26 julho 2010

Sertã -- Oleiros -- Lagos
Edição revista e aumentada
as estradas de portugal
têm pior o serem de portugal.

Não me admira
que tenham ido para a guerra.
Afinal, as noites brancas
são dos soldados,
e eles têm nas botas
o arado desta terra.

23 julho 2010

Cesariny

a antonin artaud

I
Haverá gente com nomes que lhes caiam bem.
Não assim eu.
De cada vez que alguém me chama Mário
de cada vez que alguém me chama Cesariny
de cada vez que alguém me chama de Vasconcelos
sucede em mim uma contracção com os dentes
há contra mim uma imposição violenta
uma cutilada atroz porque atrozmente desleal.

Como assim Mário como assim Cesariny como assim
ó meu deus de Vasconcelos?
Porque é que querem fazer passar para o meu corpo
uma caricatura a todos os títulos porca?
Que andavam a fazer com a minha altura os pais pelos
baptistérios
para que eu recebesse em plena cara semelhante feixe
de estruturas
tão inqualificáveis quanto inadequadas
ao acto em mim sozinho como a vida puro
eu não sei de vocês eu não tenho nas mãos eu vomito
eu não quero
eu nunca aderi às comunidades práticas de pregar com
pregos
as partes mais vulneráveis da matéria

Eu estou só neste avanço
de corpos
contra corpos
Inexpiáveis

O meu nome se existe deve existir escrito nalgum lugar
«tenebroso e cantante» suficientemente glaciado e
horrível
para que seja impossível encontrá-lo
sem de alguma maneira enveredar pela estrada
Da Coragem
porque a este respeito - e creio que digo bem -
nenhuma garantia de leitura grátis
se oferece ao viandante

Por outro lado, se eu tivesse um nome
um nome que me fosse realmente o meu nome
isso provocaria
calamidades
terríveis
como um tremor de terra
dentro da pele das coisas
dos astros
das coisas
das fezes
das coisas

II
Haverá uma idade para nomes que não estes
haverá uma idade para nomes
puros
nomes que magnetizem
constelações
puras
que façam irromper nos nervos e nos ossos
dos amantes
inexplicáveis construções radiosas
prontas a circular entre a fuligem
de duas bocas
puras

Ah não será o esperma torrencial diuturno
nem a loucura dos sábios
nem a razão de ninguém
Não será mesmo quem sabe
ó único mestre vivo
o fim da pavorosa dança dos corpos
onde pontificaste
de martelo na minha mão

Mas haverá uma idade em que serão esquecidos por
completo
os grandes nomes opacos que hoje damos às coisas

Haverá
um acordar

Mário Cesariny

21 julho 2010

Bukowski

So You Want To Be A Writer

if it doesn't come bursting out of you
in spite of everything,
don't do it.
unless it comes unasked out of your
heart and your mind and your mouth
and your gut,
don't do it.
if you have to sit for hours
staring at your computer screen
or hunched over your
typewriter
searching for words,
don't do it.
if you're doing it for money or
fame,
don't do it.
if you're doing it because you want
women in your bed,
don't do it.
if you have to sit there and
rewrite it again and again,
don't do it.
if it's hard work just thinking about doing it,
don't do it.
if you're trying to write like somebody
else,
forget about it.
if you have to wait for it to roar out of
you,
then wait patiently.
if it never does roar out of you,
do something else.

if you first have to read it to your wife
or your girlfriend or your boyfriend
or your parents or to anybody at all,
you're not ready.

don't be like so many writers,
don't be like so many thousands of
people who call themselves writers,
don't be dull and boring and
pretentious, don't be consumed with self-
love.
the libraries of the world have
yawned themselves to
sleep
over your kind.
don't add to that.
don't do it.
unless it comes out of
your soul like a rocket,
unless being still would
drive you to madness or
suicide or murder,
don't do it.
unless the sun inside you is
burning your gut,
don't do it.

when it is truly time,
and if you have been chosen,
it will do it by
itself and it will keep on doing it
until you die or it dies in you.

there is no other way.

and there never was.

Charles Bukowski

09 julho 2010

E contemplávamos longamente a eternidade com os olhos já feridos da luz que caía das pedras do castelo.
Pelas escadas vagamente inclinadas respiravam ainda, na frescura das pesadas pedras de mármore que um dia receberão os nossos ombros, os passos que déramos, há pouco mais de uma hora, para as subirmos, no cimo dessas escadas surgiu uma porta que tivemos de abrir e no fim de tudo quatro ombros quase simultaneamente transpuseram o obstáculo final, e no fim de tudo a criação do mundo e dos afectos, essa misteriosa natureza seminal e refractária, todo o acto de criação tem na sentença um acto de destruição, final e irredutível, lá fora um dia quente ardia e subia à copa das árvores para contemplar a cidade que, durante a tarde, havia tomado ao fim de semanas de cerco, foi assim que aconteceu quando o general subiu o rio à procura dos Buendia, Macondo não estava no mapa que levava, e foi nessa selva que sepulta, nessa selva onde o sol apenas deita, ao erguer-se, a luz mais baça da manhã, foi nesse longínquo deserto sem olhos que o general se viu na sombra do galeão, faltavam quatro dias para o último dos cem anos.
Eu queria que apenas todos os rios se abrissem para os meus olhos, não é pedir muito, bem sei que rios há muitos, mas estes olhos são apenas dois, chegam para te ver, chegaram para o poeta ver, debaixo de um sol peninsular, a catedral de burgos, dois olhos chegam para lentamente fazer desaparecer um vestido de verão, algodão, algodão, puro vestido de verão com dois joelhos no rés-do-chão.

Ibéria

Nesse dia em que foste da côr
de uma muralha
e debaixo dela, coberta por uma luz medieval
acabaste por dizer,

Ibéria,
Andaluza mãe asturiana,
pelas tuas planícies
ouve-se chorar uma península inteira,
pelos teus olhos choram
as lágrimas impossíveis
de uma batalha banal.

E essa rua,
estreita como dois ombros
o podem ser,
há-de ser a margem de um rio
onde irei, pela tarde,
recomeçar.

25 abril 2010

Abril!



Poema: António Gedeão
Música: José Niza


Venho da terra assombrada,
Do ventre de minha mãe;
Não pretendo roubar nada
Nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido
Por me trazerem aqui,
Que eu nem sequer fui ouvido
No acto de que nasci.

Trago boca para comer
E olhos para desejar.
Tenho pressa de viver,
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
Não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
Solta o pano rumo ao norte;
Meu desejo é passaporte
Para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
Nem marés que não convenham,
Nem forças que me molestem,
Correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,
Que a Natureza sou eu,
E as forças da Natureza
Nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.

Abril!

Abril!

Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!

Ary dos Santos, "As Portas Que Abril Abriu", 1975,
da 1ª edição, autografa pelo autor, que hoje dorme comigo.

15 abril 2010

o poema em Sol e em Ré Menor difícil de pôr em verso

Oxalá seja essa cor a tua cor verdadeira, oxalá sejamos amantes sem tecto, amantes sem terra e sem dinheiro, porque teremos nós de existir tão perto do fim do mundo, porque serão as manhãs cada vez mais curtas, a morte não te há-de matar, os deuses não te hão-de levar, eu sonho com muitos sábados de sol em que saímos ao sol e debaixo do sol pedimos mais sol que venha queimar-nos os joelhos, e a metade verde dos braços, eu sonho ainda outras vezes com um velho fiat 127 azul debaixo do sol de um sábado de sol e a música no rádio a tocar num dia de glória, a glória será não esquecer tudo isto, tudo isto e tudo isto é muito pouco para se esquecer, terás os teus dias na sétima cor que invadiu a península, ao sétimo dia de marcha os pés cansaram-se, as mãos não puderam tapar mais os olhos, que cegaram, e a música renasceu na fronteira entre a montanha e a planície, quem poderá dizer, a morte não te há-de matar, viverás, oxalá sejamos amantes quando viveres, diz se vives por favor, ou se já nasceste, quero ir ver-te onde as manhãs não forem tão curtas, encontrar-te-ei e poderemos então falar, respirar a mesma flor na mesa de cabeceira, ouve, estaremos sós?

o poema ínsone

A loucura descera enfim
pelo braço de prata
de duas espadas,
e vimos à beira de um lago
a certeza apolínea,
a febre dos dias claros
que subia pelos olhos

eu peço um pouco mais de ar
para respirar a tarde
que vai aumentado a dor
o sinal nocturno da tua presença
que horas são,
quando vens,
que dedos tão frios
me vêm abraçar
pelo equador
dos meus braços?

08 abril 2010

Para declarar a morte ao sol é preciso
olhar o astro de frente,
olhar nos olhos a estrela poente.
Para declarar o regresso
dos dias é preciso acordar
com os primeiros braços frios
da manhã. é tudo o que peço
e preciso para declarar a morte ao sol.

Assim, directamente,
e assim, cegando a luz dos dias
eu declaro a morte ao sol
na chama do ocidente.

No fim de uma rua

Arde, arde, arde um dia de inverno numa árvore no fundo da rua, um sol em glória poente viera ali deitar-se, mas que dizer dessas chamas vespertinas, essas palaras não existem, Rua, rio, As margens de uma rua são as paredes que se erguem tão altas, umas brancas, outras escuras, outras ainda permanecem na sombra, aí onde os braços da claridade não chegam, essas ruas não existem, são rios de sentido único e oceânico, esta começa onde acaba e acaba onde começa, tem no fim dela curiosas casas se dispõem em anfiteatro e assistem ao espectáculo de fogo. No fim de uma rua uma árvore ardia.

07 abril 2010

Bron-Yr-Aur

Messi 4; Arsenal 1

Cada vez me convenço mais de que o Messi é o fim da história... e eu que me esforcei tanto e durante tantos anos para o procurar na superestrutura económica e coisas desse género que são uma seca de estudar mas que depois de compreendidas até dão algum jeito para perceber que isto tudo vai, sempre, repetir-se, como diria o Rui Santos, ad nauseam... E mesmo sendo o fim da história, há qualquer coisa no Messi de nebuloso, indefinido, o que não ajuda mesmo nada à pacificação das almas.

28 março 2010

Poema em Linha Recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenha calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenha agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe . todos eles príncipes na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que, contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ò príncipes, meus irmãos,
Arre estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos . mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

21 março 2010

O meu poema em linha recta, com perdão do senhor Álvaro de Campos

com que voz, com que voz humana havemos de gritar, lá em baixo, caindo suspenso dos rochedos da côr da cinza, um rio respira, respira sempre, e eu apenas vejo os salgueiros, dois, três, e muitos outros salgueiros que ali se fixaram, nas noites de verão ouço-os a conversar, e eu desejo a pouco e pouco parecer-me com um rio, mas um que tenha dois braços como margens, e que as margens sejam os teus braços e que nas minhas margens cresçam olhos verdes salgueiros, e com a voz desses olhos verdes salgueiros respirar a doce calma do fundo do mar.

28 fevereiro 2010

Se apenas, repito, se apenas o último combóio da noite pudesse atravessar a neve e o gelo

No ano que vem, em jerusalem, as palavras que disseres repetir-se-ão, entre colinas onde esparsas oliveiras ainda resistem aos ventos quentes do levante, palestina revisitada, La folie, c'est la folie, os olhos amendoados viram um sol doirado a escoar-se nos horizontes mediterrânicos, o fim de um dia tão próximo, e nós que não cabemos na noite que chega, há lugares que não visitamos, a muralha de salomão destruída pelos aríetes, dois corpos quatro mãos e espadas de fogo na ponta dos dedos a rasgar-nos os lábios, e o sangue caído gota a gota na neve, na longínqua neve de um inverno russo do mais russo que pode haver, bem dentro da estepe onde o chão endurece e rejeita qualquer esforço de sedentarização, não queiras, repito para que estas pedras finalmente o ouçam, não queiras atravessar os montes, os rios, os parentes próximos do deserto, não querias cegar-te com o reflexo de um sol que não perdoa, que te queima primeiro os ombros para que fiques ainda mais desejável, apresento-te a língua e os lábios tomados pela sede, o começo e o fim de tudo, a alma sublimada por um retrato a sépia, o começo e o fim de tudo, a morte é o absoluto do opaco, perderás a vida, perderás a vida se quiseres atravessar os montes, os rios e os parentes próximos do deserto, lembra o que aconteceu à muralha de salomão, após o cerco caiu com os embates de um aríete da cor de um sol da judeia, e então terás de seguir-me para onde for, hei-de resgatar-te nas margens do rio, sabes que rio é esse, tu o sabes bem,

se apenas o último expresso do oriente pudesse atravessar as montanhas da anatólia, descer até ao crescente, descer até ao fértil campo onde nasceram as religiões,

quando o general subiu o rio, camelos, mamelucos marchando, cavalos árabes, mulheres, crianças, homens, Olhai, do alto destas varandas quarenta olhos vos contemplam, outros quarenta vos desejam, na cidade todos souberam quando chegaste, as palavras que havias dito repetiram-se nas mesmas colinas onde agora nenhuma oliveira resiste, queimou-as o sol doirado da palestina, tragou-as a língua salgada do horizonte mediterrâneo, agora estão para lá das colunas de hércules, o fim e o começo deste e do novo mundo, La folie, oui c'est la folie.

21 fevereiro 2010

Do not go gentle into that good night

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

Dylan Thomas, poeta galês

18 fevereiro 2010

Starry Night II

A cidade ainda me destrói,
Vincent,
e nenhuma rua que conheça os meus
passos se mantém intacta.

Recomeço
e a cidade ainda me cega
cem noites escuras desceram
as colinas onde a lua não repousa,
apenas os teus olhos
de um belo azul-da-china,
Vincent,
abertos para a noite
suspensa das estrelas que a povoam.

A lucidez ainda me destrói,
Vincent,
que noite foi essa que te pediu
a vida, ninguém soube ouvir-te,
bastava a escuridão no fundo
dos teus olhos.

que noite quis que caminhasses
com ela,
agora percebo quando dizias
a cidade ainda me destrói,
e depois partiste
debaixo dessa noite povoada
por rebentos de prata.

20 dezembro 2009

She's Young

she's young, she said,
but look at me,
I have pretty ankles,
and look at my wrists, I have pretty
wrists
o my god,
I thought it was all working,
and now it's her again,
every time she phones you go crazy,
you told me it was over
you told me it was finished,
listen, I've lived long enough to become a
good woman,
why do you need a bad woman?
you need to be tortured, don't you?
you think life is rotten if somebody treats you
rotten it all fits,
doesn't it?
tell me, is that it? do you want to be treated like a
piece of shit?
and my son, my son was going to meet you.
I told my son
and I dropped all my lovers.
I stood up in a cafe and screamed
I'M IN LOVE,
and now you've made a fool of me. . .
I'm sorry, I said, I'm really sorry.
hold me, she said, will you please hold me?
I've never been in one of these things before, I said,
these triangles. . .
she got up and lit a cigarette, she was trembling all
over.she paced up and down,wild and crazy. she had
a small body.her arms were thin,very thin and when
she screamed and started beating me I held her
wrists and then I got it through the eyes:hatred,
centuries deep and true. I was wrong and graceless and
sick. all the things I had learned had been wasted.
there was no creature living as foul as I
and all my poems were
false.

Charles Bukowski

03 dezembro 2009

Há um país em que existem montanhas, nas montanhas erguem-se cem vezes cem escarpas e nas escarpas mil vezes mil cedros as povoam, desde os planaltos mais remotos até onde as brisas frescas daquele verde mar, em baixo, encontram as colinas e as praias desertas. Quando fores nesse batel, nau, caravela, couraçado, iate, cruzeiro, leva um cedro contigo, leva uma dessas árvores contigo, com ela estarás sempre à porta de casa, encostando um ombro entre a sombra e a claridade, olhando as escadas que te levam onde já sabes que te levam, mas sempre essa subida a guardar mistérios, a reter segredos, Que segredos, perguntas tu, e a resposta não tarda, pelo menos não deve tardar, porque não é segredo, não é segredo absolutamente nenhum que depois daquela porta todo o mundo é silêncio, melhor pensando, silêncio não será propriamente, um dia descias a rua, levando-te os teus passos, pesados porque descias, pesados do peso de existir, Que palavra, existir, Sim, que palavra, descias então a rua e depois aproximaste-te da porta, a mão escorregou pelo bolso, pertíssimo do preciso local por onde até há pouco meus lábios se perderam, os dedos pegaram na chave que é a que te dei para que pudesses abrir a porta, o pé esquerdo pisou finalmente o primeiro degrau, não sei de onde me veio esta crença de que foi o pé esquerdo o primeiro, são coisas que se sabem, depois o direito, decidido, por fim os teus ombros transpuseram a fronteira entre um mundo e o outro, e depois silêncio, afinal a resposta sempre tardou, tardou umas poucas linhas, quem as ler julgará que esqueço a resposta, mas prometo-te, não te faltará uma resposta, Que segredos, creio ter sido a tua pergunta, e onde os teus ombros estão é só segredo, perdão, é só siléncio, mas pensando melhor não é bem silêncio, é outra coisa, sim, outra coisa, com esta ausência de rigor que tão mal fica na pretensão literária, Uma coisa será, mas o quê, Não faças mais perguntas do que as que posso responder, por onde me levam as palavras não sei, neste momento a minha certeza é apenas uma e simples, a de que não é silêncio o que existe depois daquela porta e antes das escadas que tantas vezes subiste, é muito mais do que silêncio, é o outro modo de ser de todas as coisas, Do Universo, Sim, do Universo, se quiseres, a quarta, a quinta, a sexta até à décima primeira dimensão, desde as pedras antiquíssimas que são as ombreiras da porta, as lajes azuis onde ainda se conserva um frio glacial que já não existe, e o silêncio, que assim devemos chamar o outro modo de ser de todas as coisas, a lembrar o fogo primordial, essa combustão criadora acesa pelo lume de dois corpos que se consomem numa explosão de beijos, facas e gumes, a lembrar a fresca brisa pacificadora que nos trás as palavras que dizemos, a lembrar o chão que os passos que damos, sucessivamente, rua acima, rua abaixo para nos cruzarmos com as sombras e vultos de nós próprios escalando as árvores do desejo, e a lembrar, por fim, não te esqueças, a água, o mar para onde todos voltamos, o mar onde o ciclo se esgota e renova pelos milénios que foram e hão-de vir, e o silêncio, ou o outro modo de ser de todas as coisas.

02 dezembro 2009

Discurso Sobre a Reabilitação do Real Quotidiano

no país no país no país onde os homens
são só até ao joelho
e o joelho que bom é só até à ilharga
conto os meus dias tangerinas brancas
e vejo a noite Cadillac obsceno
a rondar os meus dias tangerinas brancas
para um passeio na estrada Cadillac obsceno


e no país no país e no país país
onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço
e o pescoço que bom é só até ao artelho
ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,
chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,
recordo os meus amores liames indestrutíveis
e vejo uma panóplia cidadã do mundo
a dormir nos meus braços liames indestrutíveis
para que eu escreva com ela, só até à ilharga,
a grande história de amor só até ao pescoço


e no pais no pais que engraçado no pais
onde o poeta o poeta é só até à plume
e a plume que bom é só até ao fantasma
ao passo que o fantasma - ora ai está -
não é outro senão a divina criança (prometida)
uso os meus olhos grandes bons e abertos
e vejo a noite (on ne passe pas)


diz que grandeza de alma. Honestos porque
Calafetagem por motivo de obras.
relativamente queda de água
e já agora há muito não é doutra maneira
no pais onde os homens são só até ao joelho
e o joelho que bom está tão barato

Mário Cesariny in Manual de Prestidigitação

27 novembro 2009

Melquíades - José Arcadio Buendía

Fulcanelli (1839 – 1953?) is a pseudonym of a late 19th century French Alchemist and author whose identity is still unknown. Much mystery surroundshis life and works – leading to him being branded a cultural phenomenon. One of the more extravagant tales retells how his devoted pupil (Eugene Canseliet) successfully transformed 100 grams of lead into gold with the use of a small quantity of “Projection Powder” given to him by his teacher.

***

According to Canseliet, his last encounter with Fulcanelli happened in 1953, when he went to Spain and was taken to a castle high in the mountains for a rendezvous with his former master. Canseliet had known Fulcanelli as an old man in his 80s but now the Master had grown younger: he was a man in his 50s. The reunion was brief and Fulcanelli once again disappeared leaving no trace of his whereabouts. At this time, Fulcanelli would have been 114 years old.

***

É ao mesmo tempo uma desilusão e uma surpresa, ter encontrado os putativos Melquíades e José Arcadio Buendia do mundo físico, fora do realismo mágico construído em "Cem Anos de Solidão". O meu fascínio permanece intacto apesar de, ao que parece, existir gente que consegue transformar chumbo em ouro. Com ou sem estojos de alquimía.


"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo."

16 novembro 2009

Pornografia emocional

Alguém, cuja cabeça só tem dentro um monte de lixo, deve achar muito engraçada a pornografia emocional sob a forma de programa de televisão que é o "Uma canção para ti", da TVI... Há uns minutos atrás, criou-se naquele programa, já perto do fim, um cenário (digo isto com muitas reservas) digno de ser visto: perante o júri 7 crianças esperavam a votação - depois dos votos, que, diga-se foram todos para uma rapariga mais crescidinha, um miúdo de 5 ou 6 anos largou a chorar convulsivamente, e continuou, naturalmente por nem um voto ter conseguido, coitadinho dele, e dos papás, e continuou, dizia, enquanto todos os concorrentes cantavam a canção que introduzia o genérico final - na plateia uns batiam palmas, outros choravam, mas todos tinham o olhar muito, muito longe dali... repito, isto é pornografia emocional, e uma sujeição intolerável a níveis de pressão que até um adulto tem dificuldade em gerir, e juro que qualquer dia entro no programa e atiro tomates e ovos a toda a gente - menos às crianças, que não têm culpa nenhuma dos papás que têm...

01 novembro 2009

Splendour in the grass

What though the radiance
which was once so bright
Be now for ever taken from my sight,
Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass,
of glory in the flower,
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind;
In the primal sympathy
Which having been must ever be;
In the soothing thoughts that spring
Out of human suffering;
In the faith that looks through death,
In years that bring the philosophic mind.


William Wordsworth

19 outubro 2009

Sete anos de pastor Jacob servia

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

Luís de Camões