17 fevereiro 2008

Do amor (um assunto escabroso)

"- Vossa Excelência decerto, sr. Sousa Neto, sabe o que diz Proudhon?
- Não me recordo textualmente, mas...
- Em todo o caso Vossa Excelência conhece perfeitamente o seu Proudhon?
O outro, muito secamente, não gostando decerto daquele interrogatório, murmurou que Proudhon era um autor de muita nomeada.
Mas o Ega insistia, com uma impertinência pérfida:
-Vossa Excelência leu evidentemente, como nós todos, as grandes páginas de Proudhon sobre o amor?
O sr Neto, já vermelho, pousou a chávena sobre a mesa. E quis ser sarcástico, esmagar aquele moço tão literário, tão audaz.
- Não sabia - disse ele com um sorriso infinitamente superior - que esse filósofo tivesse escrito sobre assuntos escabrosos!
Ega atirou os braços ao ar, consternado:
- Oh! sr Sousa Neto! Então Vossa Excelência, um chefe de família, acha o amor um assunto escabroso?!
O sr. Neto encordoou. E muito direito, muito digno, falando do alto da sua considerável posição burocrática:
- É meu costume, sr Ega, não entrar nunca em discussões, e acatar todas as opiniões alheias, mesmo quando elas sejam absurdas..."

31 dezembro 2007

I've lost eu perdi j'ai perdu

I´ve lost eu perdi j'ai perdu
le froid o frio the cold
de duas mãos of two hands de deux mains
a exactidão dos teus joelhos
your arms tes bras os teus braços
enlaçando-me o pescoço
e a tua boca os teus lábios
tão perto so close tellement proches.

I've lost eu perdi j'ai perdu
todas as letras do teu nome
your name ton nombre, Diana,
eu sei que as devo ter guardado num bolso
ou dentro das palavras the words les mots
que tu nunca never jamais me disseste,
Diana, Diana, Diana.

I've lost eu perdi j'ai perdu
um rio a river un rivière
uma margem esquerda povoada
de salgueiros des saules of willows
toda a tarde eu esperei que a tarde viesse
e afinal ela veio elle a venu she came
sem que eu soubesse que a cor
dos seus olhos ses yeux her eyes era verde.

A Mário Cesariny

28 dezembro 2007

a pillow of winds

Hora morta, hora de Sol,
hora fugidia, as tuas horas
crepitam na multidão de fogo de uma lareira.
É pelo fogo que ardes,
é pelo fogo que a tua beleza
impura
sublima
acima de um mar sem horizonte,
ou um horizonte verde.
Numa hora cabe o teu corpo,
numa hora cabe o meu,
e cabe um girassol,

a pillow of winds -
sleepy time when I lie
with my love by my side
and she's breathing low
and the candle dies

numa hora cabe o brilho líquido
dos teus olhos febris,
numa hora longa de insónia escura
acontecem
estrelas
nebulosas
super-novas no meu tecto,
disse já que na escuridão tudo se completa,
tudo se ausenta
e tudo se concentra
numa hora breve de prazer, de prazer tectónico,
acontecem
águas fundas
atlânticas
corrente do Golfo nas palavras
(disse palavras?)
nas palmas das minhas mãos.
Eu me penitencio,
meu lago rosado, minha oculta maré,
minha árvore dormente dominando a colina,
neve caída manchada de lama,
eu dei-te a vida num beijo,
eu tirei-te a vida num beijo,
mas eu não desejo, eu não desejei nunca
o poder absoluto, esse,
o de ter nos lábios a tua própria existência,
meu cravo de fogo-fátuo,
leão de prata de Versalhes com a juba dourada,
minha febre-diamante,
corpo de mármore perpétuo osculado de mim,
eu me penitencio.
Eu não queria matar,
queria apenas viver...

24 dezembro 2007

24/25


Feliz Natal. A todos os que passam por cá.

segredo

Eu não queria dizer-te,
Os corpos juntam-se no ar frio da noite,
Mas o meu corpo não é só teu
Debaixo da frescura dos lençóis.

O poema que eu nunca fui,
que eu nunca tive aberto em mim
como um livro, uma flor
de madrugada, um cravo que
tingisse de vermelho o céu,
foste tu,
és a outra cor do escuro,
estes ombros são teus,
a respiração é nossa,
só nossa, de noite,
pela noite, com a noite.

Peço-te, fica mais um pouco, não me deixes,
demora-te, deixa ao menos um cabelo
no meu peito, é uma pena teres de partir,
o frio não espera, tens nas mãos as armas
do desejo, o teu corpo nu, o cabelo pelas costas
sacode chicote o ar à tua volta
preso o fogo o grito saudade
tu não me ouves, o meu cachecol comprido
as minhas luvas
o meu sémen dentro de ti,
peço-te, fica mais um pouco, não me deixes,
deixa cair o meu cachecol, deixa-o deslizar
pelo teu pescoço, sinuoso perfil
cinzel mármore escultor,
eu quero beber essa água beijos saliva perfume
pelo cálice do teu sexo aveludado,
não há estepe azul ou dourada
não há claridade do vento do deserto
toda a serenidade está no teu colo,
na altitude de duas suaves colinas,
peço-te, leva-me contigo
a ver o teu corpo nu deitado
nos meus lençóis, a cama está fria,
leva-me a ver o teu corpo de guitarra, peço-te,
deixa que o destrua e queime
apenas uma vez
dormirei depois coberto pelas tuas cinzas,
deixa ao menos um cabelo no meu peito.
Peço-te.

22 dezembro 2007

please, please, please


The Smiths - Please, please, please, let me get what I want


Good times for a change
See, the luck I've had
Can make a good man
Turn bad

So please please please
Let me, let me, let me
Let me get what I want
This time

Haven't had a dream in a long time
See, the life I've had
Can make a good man bad

So for once in my life
Let me get what I want
Lord knows, it would be the first time
Lord knows, it would be the first time

19 dezembro 2007

You dress to kill - guess who´s dying

Roxy Music - Dance Away



Há poucas bandas com um vocalista que é simultaneamente um verdadeiro hino à classe e ao estilo... É caso para dizer "quando eu for grande quero ser Brian Ferry".




(parêntesis)

Salazarento/a

Obrigado Rui Zink pela melhor expressão que já ouvi, arrisco dizer, em toda a minha equívoca vida.

da insónia

se o corpo permanecesse intacto
se a noite viesse completa, apenas
nua e branca como
água que nascesse luar
das estrelas
eu dormiria.

dormiria se o corpo
pedisse um pouco mais de cansaço,
a luz não esmorece
as ondas quebram ao longe
na escuridão profunda
de um quarto frio
a insónia queima os olhos,
eu dormiria se viesses
na aspereza das crinas
douradas de areia
eu espero
pela contemplação da glória ardente
de um pôr do sol,
se nos campos
outonais chovessem gritos
de planície dormente
eu dormiria.
dormiria se viesses

17 dezembro 2007

do poema de amor

um poema de amor não tem
forma, não tem chão,
não tem desenho ou estudo;
um poema de amor
tem apenas assomos de paixão,
lamentos,
um poema de amor é um
murmúrio, a construção em verso
da dor penetrante e certa;
um poema de amor
é uma planície deserta de cores
outonais sob a luz das estrelas,
o luar nos corpos dos que se deitam
e escrevem com a saliva dos beijos
poemas de amor na pele rasgada.
um poema de amor existe na
concreta dimensão dos corações,
o sangue não pára de correr,
também o frio nasce da luz
das estrelas, também o poema,
o poema de amor.

14 dezembro 2007

Arte

Nas fronteiras os homens esperam ao frio,
Os ombros gelam como pedras,
O granito enterra
Os braços fundo no ventre da serra,
O aroma da turfa preenche o ar,
A respiração condensa debaixo do nariz,
E os guerreiros ferem com as lanças
E as espadas o céu, o sangue não escorre
Ainda pelo granito, pouco faltará,
Ninguém se atreve a dar o primeiro grito,
Quanto mais o primeiro passo,
As pinturas de guerra são a transfiguração
Da dor e do medo, um cavalo basta
Que venha a correr, pesado e escuro
E ferido na barriga pelas esporas
De um guerreiro para responder ao desafio
Que veio do lado oposto da colina,
O vale ecoa em gritos e urros e cortes
De espada e faca,
Nas fronteiras os homens morrem ao frio
E os ombros tombam nas pedras,
Os corpos desfeitos vão a enterrar
No granito da serra.

11 dezembro 2007

avenida das tílias

Eu quero janelas verdes, uma avenida de tílias cheia de sombras primaveris, o perfume dos dias de sol, dois olhos líquidos e fundos... eu quero passar de madrugada e ver os esquilos correr do parque para o jardim, aventurando-se pela estrada. Eu quero ser um esquilo. Eu queria querer-te, mas não quero. Eu quero janelas verdes, uma avenida de tílias e um banco de pedra, musgo e níqueles, ou um muro, uma raiz antiga de árvore onde me sentar, sim, eu quero uma avenida de tílias, duzentos anos de árvores, dois séculos de verde silêncio, mas o silêncio não é perfeito, o silêncio não existe, os murmúrios existem, pois eu quero o rumor das tílias, os seus braços que me levem para a copa das árvores, eu vou com os esquilos de madrugada...
Eu quero janelas verdes, uma avenida de tílias, os meus passos debaixo das tuas janelas, serão verdes? serão tílias?

06 dezembro 2007

Look at all the lonely people

Ah, look at all the lonely people
Ah, look at all the lonely people

Eleanor Rigby picks up the rice in the church
where a wedding has been
Lives in a dream
Waits at the window, wearing the face
that she keeps in a jar by the door
Who is it for?

All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?

Father McKenzie writing the words
of a sermon that no one will hear
No one comes near.
Look at him working. Darning his socks in the night
when there's nobody there
What does he care?

All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?

Ah, look at all the lonely people
Ah, look at all the lonely people

Eleanor Rigby died in the church
and was buried along with her name
Nobody came
Father McKenzie wiping the dirt from his hands
as he walks from the grave
No one was saved

All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?

The Beatles - Eleanor Rigby (Revolver, 1967)

Eu fiz do vento as minhas asas,
o meu país não é tão grande
que nos tenha assim, nus,
margens juntas de um rio,
o sexo contra o sexo, lutando na
glória ardente de um pôr-do-sol.

Eu fiz da tua carne o meu sangue.
Da tua pele, dos teus ombros,
eu fiz o domínio absoluto
das minhas mãos... tu és o meu
regresso à luz dos dias, à pureza
das águas... Oh loucura tão breve.

03 dezembro 2007

Talvez o fogo

Talvez seja a luz, será a luz da noite
que vem caminhando no frio,
uma luz azul que aquece?
Talvez seja o fogo, sim, é o fogo
que diz a verdade...
a pureza da neve está no gelo
e no fogo, no azul do céu
e na alta brancura dos dias
claros.
O fogo trespassa a pele, este fogo
dourado ilumina os corpos
que no escuro se juntam,
o peito nas costas,
o queixo e as mãos nos ombros,
só saliva e sensualidade,
e o fogo na pele dos amantes.

Pela memória dos dias escuros
eu vou beber-te o sangue dos teus braços,
não, vou antes ser o teu sangue, a tua língua
que escorrega pelo fogo, vou antes ser
a respiração dos teus olhos,
a tua boca inteiramente afogada em mim.

Vai, perde-te nas ondas,
eu fico nas sombras,
nas esquinas do vento,
sim, eu fico pelo vento
só mais um pouco,
e talvez, se quiseres, morrer.

02 dezembro 2007

Vê até onde teus olhos, teu cabelo,
teus dedos, tacteando, te deixem ver.

Vê até onde um quarto cheio de luz
negra, perfeita escuridão, te deixe ver.

Vê tudo, vê absolutamente, até onde
o teu corpo, dourado e quente, te deixe:

Desfazendo com teu peito a espuma
das ondas, ou numa margem oculta,

quebrando

o silêncio de um renque de
salgueiros.

29 novembro 2007

Sétima Legião - O Canto e o Gelo



No seu olhar
um rosto a arder
no seu olhar
que eu não sei ver
tão cedo é tarde
o canto e o gelo
tão cedo parte
vem o degelo.

E quando o frio passou
só me ficou o canto do meu medo.
E quando o frio passou
só me ficou o encanto de um segredo.

Tão cedo é tarde
no seu olhar
tão cedo parte
fica o cantar
levou assim
o canto e o gelo
deixou em mim
a noite e o medo.

18 novembro 2007

Ninguém quer abraçar este corpo,
esgotá-lo pela ternura
violenta de uma mordedura,
tomá-lo nos braços
pelas tardes douradas de outono.
Ninguém quer esta brancura
perfeita de mármore,
porção finita do desejo.
A luz percorre
os espaços, quem me vem
atirar para uma cama desabitada
quando de noite cai o frio
das estrelas?

Eu hei-de amar
Serenamente um dia...
Um dia,
hoje não,
também as maçãs esperam
cair, maduras, no chão.
Eu hei-de sorrir serenamente,
angustiado
e triste: ninguém quer aquecer
este corpo abandonado.
Ninguém que ensinar este corpo
a viver,
ninguém quer abraçar este corpo.

12 novembro 2007

pequena luz

Dois olhos líquidos a lembrar
aquele perfume a beijos,
vagas inteiras de mar,
dois corpos que ardiam
à luz de um poema.

A chuva cai nos umbrais.
Toda a tarde chora
num ímpeto de claridade,
cai serena e triste
a chuva nos umbrais.

Caem cravos no teu peito,
desfolhados caem
pela tua pele,
são pétalas de sangue
com sabor a mel.

22 outubro 2007

Noite

Diz-me o que pensas
De seres tão escura,
Ó Noite,
E de o mar ser tão fundo
Que nenhum som debaixo
Das ondas existe; E de veres
O sol pôr-se do outro lado
Do mundo, depois do mar,
E nunca o veres.

Diz-me, Noite, o porquê
De as palavras me ficarem
Pela metade, pela metade do caminho,
Eu não sei o que mais dizer
E disse tão pouco do que tinha
Para escrever.
Diz-me porque me doem
Nos olhos, na boca, na pele
As aves que sobem
E fogem
Das minhas mãos,.
Noite, eu nunca as fechei
E as janelas,
Essas estão de par em par abertas.
Diz-me, noite, o porquê
De as ruas nunca estarem desertas
Quando ela passa para eu saltar
Da janela
E fundo mergulhar
Nos olhos dela,
Cinzentos
Com um bocadinho de mar.

Essa a razão porque gritei.
Se puder, noite, deito-me
Sozinho em cima das nuvens.
A luz não escolhe
Quem quer resgatar da sombra.

Diz-me o que pensas
E eu dir-te-ei quem és.
Ó Noite tão escura.

Ainda as escadas (perspectiva)

Era a lenta surpresa de um vulto de mulher. Um vulto que parece certo e definitivo na vaga luz de um vão de escadas ou nas ombreiras de uma porta. Esse era o teu vulto, desenhado a carvão; perfumado. Que eu sentia preso quando, debaixo da negrura das sombras, tu oferecias o teu peito e as tuas coxas à força destruidora das minhas mãos. Paixão ardente. Vermelho assim.

0.1

"O quê! Sem saciar a avidez dos meus lábios?!"

Foi assim que me olhaste hoje de manhã.

19 outubro 2007

Até amanhã

Disse ele, Até amanhã, e tamanhas palavras, assim ditas, tiveram o efeito de um grande terramoto, nos instantes seguintes dir-se-ia que as pedras escuras do castelo desabavam inteiras e todo aquele lugar era arrastado para um outro onde as paredes ruíram e jazem inertes ao nível do chão num monte de cimento picado, mas esta casa não desabou, o telhado continua direito, no mesmo ângulo em que foi construído para escoar as águas e proteger dos raios homicidas do sol forte de Julho, os alicerces não foram perturbados, muito ou pouco fundos lá permanecem, se sequer existem, as raquíticas paredes vagamente brancas, escurecidas pela humidade aí estão para quem as quiser ver, por fora com menos saúde, por dentro melhores, É fazer o favor quem quiser entrar, nós o que fazemos é muito simples, subimos as escadas muito depressa, ele à frente, puxando-me pela mão, eu atrás subindo um pouco a saia, antecipando talvez o que o desejo dificilmente deixa esconder, ou ajudando as pernas a depressa completarem os esforço dos degraus, saltamos o patamar, que todo o tempo é precioso, tropeçamos um no outro, a descoordenação é total, as pernas quase se cruzam, mas no fundo não importa porque mais tarde estaremos tão perto um do outro que a distância mínima que está entre nós agora parecerá um enorme rio que separa duas margens, o patamar ficou para trás, pequeno e sombrio, faltam poucas escadas, a porta já a vemos, as chaves estão nos bolsos, em qualquer deles podem estar, são poucos, são muitos, não sabemos, são agora apenas bolsos que guardam as chaves que são absolutamente necessárias para abrir a porta, não nos passaria pela cabeça, apesar de a respiração ir tomando conta dos pulmões, deitar abaixo a estúpida da porta que nas ombreiras se apoia para não nos deixar passar, e no entanto tudo é possível agora, somos capazes de destruir paredes como se os beijos que entretanto imaginámos fossem marretas e picaretas, felizmente a porta abriu-se facilmente, resta o corredor estreito onde a luz da tarde vem descansar os cabelos, aqui não pode ser, para o que queremos temos o quarto, uma cama com quatro pés e um colchão e lençóis e duas almofadas, será já demasiado para que dois amantes se amem e se destruam com língua e beijos, finalmente chegamos ao quarto, se não nos perdemos pelo caminho, nós e quem nos ouvir contar como fazemos amor, lá está a cama e os lençóis e debaixo deles o colchão, se é confortável não queremos saber, eu estou já despida da cintura para cima, a memória da roupa que trazia não existe, a blusa branca ou azul, uma delas ficou lá atrás. Atiramo-nos para a cama que se queixa da violência do embate, um pouco mais de força e tínhamo-la quebrada em duas metades, Ele despe-se lentamente diante de mim, Ela deita-se na cama, apoiada nos cotovelos, atira a cabeça e o cabelo para trás, a claridade deixa-lhe metade da cara num resto de sombra, está despida da cintura para cima, a blusa branca que trazia com botões forrados a renda rendeu-se nas minhas mãos, mais nada foi preciso pedir que saísse do meu caminho, o peito está nu, a descoberto, consciente da minha sede, Ele agora despe o resto da roupa, está nu à minha frente, avança para a cama, a minha saia castanha faz uma vénia e lentamente deixa adivinhar a pele das coxas, toda a tarde é desejo, frutos e sol, depois os olhos recebem a escuridão, fechados como um túmulo de pedra esculpida, nasce o grito do fundo da boca.

Deixam-se as palavras à porta do desejo, as paredes brancas bebem a luz e as palavras, o sol e o verbo, recuamos pelo mesmo caminho, da porta do quarto pelo corredor até à porta da casa, aquela que nas ombreiras se apoiava para não nos deixar passar, pelas escadas rapidamente até aos últimos degraus para a rua e o ar que de novo se respira, afinal não houve por aqui terramoto algum, apenas a mais pequena brisa sopra no estreito flanco da rua que dorme ao relento sob as luzes amarelas dos candeeiros, dentro de uma janela ouvem-se duas palavras, ou melhor, ouve-se um silêncio insuportável, depois duas palavras, mais um pouco de silêncio e por fim um pranto mudo, pacífico, dormente, daqueles em que as lágrimas correm para dentro em vez de para fora seguindo os trilhos da pele.

16 outubro 2007

No princípio é simples:
nada resta depois do sol,
a estepe cedo apaga
a presença dos pés que
nela caminham. Nada resta depois
de um sorriso, a erva gasta,
palha solta e perdida aqui e ali,
marcada com o odor que nela
deixam os que sobre ela
se deitam,
também a chuva morre
nos braços do chão, agonizante.

E depois?

03 outubro 2007

Não conheço uma palavra
do que disse a boca

que de noite falou
e disse, À beira da morte
todos escurecem.

Não conheço, sei que a noite
é tanta que não chega
para na noite, ela própria,
caber, e fazer dormir

os olhos tão claros.
Que neles a luz existe.

Eu não sei
que vem a luz fazer
a este quarto esta cama
entrar por esta janela,

que a noite basta porém
para nela se escrever
o canto e o gelo,
funestíssima dor
de um dia escuro que passou,

a dor de nunca ser,
e não poder saber
o que vem afinal a luz
aqui fazer.

28 setembro 2007

Setembro #2


Setembro fez-se de outra luz, uma luz quase-luz que se vai perdendo no ponto de fuga de um sorriso outonal. Ou da primeira folha seca que acaba de se soltar e vai caíndo no chão. Setembro fez-se de outra luz, a última dos dias claros, esses que te vão fugindo por entre os dedos. Setembro fez-se de uma praia sem sombras, de marés-vivas.

Setembro é uma aguarela para se pintar do som do mar.

22 setembro 2007

Setembro #1

Setembro: que lugar para dormir - ou nessas folhas que ardem pelo chão da tarde.
A sombra desse beijo que trazia abria-lhe nos lábios um corte profundo de cor escura. Era outro rosto, outros desenhos de ti que ele esperava, talvez pintados a lápis de cor e sem sair do limite. Mas esses olhos que usas teimavam em sair da própria luz do dia, exilados de ti numa outra margem ou pedaço de céu. Fugiam sempre, penetrando noutras fendas da minha pele. Era a tua voz que queria, para ir colher a primeira luz fria dasmanhãs, ou essa luz escura que cai depois do Sol.

Hoje tentei deslizar sobre a tua pele, querendo voltar a esse corpo de sal. Partir para não chegar, e sobretudo não voltar. Sair de mim, voltar a ti, ser tudo o que não sou para ser tudo em ti e voltar a mim no mesmo instante, sem pensar se me perdi ou se te encontrei. Gozar de toda a liberdade poética para te ousar, ir buscar-te onde não estás e deixar-te comigo onde não estávamos, estar contigo em lugar nenhum e visitar todo o lugar. Não te rias. Nem sempre o sonho serve para nos rirmos dele.

A sombra desse beijo que trazias abriu-me nos lábios um corte profundo de cor escura, uma fenda para onde te vais esgueirando e espreitando para dentro de mim. Descansa. Setembro: que lugar para dormir. Descansa: "o amor não contempla, sempre o amor procura".