"Tudo era claro, jovem, alado. O mar estava perto. Puríssimo. Doirado." - Eugénio de Andrade
16 março 2011
04 fevereiro 2011
O'Neill, Meditação na pastelaria
Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.
Nunca se sabe quando começa a insolência!
Que tempo este, meu Deus, uma senhora
Está sempre em perigo e o perigo
Em cada rua, em cada olhar,
Em cada sorriso ou gesto
De boa-educação!
A inspecção irónica das pernas,
Eis o que os homens sabem oferecer-nos,
Inspecção demorada e ascendente,
Acompanhada de assobios
E de sorrisos que se abrem e se fecham
Procurando uma fresta, uma fraqueza
Qualquer da nossa parte…
*
Mas uma senhora é uma senhora.
Só vê a malícia quem a tem.
Uma senhora passa
E ladrar é o seu dever — se tanto for preciso!
O pó de arroz:
Horrível!
O bâton:
Igual!
O amor de Raul é já uma saudade,
Foi sempre uma saudade…
(O escritório
Toma-lhe todo o tempo?
Desconfio que não…)
Filhos tivemos um:
Desapareceu…
E já nem sei chorar!
*
Chorar...
Como eu queria poder chorar!
Chorar encostada a uma saudade
Bem maior do que eu,
Que não fosse esta tristeza
Absurda de cada dia:
Unha
Quebrada de melancolia...
Perdi tudo, quase tudo...
Hoje,
Resta-me a devoção
E este pequeno inteligente cão.
Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.
01 fevereiro 2011
27 janeiro 2011
12 janeiro 2011
15 outubro 2010
David
29 setembro 2010
22 setembro 2010
Traz-me um lago, os teus olhos,
traz-me a pele que tu habitas,
Beatriz.
Os incêndios nocturnos
que iluminam as janelas,
traz-me esses olhos verdes
que tu habitas.
Diz-me a verdade,
Beatriz,
traz-me a verdade com as tuas
mãos de veludo.
Traz-me duas mãos que subam
aos incêndios ---
essa é outra maneira de ser egípcio.
Que fazer com o desgosto
das coisas que têm luz,
Beatriz --- traz-me o inverno
numa fúria clandestina,
a verdade inteira, cristalina,
traz-me um lago, a pele
que tu habitas.
23 agosto 2010
10 agosto 2010
30 julho 2010
26 julho 2010
23 julho 2010
Cesariny
I
Haverá gente com nomes que lhes caiam bem.
Não assim eu.
De cada vez que alguém me chama Mário
de cada vez que alguém me chama Cesariny
de cada vez que alguém me chama de Vasconcelos
sucede em mim uma contracção com os dentes
há contra mim uma imposição violenta
uma cutilada atroz porque atrozmente desleal.
Como assim Mário como assim Cesariny como assim
ó meu deus de Vasconcelos?
Porque é que querem fazer passar para o meu corpo
uma caricatura a todos os títulos porca?
Que andavam a fazer com a minha altura os pais pelos
baptistérios
para que eu recebesse em plena cara semelhante feixe
de estruturas
tão inqualificáveis quanto inadequadas
ao acto em mim sozinho como a vida puro
eu não sei de vocês eu não tenho nas mãos eu vomito
eu não quero
eu nunca aderi às comunidades práticas de pregar com
pregos
as partes mais vulneráveis da matéria
Eu estou só neste avanço
de corpos
contra corpos
Inexpiáveis
O meu nome se existe deve existir escrito nalgum lugar
«tenebroso e cantante» suficientemente glaciado e
horrível
para que seja impossível encontrá-lo
sem de alguma maneira enveredar pela estrada
Da Coragem
porque a este respeito - e creio que digo bem -
nenhuma garantia de leitura grátis
se oferece ao viandante
Por outro lado, se eu tivesse um nome
um nome que me fosse realmente o meu nome
isso provocaria
calamidades
terríveis
como um tremor de terra
dentro da pele das coisas
dos astros
das coisas
das fezes
das coisas
II
Haverá uma idade para nomes que não estes
haverá uma idade para nomes
puros
nomes que magnetizem
constelações
puras
que façam irromper nos nervos e nos ossos
dos amantes
inexplicáveis construções radiosas
prontas a circular entre a fuligem
de duas bocas
puras
Ah não será o esperma torrencial diuturno
nem a loucura dos sábios
nem a razão de ninguém
Não será mesmo quem sabe
ó único mestre vivo
o fim da pavorosa dança dos corpos
onde pontificaste
de martelo na minha mão
Mas haverá uma idade em que serão esquecidos por
completo
os grandes nomes opacos que hoje damos às coisas
Haverá
um acordar
Mário Cesariny
21 julho 2010
Bukowski
if it doesn't come bursting out of you
in spite of everything,
don't do it.
unless it comes unasked out of your
heart and your mind and your mouth
and your gut,
don't do it.
if you have to sit for hours
staring at your computer screen
or hunched over your
typewriter
searching for words,
don't do it.
if you're doing it for money or
fame,
don't do it.
if you're doing it because you want
women in your bed,
don't do it.
if you have to sit there and
rewrite it again and again,
don't do it.
if it's hard work just thinking about doing it,
don't do it.
if you're trying to write like somebody
else,
forget about it.
if you have to wait for it to roar out of
you,
then wait patiently.
if it never does roar out of you,
do something else.
if you first have to read it to your wife
or your girlfriend or your boyfriend
or your parents or to anybody at all,
you're not ready.
don't be like so many writers,
don't be like so many thousands of
people who call themselves writers,
don't be dull and boring and
pretentious, don't be consumed with self-
love.
the libraries of the world have
yawned themselves to
sleep
over your kind.
don't add to that.
don't do it.
unless it comes out of
your soul like a rocket,
unless being still would
drive you to madness or
suicide or murder,
don't do it.
unless the sun inside you is
burning your gut,
don't do it.
when it is truly time,
and if you have been chosen,
it will do it by
itself and it will keep on doing it
until you die or it dies in you.
there is no other way.
and there never was.
09 julho 2010
Pelas escadas vagamente inclinadas respiravam ainda, na frescura das pesadas pedras de mármore que um dia receberão os nossos ombros, os passos que déramos, há pouco mais de uma hora, para as subirmos, no cimo dessas escadas surgiu uma porta que tivemos de abrir e no fim de tudo quatro ombros quase simultaneamente transpuseram o obstáculo final, e no fim de tudo a criação do mundo e dos afectos, essa misteriosa natureza seminal e refractária, todo o acto de criação tem na sentença um acto de destruição, final e irredutível, lá fora um dia quente ardia e subia à copa das árvores para contemplar a cidade que, durante a tarde, havia tomado ao fim de semanas de cerco, foi assim que aconteceu quando o general subiu o rio à procura dos Buendia, Macondo não estava no mapa que levava, e foi nessa selva que sepulta, nessa selva onde o sol apenas deita, ao erguer-se, a luz mais baça da manhã, foi nesse longínquo deserto sem olhos que o general se viu na sombra do galeão, faltavam quatro dias para o último dos cem anos.
Eu queria que apenas todos os rios se abrissem para os meus olhos, não é pedir muito, bem sei que rios há muitos, mas estes olhos são apenas dois, chegam para te ver, chegaram para o poeta ver, debaixo de um sol peninsular, a catedral de burgos, dois olhos chegam para lentamente fazer desaparecer um vestido de verão, algodão, algodão, puro vestido de verão com dois joelhos no rés-do-chão.
Ibéria
de uma muralha
e debaixo dela, coberta por uma luz medieval
acabaste por dizer,
Ibéria,
Andaluza mãe asturiana,
pelas tuas planícies
ouve-se chorar uma península inteira,
pelos teus olhos choram
as lágrimas impossíveis
de uma batalha banal.
E essa rua,
estreita como dois ombros
o podem ser,
há-de ser a margem de um rio
onde irei, pela tarde,
recomeçar.
25 abril 2010
Abril!
Poema: António Gedeão
Música: José Niza
Venho da terra assombrada,
Do ventre de minha mãe;
Não pretendo roubar nada
Nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
Por me trazerem aqui,
Que eu nem sequer fui ouvido
No acto de que nasci.
Trago boca para comer
E olhos para desejar.
Tenho pressa de viver,
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
Não tenho tempo a perder.
Minha barca aparelhada
Solta o pano rumo ao norte;
Meu desejo é passaporte
Para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
Nem marés que não convenham,
Nem forças que me molestem,
Correntes que me detenham.
Quero eu e a Natureza,
Que a Natureza sou eu,
E as forças da Natureza
Nunca ninguém as venceu.
Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.
Abril!
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!
Ary dos Santos, "As Portas Que Abril Abriu", 1975,
da 1ª edição, autografa pelo autor, que hoje dorme comigo.
15 abril 2010
o poema em Sol e em Ré Menor difícil de pôr em verso
o poema ínsone
pelo braço de prata
de duas espadas,
e vimos à beira de um lago
a certeza apolínea,
a febre dos dias claros
que subia pelos olhos
eu peço um pouco mais de ar
para respirar a tarde
que vai aumentado a dor
o sinal nocturno da tua presença
que horas são,
quando vens,
que dedos tão frios
me vêm abraçar
pelo equador
dos meus braços?
08 abril 2010
olhar o astro de frente,
olhar nos olhos a estrela poente.
Para declarar o regresso
dos dias é preciso acordar
com os primeiros braços frios
da manhã. é tudo o que peço
e preciso para declarar a morte ao sol.
Assim, directamente,
e assim, cegando a luz dos dias
eu declaro a morte ao sol
na chama do ocidente.
No fim de uma rua
07 abril 2010
Messi 4; Arsenal 1
28 março 2010
Poema em Linha Recta
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenha calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenha agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe . todos eles príncipes na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que, contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ò príncipes, meus irmãos,
Arre estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos . mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos
21 março 2010
O meu poema em linha recta, com perdão do senhor Álvaro de Campos
28 fevereiro 2010
No ano que vem, em jerusalem, as palavras que disseres repetir-se-ão, entre colinas onde esparsas oliveiras ainda resistem aos ventos quentes do levante, palestina revisitada, La folie, c'est la folie, os olhos amendoados viram um sol doirado a escoar-se nos horizontes mediterrânicos, o fim de um dia tão próximo, e nós que não cabemos na noite que chega, há lugares que não visitamos, a muralha de salomão destruída pelos aríetes, dois corpos quatro mãos e espadas de fogo na ponta dos dedos a rasgar-nos os lábios, e o sangue caído gota a gota na neve, na longínqua neve de um inverno russo do mais russo que pode haver, bem dentro da estepe onde o chão endurece e rejeita qualquer esforço de sedentarização, não queiras, repito para que estas pedras finalmente o ouçam, não queiras atravessar os montes, os rios, os parentes próximos do deserto, não querias cegar-te com o reflexo de um sol que não perdoa, que te queima primeiro os ombros para que fiques ainda mais desejável, apresento-te a língua e os lábios tomados pela sede, o começo e o fim de tudo, a alma sublimada por um retrato a sépia, o começo e o fim de tudo, a morte é o absoluto do opaco, perderás a vida, perderás a vida se quiseres atravessar os montes, os rios e os parentes próximos do deserto, lembra o que aconteceu à muralha de salomão, após o cerco caiu com os embates de um aríete da cor de um sol da judeia, e então terás de seguir-me para onde for, hei-de resgatar-te nas margens do rio, sabes que rio é esse, tu o sabes bem,
se apenas o último expresso do oriente pudesse atravessar as montanhas da anatólia, descer até ao crescente, descer até ao fértil campo onde nasceram as religiões,
quando o general subiu o rio, camelos, mamelucos marchando, cavalos árabes, mulheres, crianças, homens, Olhai, do alto destas varandas quarenta olhos vos contemplam, outros quarenta vos desejam, na cidade todos souberam quando chegaste, as palavras que havias dito repetiram-se nas mesmas colinas onde agora nenhuma oliveira resiste, queimou-as o sol doirado da palestina, tragou-as a língua salgada do horizonte mediterrâneo, agora estão para lá das colunas de hércules, o fim e o começo deste e do novo mundo, La folie, oui c'est la folie.
21 fevereiro 2010
Do not go gentle into that good night
Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.
Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.
Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.
Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.
Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.
And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.






