-os fechados, de pálpebras descansadas, se pudesse dormia dias inteiros até te descobrir à porta do quarto. Repara, estamos a meio caminho, à frente temos uma serra alta, aquela a que chamamos de candeeiros, porquê não sabemos, um dia haveremos de descobrir. É uma serra já muito velha, já muito gasta, algumas cadeiras à frente ouço dizer com um suspiro, É o tempo… O tempo, dizem-nos, Esse que destrói mais do que tudo o mais e não deixa nunca que o vejamos. Depois da serra estamos noutro mundo, a terra é outra, parece-nos, o país e outro, temos a impressão, mas apenas estamos do outro lado de uma serra que não é, de longe, das maiores deste planeta que é tão pequeno mas se julga tão grande, não, essas estão longe, muito longe, para as ver, é curioso, é preciso ir ao outro lado do mundo, mas depois da nossa serra, tratemo-la assim pois já a conhecemos há muitos, muitos anos, depois da nossa serra muda tudo, e no alto dela vivem ali umas nuvens que, quando alguém se lembra de lhes perguntar, respondem, Desde que sabemos, desde que nos lembramos, por isso choram, por isso chove sempre ali, do outro lado não, Não temos vizinhos, dizem, olhando o outro lado, uma planície que ali começa e quase nunca acaba e onde vivem, também desde sempre, alguns cedros, Alguns não, corrigem-nos, Muitos. Vivem ali, dizemos nós, muitos cedros naquela planície, Sempre as vimos ali, nunca nos falámos, dizem eles das nuvens suas vizinhas, estranha relação, estranha vizinhança. Mas não queremos saber mais, o que sabemos basta-nos, controlemos a nossa curiosidade, não podemos relatar tudo, tudo escrever, tudo contar. A meio da serra vimos, isolado, um grupo de pinheiros que ali tinha lançado ao chão as suas raízes, ali conversavam, ali se tinham deixado ficar distraidamente, ou não, ali discutiam assuntos de seu interesse, e que por isso não são da nossa conta, são assuntos de pinheiros, não dos bravos mas dos mansos, aqueles vivem noutros lugares, desde o tempo do rei poeta e lavrador, o sexto da tabela, preferem ajudar o homem a controlar as areias e a construir naus que os levassem pelos mares oceanos, bem diferentes em personalidade e sabedoria, estes, estes mansos de que estamos falando preferem as serras. Eram cinco os pinheiros, explicava-te eu, mas havia um, desde logo, e à vista desarmada, que era bem diferente dos outros, alto, muito alto, e magro, muito magro, de copa pequena e bem redonda lá no alto, os outros tinham alturas e copas semelhantes, para não dizer idênticas, para não dizer iguais, eram baixos, muito baixos, e gordos, muito gordos, mas aquele lá no alto, por ser único naquelas paragens, parecia dizer aos restantes, Descansai, não tenhais medo de ser diferentes, curioso ensinamento este, vindo de um pinheiro alto, muito alto, e magro, muito magro que ali procurava, afinal, justificar a sua diferença apaziguando os outros pinheiros, seus vizinhos e amigos, e assim eu e tu percebemos, nos poucos segundos em que observávamos aqueles pinheiros mansos, onde está e o que é a amizade, palavra que gastámos já tanto que não sabemos o que quer que significa, todos nós, não apenas tu e eu.